LEIA NESTA EDIÇÃO #05 / 2022 A terapia com células CAR-T é certamente um avanço para a medicina e atuação da ABHH tem sido fundamental para ampliar a discussão sobre o acesso no país NO BRASIL CAR-T CELL Novo presidente da ABHH, Dr. José Francisco Comenalli Marques Júnior fala dos seus planos à frente da entidade página 06 Associação Ítalo-brasileira de Hematologia (AIBE) chega aos 18 anos de atividades ainda mais fortalecida página 20 Pioneiro no TMO, Dr. Ricardo Pasquini completa 60 anos de medicina e mais de 50 dedicados à hematologia página 30 ABRE ASPAS ESPECIAL PERFIL
05 / 2022 A B H H e m R e v i s t a 3 índice carta ao leitor p.04 | diretoria p.05 | nas redes p.35 abre aspas p.06 especial p.20 debate ABHH p.12 Pioneiro no TMO no Brasil, o Dr. Ricardo Pasquini é referência para inúmeras gerações Dr. José Francisco Comenalli Marques Júnior, presidente da ABHH no biênio 2022-2023 Especialistas analisam o panorama e uso do CAR-T Cell no Brasil AIBE completa 18 anos de fundação abrindo as portas para a nova geração perfil p.30 jovens especialistas p.28 abhh em ação p.24 Associadas falam da importância das redes sociais na comunicação com os pacientes ABHH vai até o Amazonas em visita ao HEMOAM
A B H H e m R e v i s t a 05 / 2022 4 carta ao leitor Caro associado, é com prazer que oferecemos a primeira ABHH em Revista de 2022. O assunto de capa é histórico para nós porque abordamos um assunto de extrema relevância: a terapia com células CAR-T e os desafios regulatórios, de comercialização e de acesso ao paciente no Brasil. Nos últimos anos, a ABHH estimula ativamente a realização de eventos sobre o CAR-T Cell no HEMO e por meio dos encontros de Terapias Avançadas, Células e Genes (TACG), que este ano teve sua terceira edição em agosto. A longa reportagem que você confere nesta edição histórica mostra nosso otimismo com essa terapia celular avançada e ressalta os desafios que ainda precisamos discutir e ultrapassar no tema células CAR-T. Nesta edição, convidamos você a conhecer os planos do novo presidente da ABHH, Dr. José Francisco Comenalli Marques Júnior. É uma oportunidade de conhecer melhor esse hematologista experiente e dedicado aos seus pacientes que, nos últimos 14 anos, atua incessantemente no trabalho associativo dentro da ABHH. Seguindo com outros destaques desta edição, chegamos ao Paraná para conversar com o Dr. Ricardo Pasquini. Em 2022, ele completa 60 anos dedicados à medicina e hematologia. Referência para muitas gerações, o Dr. Pasquini conta um pouco da sua história e da sua paixão pela hematologia. Do Paraná para a Itália, celebramos na edição os 18 anos da Associação ítalo-brasileira de Hematologia (AIBE). Criada por brasileiros e italianos, conversamos com o hematologista italiano Massimo Federico, que fez um balanço dessa cooperação longeva que atravessa o Atlântico. Outro destaque desta edição, não menos importante que outros, foi a visita, em julho, da ABHH ao Amazonas com o objetivo de conhecer as instalações e o futuro HEMOAM Hospital. Foi uma oportunidade de ver de perto os desafios dos gestores locais. A visita faz parte do Programa Equidade ABHH, criado pela atual gestão para aproximar a Associação dos mais diversos locais do país em um movimento de geoequidade. Esperamos que você aproveite mais uma edição da ABHH em Revista e que ela impacte significativamente em sua rotina acadêmica e profissional. Ótima leitura! Uma edição histórica Dr. Renato Sampaio Tavares e Dr. Jorge Vaz Pinto Neto Diretoria de Comunicação ISSN 2179-4855 ABHH em Revista é uma publicação semestral da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) distribuída gratuitamente para médicos. O conteúdo da publicação é de inteira responsabilidade de seus autores e não representa necessariamente a opinião da ABHH. JORNALISTA RESPONSÁVEL Roberto Souza (Mtb 11.408) REPORTAGEM Danilo Gonçalves Diego Garcia Fernando Inocente Leila Vieira REVISÃO Celina Karam PROJETO EDITORIAL Madson de Moraes PROJETO GRÁFICO Leonardo Fial DESIGNERS Leonardo Fial Lucas Bellini Marcelo Cielo Rafael Bastos FOTO DE CAPA Getty Images CONTATO COMERCIAL Caroline Frigene RS PRESS EDITORA Rua Cayowaá, 228 – Perdizes São Paulo – SP – 05018-000 (11) 3875-6296 rspress@rspress.com.br www.rspress.com.br ABHH Rua Dr. Diogo de Faria, 775, conj. 133 Vila Clementino São Paulo - SP (11) 2369-7767 / (11) 2338-6764 abhh@abhh.org.br www.abhh.org.br @abhhoficial
05 / 2022 A B H H e m R e v i s t a 5 DIRETORIA ABHH 2022-2023 Conheça os especialistas que integram a direção da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular Dante Mário Langhi Jr. Diretor Administrativo Rodrigo Calado Vice-Diretor Científico Alfredo Mendrone Júnior Diretor Financeiro Angelo Maiolino Vice-Presidente Dimas Tadeu Covas Diretor Científico Eduardo Magalhães Rego Diretor de Relações Institucionais Carlos Sérgio Chiattone Vice-Diretor de Relações Institucionais José Francisco Comenalli Marques Júnior Presidente Glaciano Nogueira Ribeiro Diretor de Defesa Profissional Celso Arrais Vice-Diretor de Defesa Profissional Carmino Antônio de Souza Coordenador de Comitês Roberto Passetto Falcão Diretor Científico Emérito Renato Sampaio Tavares Diretor de Comunicação Leny Nascimento da Motta Passos Vice-Diretora Financeiro Jorge Vaz Pinto Neto Vice-Diretor de Comunicação Silvia Maria Meira Magalhães Vice-Diretora Administrativa
A B H H e m R e v i s t a 05 / 2022 6 Meu projeto é servir a ABHH e, no futuro, ser lembrado por ter servido bem Foto: RS Press abre aspas
