Revista Plastiko´s #226
51 PLASTIKO‘S As coisas ruins também precisam ser contabilizadas Dr. Gustavo Stocchero é cirurgião plástico, Membro Titular da SBCP e pós-graduado em gestão de marketing pelo Insper Artigo No ano de 1744, dois pastores escoceses se preo- cuparam com os dependentes que ficavam sem dinheiro em caso de morte de outros pastores. Contrataram um matemático da Universidade de Edimburgo e, munidos de dados como mortali- dade, tempo para casar novamente das viúvas e tempo de vida para os filhos após a morte, criaram o primeiro seguro de vida moderno. A precisão da estimativa foi tamanha que, após 21 anos, os valo- res sob administração do seguro eram apenas uma libra inferiores aos calculados pelos fundadores. Assim, nasceram os seguros. Essa história me impressiona por dois pontos: o primeiro é que acertar previsões individuais é muito difícil. Não sabemos quando uma pessoa em específico vai morrer. Mas sabemos, coletivamente, a porcentagem desses eventos. A Lei dos Grandes Números mostra que, quanto mais eventos ob- servamos, mais nos aproximamos da média. E o segundo é que até os eventos altamente desagradá- veis precisam ser mensurados para que possamos, pelo menos, ter uma forma mais adequada de lidar com eles quando ocorrerem. Escrevo após mais uma trágica notícia de uma paciente que faleceu após uma lipoaspiração. Como sempre faço, leio múltiplas fontes para perceber o que cada veículo de imprensa procura ressaltar. Encontro muita emoção, claro, mas também muito ataque à nossa especialidade e pessoalmente ao médico que se encontra envolvido como se as coisas estivessem descontroladas, com riscos imensos, ou como se um dos lados, paciente ou cirurgião, fossem culpados naquele evento isolado. Como con- traponto, a já esperada afirmação de que pacientes devem procurar sempre um especialista cadastra- do na SBCP. Acredito nas vantagens de uma abordagem mais crua, mais fria, menos condescendente, não como se aceitássemos que são infortúnios impre- visíveis que só gostaríamos de não falar, de não enxergar, de não ouvir. Coletivamente, temos que saber dar respostas técnicas, que servirão de em- basamento para defender e, se necessário, atacar em defesa de nossa profissão. Precisamos ter dados que mostrem qual a porcentagem de lipoaspirações (ou qualquer cirurgia) que termina em óbito. E pre- cisamos saber quantos desses eventos gravíssimos acontecem nas mãos de médicos não credenciados na SBCP em relação àqueles que são devidamente certificados. O que é ruim também precisa ser contabilizado. Para que tenhamos uma base de defesa sólida. Para que se prove que é melhor escolher um membro do rol da Sociedade. Para que possamos colocar dados firmes em nossos consentimentos. Para que tenhamos uma forma não emocional de lidar com a questão de sociedades paralelas que surgem e con- tinuarão surgindo. Emoções são importantes para casos individuais. Para os grandes números, preci- samos de médias.
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