ABHH em Revista #03/2021
03 / 2021 A B H H e m R e v i s t a 29 a r t i g o NA CRÔNICA “Sobre a morte e o morrer”, o escri- tor Rubem Alves escreve: “Mas tenho muito medo de morrer. O morrer pode vir acompanhado de do- res, humilhações, aparelhos e tubos enfiados em meu corpo, contra a minha vontade; (...) dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue.”. O conceito de cuidados palia- tivos, geralmente mencionado como uma estratégia de cuidado quando todas as opções de tratamento curativo foram esgotadas, é mal interpretado como o atendimento no fim de vida. Essa concepção equi- vocada é um obstáculo para sua aplicação. Pela Organização Mundial da Saúde (OMS), os Cuidado Paliativos são uma abordagem que “promo- ve a qualidade de vida de pacientes e familiares que estejam lidando com uma doença ameaçadora da vida por meio da prevenção e alívio do sofrimento ao identificar e tratar precocemente a dor e outros problemas físicos, psicossociais e espirituais”. Por- tanto, sua abordagem inclui alívio e prevenção de sintomas físicos, apoio emocional, espiritual e social ao paciente e seus familiares/cuidadores por meio da atuação de uma equipe multidisciplinar qualificada. Um ponto crucial é definir o objetivo do cuidado não apenas em sua biologia (físico/doença), mas tam- bém considerar a biografia do paciente e seus valo- res de vida. Evidências crescentes têm destacado os benefícios dos cuidados paliativos, tais como a redução na carga de sintomas e dos recursos financeiros, melhorias na qualidade de vida e no humor e até mesmo um au- mento no tempo de vida. Na contramão disso, dado o contínuo avanço nas terapêuticas disponíveis, os pa- cientes hematológicos têm menor acesso aos serviços de cuidados paliativos e acabam recebendo tratamen- tos agressivos mesmo quando próximos da morte. A literatura científica sobre essa abordagem já demons- tra seu impacto positivo na assistência aos pacientes submetidos ao transplante de medula óssea alogênico, assim como favorece os pacientes portadores de doen- ças hematológicas benignas devido à elevada carga de sofrimento biopsicossocial. Não há limite de tempo e prognóstico para esse conceito ser aplicado, mas há indícios de que os gran- des benefícios ocorrem no diagnóstico, antes dos es- tágios finais nas trajetórias das doenças. Encaminhar um paciente para acompanhamento precoce com os cuidados paliativos não significa que ele não possua possibilidade de cura ou que não haja tratamento curativo disponível. Eles são indicados em quaisquer situações em que há uma carga de sintomas impor- tante e/ou uma doença potencialmente ameaçadora da vida seja qual for a probabilidade de cura. Ciente da necessidade de expandir esses conheci- mentos, a ABHH criou o Comitê de Cuidados Paliati- vos, o qual é composto por hematologistas especiali- zados nessa área. Alguns objetivos do comitê serão: divulgar o conceito de cuidados paliativos e desmis- tificá-lo, incentivar sua implementação nos Serviços de Hematologia, disponibilizar a educação continua- da aos profissionais, desenvolver projetos de pesqui- sa e estimular discussões entre as diferentes áreas da Hematologia, considerando as particularidades dos pacientes hematológicos. Acreditamos que a criação do comitê legitima a importância dos cuidados palia- tivos no cuidado integral ao paciente hematológico, sendo uma conquista tanto para os pacientes quanto para os profissionais de saúde. Curar quando é possível, aliviar sempre Dra. Amanda Pifano Coordenadora do Comitê de Cuidados Paliativos da ABHH
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