05 / 2022 A B H H e m R e v i s t a 7 Sonho ver os nossos herdeiros da Hematologia se empenhando cada vez mais para a evolução da especialidade, vendo-a crescer da mesma maneira vertiginosa que tive a oportunidade de testemunhar Presidente eleito para conduzir a ABHH no biênio 2022-2023, o Dr. José Francisco Comenalli Marques Júnior detalha seus planos para a entidade Por Danilo Gonçalves E leito para presidir a ABHH pelos próximos dois anos, o hematologista José Francisco Comenalli Marques Júnior nasceu em Amparo, em São Paulo, mas viveu a infância e a adolescência em Piracicaba, cidade onde fez o ginásio, colegial e cursinho preparatório. Na década de 1980, ele se formou em medicina na Universidade Estadual Paulista de Botucatu, onde concluiu sua residência médica em Hematologia e Hemoterapia. Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), fez mestrado, doutorado e especialização, dedicando mais de 30 anos de sua vida à instituição, primeiramente como médico do hemocentro e se tornando, mais tarde, médico contratado da universidade. Aposentou-se em 2020. Sua doação ao trabalho associativo de fortalecer a Hematologia e Hemoterapia no Brasil começou antes mesmo da própria criação da ABHH em 2008 – ele integrou o grupo de médicos responsável pela fusão da então Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (SBHH) e Colégio Brasileiro de Hematologia (CBH). Em seus 10 anos de atuação na ABHH, Marques atuou em inúmeras gestões, sendo membro do Conselho Fiscal, diretor de Defesa Profissional e vice-presidente da entidade. Com quase 40 anos dedicados à hematologia e a seus avanços, o médico, de 62 anos, comenta, entre outros assuntos, o desafio de liderar os projetos que a ABHH desenvolve com foco no paciente e nos associados. No seu discurso de posse durante o HEMO 2021, o senhor disse que deseja servir. O que os associados podem esperar dessa gestão? No discurso, disse que meu projeto é servir a ABHH e, no futuro, ser lembrado por ter servido bem. Esse servir se traduz em dedicação ao trabalho e eficiência das ações, além, obviamente, do diálogo inclusivo e da atenção às demandas de cada associado. Em outras palavras, servir, no seu real significado, é objetivar a evolução institucional e investir tempo e criatividade para gerar resultados JOSÉ FRANCISCO COMENALLI MARQUES JUNIOR 62 anos Doutor em Clínica Médica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Foi médico do Hemocentro da Unicamp Atualmente, é hematologista dos Hospitais Vera Cruz e Beneficência Portuguesa de Campinas
A B H H e m R e v i s t a 05 / 2022 8 positivos tanto aos profissionais de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular, quanto aos pacientes que usufruem das conquistas alcançadas pela ABHH. Em outro trecho, o senhor enfatizou a importância de ouvir a todos. É uma característica pessoal que imprimirá à gestão? Essa será a visão da minha atuação como presidente da ABHH. É o que eu chamo de sustentabilidade intelectual, que busca aproveitar o talento das pessoas, quem quer que sejam elas, e acima de ideologias, tendências, afeto ou empatia. Em outras palavras, é ouvir e aproveitar sem interferências pessoais ou conceituais os assuntos, contribuições e opiniões de pessoas com intenção de colaborar sem considerar quaisquer características que não estejam ligadas à essa contribuição. Foi com essa visão que eu trabalhei a vida toda como médico hematologista e com a qual tenho trabalhado nesses 10 anos de doação à ABHH. O que representa em sua carreira profissional assumir a presidência da ABHH? Ser presidente da ABHH é o ponto mais alto da minha carreira! Uma realização profissional e imensa sensação de utilidade. Quais serão as metas para os próximos dois anos? A ABHH está madura e bem consolidada, representativa e ativa nas suas diversas ações. Vamos continuar com as diversas iniciativas em andamento, fruto do trabalho das gestões passadas, mas sem represar as novas. No grau de maturidade em que estamos, novos projetos podem ser priorizados, mas devem ser bem estudados para se mostrar eficientes e úteis para nossa estratégia e ações com associados e pacientes. Seguiremos com a estruturação administrativa interna, iniciada na última gestão. Esse trabalho, apesar de ser um complexo e de bastidores, imperceptível para o público externo, nos apoiará a seguir evoluindo para realizar as crescentes demandas que estão surgindo e cada vez mais surgirão dentro da ABHH. O que o senhor pensa para o programa Sangue Jovem e o de Apoio ao Residente Médico? O principal é atrair os alunos de graduação para a Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular, porém, não menos importante, é consolidar conceitos dessas especialidades em alunos de graduação e residentes, independentemente de seguirem a carreira como hematologista ou hemoterapeuta. É ensinar conceitos básicos dessas especialidades, úteis aos médicos generalistas e aos que seguem outras especialidades. É ter médicos não hematologistas que saibam indicar corretamente uma transfusão, que saibam interpretar corretamente um hemograma, por Ser presidente da ABHH é o ponto mais alto da minha carreira! Uma realização profissional e imensa sensação de utilidade abre aspas
05 / 2022 A B H H e m R e v i s t a 9 exemplo. É discernir entre o tratamento de uma anemia ou encaminhar uma leucemia. É dar à Hematologia e à Hemoterapia a real importância na linha de cuidado dos pacientes quando seu conhecimento for necessário. Aos jovens especialistas, o que o senhor pode dizer quanto ao que esperar do horizonte da hematologia, hemoterapia e terapia celular nos próximos anos? Só sigam essa especialidade se forem capazes de encarar desafios e gostarem muito de estudar, pois essas características o perseguirão por toda a vida profissional. E outra coisa: a Hematologia vicia! Difícil sair dela depois de a terem escolhido. Como a ABHH fortalecerá as pautas e demandas de interesse dos pacientes que representa? É um grande desafio e essas pautas são constantemente demandadas. Nos últimos anos, após a criação em 2018 do Comitê de Acesso a Medicamentos, muitas ações foram concretizadas com a melhora significativa do acesso a tratamentos mais efetivos e menos tóxicos para os pacientes que precisam do Sistema Único de Saúde. Alguns exemplos recentes dessas ações da ABHH são a expansão do uso do Rituximabe para linfomas além do LDGCB e o Bortezomibe para Mieloma Múltiplo, entre várias outras. Mas há muito que fazer e vamos continuar fazendo. Temos médicos renomados, com experiência acadêmica e de gestão, em todos os Comitês da ABHH. A pandemia segue causando impacto no tratamento dos pacientes? Sim, e ainda traz transtornos em todos os aspectos da saúde com alguns mais contundentes como, por exemplo, atrasos em tratamentos quimioterápicos e TMOs e Quem convive com o Dr. José Francisco Comenalli Marques Júnior conhece seu lado escritor ou, como ele gosta de dizer, de “desabafador de sentimentos”. Em 2020, a ABHH reuniu alguns dos principais textos escritos pelo médico hematologista no livro “Muito além do agora – Crônicas e ref lexões” (Ed. RS Press, 86 páginas), cujo lançamento aconteceu durante o HEMO PLAY 2021. Baixe o livro “Muito além do agora” Baixe gratuitamente o livro! MUITO José Francisco Comenalli Marques Júnior Crônicas e reflexões
