ABHH em Revista #03/2021
25 a r t i g o JÁ ENFRENTEI VÁRIAS SITUAÇÕES como a que estamos vivendo agora como médico e gestor. Traba- lhei na linha de frente com pacientes com meningite na década de 1970. Atuei no combate à transmissão do vírus HIV nas décadas de 1980 e 1990 e presen- ciei, infelizmente, a morte de um número grande de pacientes com hemofilia pela transmissão do vírus por hemoderivados. Importante salientar que, nesse período, não haviam as técnicas de inativação viral ou produtos recombinantes. Trabalhei, como gestor de saúde, no enfrentamento de doenças infecciosas como a cólera e, nesta última década, das arboviroses (dengue, zika, chikungunya e febre amarela). Estas duras experiências me ajudaram a enfren- tar o Sars-Cov-2/Covid-19. Os desafios foram muitos, assim como os aprendizados. Aprendi, na experiência que tive como médico e secretário de saúde de Campi- nas, que a pandemia uniu muitas especialidades mé- dicas e instituições públicas e privadas. Tivemos muitos erros na condução da pandemia. Lamentavelmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) ainda falha em relação à vacinação. Não se de- veria admitir que um país rico comprasse mais vacinas do que precisa para sua população enquanto dezenas de outras nações fiquem sem o imunizante. Falta um trabalho de organização e harmonização dos recursos que garanta o acesso à vacina. Todo o esforço mundial no combate à pandemia estará comprometido caso não haja acesso universal ao imunizante. Houve ainda um retardo do alerta das autorida- des chinesas e da OMS. A declaração da pandemia um mês antes teria diminuído o fluxo de pessoas e aglomerações. O uso de máscaras deveria ter sido adotado logo no início da transmissão do vírus. No Brasil, sofremos com a falta de um eficiente coman- do central e a politização em torno do assunto, bem como o negacionismo e fake news. No campo da on- cologia, milhares (ou talvez milhões) de exames de rastreamento e diagnóstico deixaram de ser feitos, havendo um represamento de todos os procedimen- tos como as cirurgias. O Brasil, para evitar um colapso, precisará criar urgentemente um programa que avalie a dimensão do problema da oncologia e procure traçar no âmbi- to do SUS estratégias de enfrentamento. Talvez este seja um novo “tsunami” dentro da saúde pública a ser enfrentado após, ou mesmo, durante a pandemia. No caso de outras doenças crônicas não transmissíveis, o atraso na ida aos serviços de saúde por diversas causas, entre elas, o medo da pandemia, certamente também gerará agravamentos. E, pior, não sabemos quanto tempo conviveremos com “dois sistemas de saúde”: o específico para a Covid-19 e o que cuida dos demais doentes. Espero que as lições que a pandemia tem trazido sejam aprendidas a tempo pelas autoridades da área da saúde no Brasil e no mundo porque, como esta- mos continuamente expostos a doenças vetoriais, zoonoses, endêmicas e/ou sazonais, sabemos que o combate aos vírus não tem fim. Novas ondas, prova- velmente com novas mutações, poderão ocorrer, cau- sando novas ondas de contaminação pelo mundo. E precisamos estar preparados para enfrentá-las com as melhores estratégias. O que aprendemos com a Covid-19 Prof. Dr. Carmino Antonio de Souza Professor titular da Unicamp, diretor da ABHH e conselheiro da Fapesp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020 03 / 2021 A B H H e m R e v i s t a
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