A B H H e m R e v i s t a 05 / 2022 10 queda nas doações de sangue e suas trágicas consequências. A ABHH sempre se mostrou solidária e muito comprometida com essas intercorrências, o que motivou um dos nossos maiores projetos, o programa “Um só Sangue”, que tem se tornado robusto e com resultados espetaculares desde a sua criação. O CAR-T Cell promete ser o assunto científico do ano para a ABHH? O acesso a novas tecnologias, como o CAR-T, será um desafio enorme pela complexidade dos procedimentos e o alto custo envolvido, mas extremamente necessário para várias condições em que pacientes se encontram sem perspectivas terapêuticas no momento. Logicamente, toda fronteira do conhecimento exige uma dedicação maior para se entender e se adaptar a uma prática mais específica para o nicho de pacientes que no momento não apresentam alternativas terapêuticas, exatamente o que o CAR-T se propõe nesse momento de sua maturação. A ABHH, claro, vai investir muito no aspecto científico e de acesso para que essa modalidade terapêutica cumpra o seu papel no benefício dos pacientes. Uma preocupação do senhor é fazer com que as ações da ABHH cheguem efetivamente ao conhecimento dos associados. O que pensa nesse sentido? Produzimos muito conteúdo que, infelizmente, não atinge um grande número de hematologistas como desejaríamos. Estamos desenhando várias estratégias de comunicação e marketing para que haja uma maior penetração da ABHH na vida e no dia a dia de hematologistas, hemoterapeutas e pacientes atendidos por eles. Até estamos usando, junto à nossa comunicação, com muita frequência, o termo capilaridade, que bem traduz nossa ideia e preocupação. O senhor tem 38 anos de hematologia e hoje ocupa a presidência de uma entidade grande como a ABHH. O que ainda sonha alcançar? Sonho ver os nossos herdeiros da Hematologia se empenhando cada vez mais para a evolução da especialidade, vendo-a crescer da mesma maneira vertiginosa que tive a oportunidade de testemunhar e, lá na frente, olhar para trás e sentir que tudo valeu a pena. Clique aqui para ler a íntegra do discurso de posse do presidente da ABHH. abre aspas
05 / 2022 A B H H e m R e v i s t a 11
A B H H e m R e v i s t a 05 / 2022 12 CAR-T Cell: para onde vamos? A terapia com células CAR-T é certamente um avanço para a medicina e atuação da ABHH tem sido fundamental para ampliar a discussão sobre o acesso no Brasil Por Madson de Moraes debate ABHH
05 / 2022 A B H H e m R e v i s t a 13 N o Brasil e no mundo, o tratamento com células T modificada para expressar o receptor de antígeno quimérico (CAR-T) é uma nova modalidade de tratamento oncológico que tem demonstrado taxas de resposta notáveis em doenças refratárias ou recidivadas como leucemia linfoblástica aguda (LLA), linfomas e mieloma múltiplo. Nos últimos anos, a Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) atua ativamente nesse debate sobre produtos de terapia gênica com participações de seus membros em encontros e discussões dessa área do ponto de vista científico, educacional e, recentemente, de incorporações dessas novas tecnologias ao sistema de saúde. O ponto alto dessa atuação se deu em 2021 com a publicação do Consenso Brasileiro sobre Células Geneticamente Modificadas. Elaborado por especialistas da ABHH em doenças onco-hematológicas, hemoterapia e terapia celular e transplante de medula óssea, o documento traz recomendações sobre esta inovadora modalidade terapêutica. O coordenador dos Comitês Técnico-Científicos da Associação, Dr. Carmino Antônio de Souza, ressalta que a atuação da entidade tem sido fundamental para ampliar a discussão sobre o CAR-T Cell no país. “Em 2021, a ABHH deixou claro sua posição em um editorial na Hematology, Transfusion and Cell Therapy e já fizemos três edições do encontro de Terapias Avançadas Células e Genes, interinstitucionais e internacionais, em que discutimos inúmeros aspectos da implantação do procedimento no país. É assim que seguiremos: apoiando as iniciativas neste campo e promovendo encontros, eventos e ações para sua concretização. O trabalho da ABHH é institucional e pautado sempre na defesa de nossos especialistas e pacientes”, afirma o coordenador, que é professor de Hematologia e Hemoterapia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Atualmente, há cinco produtos de células CAR-T aprovados pelo Food and Drug Administration (FDA). Este ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o primeiro registro sanitário para uso comercial das células CAR-T no Brasil para pacientes com Linfoma Difuso de Grandes Células B recidivado e/ou resistente e, também, para pacientes com Leucemia Linfoide Aguda da infância e de adultos até 25 anos, também na recidiva. Isso foi possível graças às duas resoluções publicadas pela Anvisa no ano passado, a RDC 505/2021 e RDC 506/2021 que, com base em diretrizes de agências regulatórias da Europa e dos Estados Unidos, regulamentou o registro de produtos de terapia avançada e estabeleceu regras para a realização de ensaios clínicos com esses produtos no Brasil. Coube a ABHH fomentar esse debate com a participação da Anvisa e de especialistas de todo o mundo sobre CAR-T Cell com a realização de um evento singular no país e América Latina: o encontro de Terapias Avançadas Células e Genes, que segue para sua terceira edição este ano. “A Anvisa já mostrou seu papel ao publicar as resoluções Em 2021, a ABHH deixou claro sua posição em um editorial na Hematology, Transfusion and Cell Therapy e já fizemos três edições do encontro de Terapias Avançadas Células e Genes, interinstitucionais e internacionais, em que discutimos inúmeros aspectos da implantação do procedimento no país Dr. Carmino Antônio de Souza, coordenador dos Comitês Técnico-Científicos
A B H H e m R e v i s t a 05 / 2022 14 para terapia avançada. A própria indústria também se beneficia com os produtos que virão ao Brasil e há iniciativas de financiamento em pesquisa. Faltava apenas que as associações científicas, como a ABHH, se pronunciassem com a palavra dos especialistas, o que fizemos recentemente com a publicação do Consenso Brasileiro”, destaca o Dr. Renato Cunha, membro do Comitê de Terapia Celular da entidade, que coordenou o Consenso. Coordenador da Unidade de Transplante de Medula Óssea e Terapia Celular do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), ele realizou em 2019 o primeiro tratamento de um paciente com células CAR-T no país. “A Anvisa trabalha junto aos profissionais da área desde o primeiro momento e tem demonstrado interesse e competência para que as questões regulatórias não sejam um empecilho à introdução do procedimento no Brasil”, observa o Dr. Carmino. Desafios atuais Embora o CAR-T Cell apresente resultados promissores – e comprovados – para leucemia e mieloma em estudos e pesquisas recentes, sua implantação e desenvolvimento no Brasil e no mundo ainda demandará muitas e constantes pesquisas, treinamentos e cooperações entre os países. A complexa produção de células CAR, o acesso do paciente do setor suplementar e público ao tratamento, os efeitos adversos na aplicação da terapia, a capacitação e o treinamento de hematologistas e equipe para reconhecer e tratar essas complicações, a estrutura adequada para os centros que realizarão este tipo de tratamento e o monitoramento do paciente são questões em discussão. Atualmente, grupos de pesquisa ou indústrias farmacêuticas desenvolvem novos produtos com células CAR-T. Sobre o ambiente regulatório, o professor da USP avalia que as resoluções publicadas pela Anvisa, em 2020, foram fundamentais para o debate sobre o CAR-T Cell no Brasil, mas ela ainda precisa predizer outros pontos, como a regulação sobre estudos e protocolos em estudo como por exemplo, o tratamento de tumores sólidos como o câncer de mama, os gastrointestinais, do pâncreas e fígado, entre outros. “Outros protocolos em desenvolvimento usam tecnologias semelhantes, mas outros, podem ser plataformas bem diferentes para a geração de células CAR-T autólogas ou alogênicas ou células CAR-NK”, detalha. Outro desafio com o CAR-T Cell é o fato de o paciente receber as células em tempo adequado, já que levam um tempo para serem produzidas. Da coleta da célula do Embora o CAR-T Cell apresente resultados promissores – e comprovados – para leucemia e mieloma em estudos e pesquisas recentes, sua implantação e desenvolvimento no Brasil e no mundo ainda demandará muitas e constantes pesquisas, treinamentos e cooperações entre os países debate ABHH
05 / 2022 A B H H e m R e v i s t a 15 paciente até a sua aplicação no paciente, existem etapas de produção e um controle de qualidade nesse processo que pode durar até 40 dias. “Já temos atualmente estratégias para não deixar que a doença evolua até que as células CAR-T fiquem prontas para o tratamento”, explica o hematologista. Os efeitos adversos da terapia também seguem como ponto de atenção dos pesquisadores. Apesar de ser um tratamento com perfil de segurança manejável e eficaz para alguns pacientes com determinadas doenças onco-hematológicas refratárias ou recidivadas, a nova modalidade terapêutica traz também complicações e eventos adversos novos com os quais o hematologista não está familiarizado como a síndrome de liberação de citocinas e as toxicidades neurológicas. “Esses efeitos são temidos ainda, mas, há cada vez mais conhecimento sobre sua fisiopatogenia, modulação clínica e tratamento”, explica o Dr. Carmino. E, além das preocupações com a segurança, o preço associado à terapia, que varia entre 375 e 425 mil dólares, tem sido visto como obstáculo para uma implementação clínica mais ampla do CAR-T Cell. Uma alternativa para torná-lo acessível no Brasil, analisa o Dr. Cunha, seria adquirir a licença de um vetor ou produto já aprovado em todas as fases pelas autoridades competentes. “Nesse caso, precisaríamos trabalhar com questões de royalties e licenciamento de mercado. Acho que esse é um caminho para fazer o CAR-T Cell mais acessível para nossos pacientes. Iniciativas acadêmicas, como a espanhola, são muito promissoras do ponto de vista de acesso, que é algo que temos discutido bastante”, ressalta. “O Brasil tem um sistema híbrido de saúde. A indústria farmacêutica pode trazer o produto e entregar para o sistema de saúde suplementar ou mesmo vender para o Ministério da Saúde. Ao mesmo tempo, o Brasil pode ter iniciativas próprias que ofereça a possibilidade de ser produzido em território nacional com a expectativa de seguir um caminho semelhante ao da indústria, porém, com custo e valores adequados para a nossa realidade”, avalia o pesquisador da USP. E quanto ao futuro? Essa e outras alternativas seguem em diálogo para que a incorporação da terapia com Dr. Marco Aurélio Salvino, professor de Hematologia da Universidade Federal da Bahia e coordenador do Centro de Terapia Celular do Hospital San Rafael Dra. Lucila Nassif Kerbauy, médica hematologista transplantadora de medula óssea do Hospital Albert Einstein Dr. Marcelo Pasquini, professor associado de Medicina na Divisão de Hematologia e Oncologia do Medical College of Wisconsin Dr. Alexandre Hirayama, hematologista da Divisão de Pesquisa Clínica e Centro de Pesquisa Integrada de Imunoterapia do Centro de Pesquisa do Câncer Fred Hutchinso Os especialistas abaixo opinam: o CAR-T Cell será o assunto do ano para a hematologia? Clique no ícone de áudio e ouça! AMPLIANDO O DEBATE Clique aqui para acessar o Consenso Brasileiro sobre Células Geneticamente Modificadas, documento elaborado com a participação de cerca de 60 especialistas.
A B H H e m R e v i s t a 05 / 2022 16 CAR-T Cell seja acessível a todos os pacientes. “Uma de nossas maiores preocupações é garantir equidade aos pacientes brasileiros. Não podemos subtrair de nossa sociedade esses avanços e devemos encontrar alternativas sustentáveis financeiramente em conjunto com todos os atores envolvidos para isso ocorrer, o que a ABHH tem feito. No passado, o TMO parecia inatingível e fomos, gradualmente, encontrando os meios. Espero que assim seja com o CAR-T Cell”, afirma o Dr. Carmino. Nesse cenário, acrescenta o diretor da ABHH, as universidades e os centros de pesquisa devem participar com o desenvolvimento de tecnologias e os processos que facilitem a redução desses custos e aumentem a segurança e a efetividade no tratamento. “Elas precisam estar envolvidas nesse processo com o CAR-T Cell com o objetivo de mitigar riscos aos pacientes. Já temos resultados concretos dessa participação e o mais notório foi obtido pelo grupo de pesquisas da USP de Ribeirão Preto, no qual trabalha o Dr. Cunha. Creio que a criação de acordos e a criação de consórcios entre universidades e centros de pesquisas, como o Instituto Butantã, poderão criar um caminho de acesso por meio do campo acadêmico”, analisa. Na visão de ambos, o CAR-T Cell não substituirá tratamentos onco-hematológicos já utilizados, mas sim oferecerá alternativa ou mesmo ser um complemento a outros procedimentos terapêuticos. “O transplante de medula vai conviver conosco por bastante tempo. O tratamento alogênico deve persistir. O CAR-T, neste momento, assume papel de resgate das terapias e o alogênico tem um papel de consolidação em praticamente 100% das situações. Então, talvez sejam combinados e, com certeza, deve ter combinação com a imunoterapia também. Nesse cenário, acho que o CAR-T talvez entre como agente adicional a outras plataformas como as drogas-alvo”, opina o professor da USP, que vê o Brasil pronto para o uso do CAR-T Cell. “Há uma sintonia entre indústria, academia, associações científicas e outros atores para que a terapia celular avançada encontre um ambiente propício para se consolidar. É possível utilizar a estrutura existente em vários centros de transplante”, diz. A próxima década, opina o pesquisador, será importante para consolidar o tratamento com CAR-T-Cell como opção no Brasil. “A terapia celular avançada é uma área complexa em todos os níveis, não só do ponto de vista de produção e tratamento, mas do ponto de vista regulatório de introdução desse tratamento no mercado. A ABHH cumpre bem o seu papel de criar grupos com especialistas, de estar em contato com os principais atores desse cenário e, por isso, acho que é bastante promissor o cenário brasileiro e sou um entusiasta de que em breve essa terapia será uma realidade no Brasil”, diz. O HEMO PLAY Podcast discutiu no começo do ano a aplicação prática da terapia com células CAR-T em dois episódios, que tiveram a participação do Dr. Renato Cunha e do Dr. Jayr Schmidt Filho, chefe do Departamento de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular do A.C Camargo Center. Podcast da ABHH sobre CAR-T Cell Clique aqui para ouvir os episódios! debate ABHH
05 / 2022 A B H H e m R e v i s t a 17 Terapia Celular como pilar da ABHH A ABHH tem um longo histórico de trabalho em Terapia Celular (TC), que abrange desde o interesse institucional na prática da transfusão sanguínea e no Transplante de Medula Óssea (TMO) até o apoio a estudos recentes sobre CAR-T Cell. Em 2010, a entidade alterou seu nome para incluir o termo Terapia Celular, tornando-se Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular. O objetivo foi dar centralidade a esse importante pilar da instituição. Segundo o Dr. Renato Cunha, membro do Comitê de Transplante de Medula Óssea e Terapia Celular, nesses últimos anos alguns marcos foram importantes para consolidar a ABHH como protagonista no cenário da TC no Brasil. “Recentemente publicamos o Consenso Brasileiro de Células Geneticamente Modificadas e estamos elaborando um Guia de Boas Práticas Clínicas em Terapia Celular, previsto para publicação em 2023. São marcos que expressam a relevância da ABHH. Afinal, nos tornamos um importante mediador entre Anvisa, indústria, centros de pesquisa, universidades, instituições de financiamento e outros atores no estabelecimento de diretrizes para a prática em TC, acesso a medicamentos e no desenvolvimento de estudos”, ressalta Cunha, que também é pesquisador da Universidade de São Paulo (USP). Equidade O cenário tem complexidade e nele a ABHH é apenas um dos atores. Apesar disso, a entidade mantém bons diálogos, que resultam em importantes projetos. Um deles é o projeto Equidade, que tem como propósito equiparar o acesso à medicação de alto custo no sistema público de saúde e na saúde suplementar. Há ainda a parceria entre a ABHH e o ASH para mapeamento da Terapia Celular na América Latina, que visa a conhecer os desafios e identificar as oportunidades em relação à medicação de alto custo no Cone Sul. Nesse sentido, a ABHH continua investindo na atualização dos associados e na formação dos novos especialistas para dar conta das demandas presentes e futuras em TC. O curso Terapia Celular Avançada, disponível na plataforma Hemo Educa, traz uma visão geral sobre o tema e revisa conceitos importantes que passam pelo início do desenvolvimento de estudos com CAR-T Cell, a atual pesquisa clínica até a validação dos processos pelas agências regulatórias. Para os próximos anos, esses devem ser tópicos relevantes nas discussões da especialidade no Brasil e no mundo. “Recentemente publicamos o Consenso Brasileiro de Células Geneticamente Modificadas e estamos elaborando um Guia de Boas Práticas Clínicas em Terapia Celular, previsto para publicação em 2023. São marcos que expressam a relevância da ABHH.” Dr. Renato Cunha, membro do Comitê de Transplante de Medula Óssea e Terapia Celular da ABHH
A B H H e m R e v i s t a 05 / 2022 18 debate ABHH “É um desafio prever o que vai acontecer em TC avançada, mas penso que os gargalos existentes devem pautar a discussão. Entre eles, o tratamento voltado a tumores sólidos e outras doenças, como as autoimunes, infecciosas e cardíacas; a redução do tempo para manufatura e transporte das células CAR-T; e, claro, o que vem sendo chamada de toxicidade econômica, pois o alto custo dessas medicações é uma grande questão não apenas para o Brasil. Esses assuntos devem aparecer nos próximos anos no HEMO e em outros congressos da área”, observa o Dr. Cunha. AABHH continua investindo na atualização dos associados e na formação dos novos especialistas para dar conta das demandas presentes e futuras emTerapia Celular Confira a opinião da indústria sobre o cenário do CAR-T Cell “No Brasil, temos o compromisso de encurtar o tempo entre diagnóstico e tratamento de pacientes com neoplasias hematológicas, ampliando acesso ao tratamento com base em células CAR-T” Gabriela Castilho, Business Unit Director da Kite Pharma “A Novartis tem o orgulho de trazer o primeiro tratamento com células CAR-T para o Brasil para tratamento dos pacientes com Leucemia Linfoblástica Aguda e Linfoma Difuso de Grandes Células B, ambos em cenário refratário/recaído. O investimento em pesquisa e desenvolvimento é parte do compromisso da Novartis de reimaginar a medicina para melhorar a vida das pessoas” Mario Marchesi, diretor de Marketing e Vendas para CAR-T da Novartis "As terapias com células CAR-T revolucionam completamente a medicina, os tratamentos disponíveis e por vezes representam a única chance de sobrevida de alguns pacientes. Reconhecemos a importância de estabelecer parcerias para acelerar o desenvolvimento de novas terapias ao redor do mundo e no Brasil” Mariana Oliveira, Product Specialist, Cell and Gene Therapy da Cytiva “São muitos os desafios que envolvem a jornada de uma terapia como essa e a Janssen, bem como todos os stakeholders envolvidos nesse processo, está comprometida com a construção da melhor jornada CAR-T possível para os hematologistas, centros performadores e os pacientes com Mieloma Múltiplo” Philipe Calçado, gerente de Produtos CAR-T da Janssen Brasil
05 / 2022 A B H H e m R e v i s t a 19 Alguns dos atores que compõem a rede do CAR-T Cell Fundações e Instituições de financiamento ABHH e outras instituições científicas nacionais e internacionais Indústria farmacêutica Sistema de saúde suplementar Sistema público de saúde Iniciativas governamentais Universidades e centros de pesquisa Anvisa e agências regulatórias Espera-se que o mercado global de terapia celular em oncologia ultrapasse 37 bilhões de dólares até 2028 de acordo com análise da GlobalData
A B H H e m R e v i s t a 05 / 2022 20 especial H á 18 anos, em Gênova, na Itália, um grupo de brasileiros e italianos fundou uma associação para estreitar laços de amizade e promover uma crescente cooperação técnico e científica, que já vinha se estreitando desde os anos 1980. Nascia assim, no dia 2 de abril de 2004, a Associação Ítalo-brasileira de Hematologia (AIBE), que representou uma evolução científica binacional na hematologia que também buscava possibilitar o desenvolvimento de pesquisas, intercâmbios, trocas de experiências e estudos cooperativos entre os dois países, no campo das doenças onco-hematológicas. Os primeiros eventos entre brasileiros e italianos no nosso país, fundamentais para criação da AIBE, aconteceram durante os congressos feitos pela Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea, em 2002 e 2003, nas cidades do Rio de Janeiro e de Ouro Preto (MG). Associação Ítalo-brasileira de Hematologia chega aos 18 anos de atividades ainda mais fortalecida. Médicos fundadores comentam evolução da entidade Por Leila Vieira maioridade AIBEchega à Fundadores da AIBE com a nova geração de membros em encontro na cidade de Curitiba
05 / 2022 A B H H e m R e v i s t a 21 Essa cooperação, que atravessou o Oceano Atlântico, começou com a ida nos anos 1980 de alguns hematologistas brasileiros para aprimorar suas formações nas cidades de Gênova e Roma na área do transplante de medula óssea e infecções em imunossuprimidos. Já naquela época, a hematologia italiana era uma das mais relevantes no mundo e muitos dos professores italianos, com os quais o grupo brasileiro manteve contato, eram referência em ensaios clínicos e estavam ligados a grupos como o Gruppo Italiano Trapianto Midollo Ósseo (GITMO) e o Italian Non-Hodgkin’s Lymphoma Cooperative Study Group. Assim, ao longo desses 18 anos, a cooperação ítalo-brasileira resultou no estabelecimento de pesquisas e projetos bilaterais no campo dos linfomas – pelo menos 10 publicações científicas conjuntas em linfomas, foram publicadas. “Houve uma aproximação entre nós não só nos campos da ciência e da pesquisa, mas pessoais. Nos tornamos grandes amigos. Vários encontros, eventos e viagens passaram a ser programados de modo que pudéssemos, pelo menos uma vez por ano, estar juntos”, recorda-se o Dr. Carmino Antônio de Souza, um dos membros fundadores da AIBE, ao lado do Dr. Angelo Maiolino e Dr. Carlos Chiattone – os patronos são o Dr. Ricardo Pasquini e o Dr. Alberto M. Marmont, falecido em 2014. Outros brasileiros foram importantes para a consolidação da entidade, como o Prof. Márcio Luiz Nucci e o Prof. Milton Artur Ruiz. Do lado italiano, os membros fundadores foram os professores Gino Santini, Corrado Tarella, Adolfo Porcellini, Teodoro Chisesi, e Ignazio Majolino. Os professores Massimo Federico, Stefano Luminari, Giuseppe Saglio, Andrea Bacigalupo e Robin Foà, dentre muitos outros, foram se juntando ao grupo inicial, fortalecendo e muito a cooperação. Nova geração presente Maiolino, presidente de honra da entidade, lembra-se da época em que foi para a Itália, em 1986, fazer seu fellowship na área de transplante de medula óssea no Hospital San Martino di Genova. Lá, trabalhou e aprendeu Médicos no dia em que fundaram a AIBE na cidade de Gênova em 2004 Encontro da AIBE realizado na cidade de Curitiba em 2013 Na foto, o Dr. Carmino, Dr. Massimo Federico e o Dr. Teodoro Chiesi Fotos: Arquivo
A B H H e m R e v i s t a 05 / 2022 22 especial Alémdos projetos de pesquisa e educação nesses 18 anos coma entidade incorporando jovensmédicos, professores, residentes e pesquisadores da área biológica, aAIBEpromove, desde 1999, seus tradicionais encontros anuais alternadamente nos dois países, abrindo para a participação, emalgumas edições, de especialistas de outros países latino-americanos. Este ano, o evento caminha para sua 22ª edição e será realizado noHEMO2022. Oencontro daAIBEvai debater as novidades da área da onco-hematologia e analisar as perspectivas de projetos principalmente como CAR-TCell. com nomes como o Prof. Andrea Bacigalupo e o Prof. Gino Santini. “Vários outros colegas, como o Dr. Carmino, foram se aprimorar na Itália à mesma época e nós criamos uma forte amizade com os italianos. A partir daí, sentimos a necessidade de criar uma estrutura para o intercâmbio científico e educacional de jovens médicos que iriam treinar lá e vice-versa. Celebrar 18 anos de criação da Associação Ítalo-brasileira de Hematologia é muito significativo”, acentua o hematologista. Para Massimo Federico, último presidente da AIBE, trata-se de um dos grupos acadêmicos mais relevantes que ele tem a honra de integrar. “A entidade representa uma oportunidade única para criar uma forte rede de médicos, pesquisadores e amigos na Rota de Colombo”, reforça. “Graças à AIBE, muitos pesquisadores de ambos os lados do Atlântico tiveram a oportunidade de se conhecer e cooperar no campo da hematologia. Além disso, vários jovens colegas puderam visitar instituições italianas e compartilhar planos de pesquisa”, destaca o professor da Universidade de Modena e Reggio Emília. Ele comenta que uma das experiências mais significativas que teve com os brasileiros foi a participação de jovens hematologistas no Cantera, treinamento realizado pela Fondazione Italiana Linfomi e European Hematology Association em Lecce. Graças ao intercâmbio na Itália, novas lideranças em pesquisas sobre linfomas se firmaram no Brasil. “A comunidade brasileira de Hematologia é considerada com respeito pelo excelente desempenho alcançado tanto no cuidado quanto na pesquisa”, enfatiza o italiano, que ressalta não ser fácil manter uma rede, embora robusta e engajada, ao longo desses 18 anos. Iniciada por um grupo de líderes brasileiros e italianos, que se tornaram amigos íntimos, o desafio da AIBE é abrir espaço para a próxima geração. “Precisamos esperar uma segunda geração de amigos que gostam de continuar essa experiência extraordinária que vivemos dentro da AIBE”, afirma. Maiolino endossa essa necessidade de passar o bastão aos mais jovens do Brasil e da Itália para consolidar o grupo. “Essa continuidade depende muito de nossa liderança em estimular novos talentos e prover o intenso intercâmbio binacional. Manter esse intercâmbio, os projetos de pesquisa em andamento e os eventos anuais será fundamental”, enfatiza o brasileiro. Próximo Encontro da AIBE será durante o HEMO 2022
05 / 2022 A B H H e m R e v i s t a 23 4 / 20 1 AGORA, SOMOS ALEXION, ASTRAZENECA RARE DISEASE, UMA UNIDADE DE NEGÓCIOS DE DOENÇAS RARAS DA ASTRAZENECA.. UNIMOS FORÇAS PARA LEVAR NOSSOS MEDICAMENTOS A MAIS PACIENTES COM DOENÇAS RARAS EM TODO O MUNDO. alexion.com/worldwide/Brazil Material destinado ao público em geral. BR-19217 - BR/NP/ 003 – Julho/2022. Nossa missão permanece clara: transformar a vida das pessoas afetadas por doenças raras por meio do desenvolvimento e do fornecimento de medicamentos inovadores, bem como tecnologias de apoio e serviços de saúde.
A B H H e m R e v i s t a 05 / 2022 24 ABHH em ação ABHH vai ao Amazonas No estado, presidente da ABHH visitou a sede do HEMOAM, conheceu as instalações do futuro Hospital do Sangue e conversou com hematologistas que são referências Por Roberto Souza Equipes da ABHH e do HEMOAM reunidas para intercâmbio de experiências como parte do projeto "Equidade", lançado este ano pela ABHH
05 / 2022 A B H H e m R e v i s t a 25 G eoequidade: você já ouviu falar nesta expressão? Provavelmente não, porque ela foi criada pelo presidente da ABHH, Dr. José Francisco Comenalli Marques Júnior, durante sua visita em junho à Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas (HEMOAM), em Manaus. Referência para o diagnóstico e tratamento das doenças oncohematológicas no estado e na Região Norte, o HEMOAM inaugurará o primeiro Hospital do Sangue do Brasil (HEMOAM Hospital) na capital. A presença da ABHH ressalta a importância que a associação dá para projetos e programas de atendimento que visam a oferecer acesso universal a todos os pacientes, independentemente de onde residam. Além do presidente, a comitiva da ABHH no Amazonas contou com a gerente-geral, Aline Pimenta, e o assessor de comunicação, Danilo Gonçalves. Durante a visita, a ABHH se reuniu com a Dra. Socorro Sampaio (diretora- -presidente do HEMOAM), a Dra. Leny Nascimento da Motta Passos (professora do Programa de Mestrado em Hematologia da Universidade do Estado do Amazonas e diretora da ABHH) e com o Dr. Nelson Fraiji, ex-presidente do HEMOAM. Na reunião, eles apresentaram para a ABHH o projeto dos hemonúcleos, idealizados pelo Dr. Nelson, e que serão unidades do HEMOAM no interior. O objetivo com a construção desses centros é ampliar a oferta dos serviços oferecidos pelo HEMOAM e descentralizar atendimentos atualmente realizados de forma exclusiva em Manaus, evitando, assim, que pacientes e doadores tenham que se deslocar até a capital. Eles realizarão serviços como exames de baixa e média complexidades, além Fotos: Comunicação/ABHH Dr. Marques, Dra. Socorro Sampaio e Dra. Leny Passos em frente das instalações do futuro HEMOAM Hospital
A B H H e m R e v i s t a 05 / 2022 26 ABHH em ação Há 40 anos vem se construindo no Amazonas uma base para prestação de serviços hematológicos e hemoterápicos às pessoas e ao SUS. Começou no fim dos anos 1970, com um “banco de sangue” no Hospital da Universidade Federal do Amazonas. Depois, conquistou espaço próprio, o HEMOAM, que sempre primou pela qualidade tanto na oferta de serviços e hemoderivados quanto na formação de pessoas do nível técnico ao programa institucional de Mestrado e Doutorado. Daí advêm a pesquisa e a produção científicas. Paralelamente a esses esforços na capital, sempre tivemos uma situação preocupante no interior de um estado de dimensões com 1,5 milhão de quilômetros quadrados e 66 municípios. Assim, foi planejado um sistema de agências transfusionais com pequenas estocagens nos hospitais regionais nas sedes dos municípios e depois com doadores locais cujas amostras de sangue vinham de avião para Manaus e, após os devidos testes, o sangue era liberado para utilização. Essas “agências transfusionais” estão evoluindo para hemonúcleos, que terão procedimentos hemoterápicos diferenciados. A assistência à saúde é multifacetada. O HEMOAM se esmera em fazer a sua parte ao buscar incorporar tecnologias de ponta e inaugurar, em breve, o Hospital do Sangue na capital. Além disso, o HEMOAM segue envolvido no suporte técnico e logístico aos 66 municípios do interior e destaco a inauguração do hemonúcleo em Coari. Este município figura como grande polo de saúde no médio do Rio Solimões, dispondo, além do hemonúcleo, de um campus da Universidade Federal do Amazonas com cursos de Medicina, Enfermagem, Nutrição e Fisioterapia e uma unidade do Instituto de Medicina Tropical, além da rede própria da municipalidade com Hospital Regional, Policlínica, rede de UBSs urbanas e UBS fluvial que presta serviços itinerantes a comunidades ribeirinhas. A Amazônia remota precisa do salto tecnológico, precisa ser vista pelos agentes públicos e, neste cenário, a Hematologia e os hematologistas do Amazonas cumprem o seu papel e dão exemplo. Dra. Leny Nascimento da Motta Passos É diretora da ABHH e professora da Universidade do Estado do Amazonas de diagnósticos rápidos, coleta e transfusão de sangue. O projeto do HEMOAM prevê a construção de hemonúcleos em sete cidades do interior. Em junho, a cidade de Coari, a 363 quilômetros de Manaus, foi a primeira a receber o centro. “O projeto é eficiente e um modelo a ser seguido em outros estados. Ele está em consonância com o projeto de geoequidade da ABHH, que é, cuidar do paciente hematológico com qualidade em qualquer lugar em que ele esteja”, parabenizou o Dr. Marques. Além do HEMOAM, a comitiva da ABHH conheceu as instalações do futuro Hospital do Sangue. Com cerca de 70% das instalações concluídas, o hospital deve aumentar em até seis vezes a capacidade atual de assistência hematológica e oncohematológica do estado e contará com estrutura para realização de transplantes de medula óssea no local. “A visita da ABHH é honrosa para o HEMOAM no momento em que estamos ampliando e modernizando nossos serviços. Esse apoio para nós, tanto em nível profissional quanto em nível técnico, demonstra o comprometimento dessa gestão com a Hematologia e Hemoterapia de forma equitativa, ou seja, independentemente da região do país”, ressalta a Dra. Socorro. Na mesma linha, a Dra. Leny destaca como muito proveitosa a ida do presidente da ABHH até Manaus. “Ela representa a busca da equidade, que é hoje um projeto da ABHH, para o desenvolvimento da Hematologia e Hemoterapia no país. A possibilidade de reconhecer as diferenças regionais e oferecer programas que supram essas diferenças é fundamental para o crescimento da hematologia brasileira”, enfatiza. Hematologistas do Amazonas dão exemplo
05 / 2022 A B H H e m R e v i s t a 27
A B H H e m R e v i s t a 05 / 2022 28 jovem especialista Jovens hematologistas criam perfis em redes sociais para se aproximar dos pacientes, tirar dúvidas e levar informação de qualidade sobre a especialidade Por Diego Garcia C ada vez mais digitais, elas estão nas redes sociais explicando, de uma maneira simples para o público, assuntos, às vezes, complexos da hematologia e da hemoterapia. Além de se tornar referência em conteúdo, consideram essa presença digital uma forte aliada em suas carreiras. Para atingir pacientes e público leigo, há pouco mais de um ano, a médica clínica geral e hematologista Giovanna Ghelfond, natural de São Paulo, profissionalizou o perfil pessoal que mantinha no Instagram e começou a oferecer conteúdos relacionados à hematologia e a outros temas ligados às doenças do sangue. Esse tête-à- -tête digital, ressalta a médica que trabalha atualmente na área de Hematologia e Onco- -Hematologia com foco em doenças benignas e malignas, é fundamental para nos aproximar do paciente e divulgar a informação. Seu perfil @dra.giovanna.ghelfond. hemato tem quase 50 mil seguidores no Instagram e seus posts levam informações sobre doenças, nutrição, doação de sangue e outros temas, além de tirar dúvidas dos pacientes pelos comentários ou por inbox. Eventualmente, conta Giovanna, ela posta um conteúdo mais pessoal, uma forma de o paciente ver que, por trás daqueles posts, há uma pessoa com uma vida comum. “Inicialmente, eu tinha vergonha de trazer um pouco da minha vida pessoal para o Instagram, porque achava que era muita exposição. Mas, depois de um tempo, realmente entendi on Elas estão
que dividir o conhecimento é muito nobre”, ressalta Giovanna, que tem o suporte de uma agência especializada em marketing digital na criação de vídeos e posts. O retorno do público, por meio de curtidas, compartilhamentos e comentários, é algo que a deixa muito contente. Oferecer informação e compartilhar valores e ideias que julga importantes com os pacientes nas redes sociais, além de ser aliada na carreira, foi o que motivou a hematologista e hemoterapeuta Laura Vassalli a criar, no começo de 2020, no Instagram, o perfil @medicasoul. “As redes sociais fazem esse papel de divulgar informação de qualidade com grande capilaridade e merecem ser usadas, tanto como meio de divulgação profissional quanto de informação médica de qualidade com a devida ética. Tenho obtido bons resultados com essa presença nas redes”, afirma Laura, nascida em Juiz de Fora, Minas Gerais. Além do Instagram, ela tem um perfil no Facebook e mantém um canal no YouTube. Para Laura, que cria e gerencia seu perfil sozinha, essa presença nas redes sociais é positiva, sendo gratificante compartilhar conhecimento e ver as pessoas tendo um interesse maior pela hematologia, que é sua paixão, sem confundi-la com outras especialidades. “Podemos ter a prerrogativa de oferecer informação de qualidade e de prestar um serviço que vai além da realização de consultas ambulatoriais ou acompanhamentos de internações, e que abrange tanto uma possibilidade de divulgação para o médico quanto a possibilidade do paciente de obter informação adequada às suas demandas, tendo uma noção mais clara do perfil profissional da pessoa por quem deseja ser atendido”, observa a hematologista. O retorno é gratificante. “Desmistificar temas, como a confusão entre anemia e leucemia ou o metabolismo do ferro, ajuda a população a ter uma noção muito mais clara do trabalho de uma hematologista sem confundir com hepatologista, dermatologista ou quaisquer outras especialidades. Cria um espaço na mente das pessoas para o que significa a nossa bela área de trabalho e desmistificar alguns medos relacionados a ela.” 05 / 2022 A B H H e m R e v i s t a 29
A B H H e m R e v i s t a 05 / 2022 30 perfil Pioneiro no transplante de medula óssea e dono de vasta produção científica, o hematologista Ricardo Pasquini se mantém, aos 84 anos de idade, comprometido com a ciência e os seus pacientes Por Fernando Inocente Trajetória pioneira Foto: Marcos Solivam/SUCOM-UFPR
rspress.com.brRkJQdWJsaXNoZXIy NjY5MDkx