ABHH em Revista #01/2020
01 / 2020 A B H H e m R e v i s t a 13 Além da manutenção dos tratamentos vigentes, ainda há os pacientes recém diagnostica- dos que precisam começar seus novos ciclos terapêuticos. Em um caso conduzido pelo também membro do comitê de comuni- cação da ABHH e coordenador de Hematologia do Hospital da Universidade Federal de Goiás (UFG), Dr. Renato Sampaio Tavares, um paciente que ante- riormente já havia sido tratado por um mieloma apresentou uma nova lesão na coluna. “Ele não quer começar e, como a evolu- ção não está grave, também não vou insistir”, comentou. “Se você insiste por um motivo que real- mente não seja claro, se ele ad- quire a infecção e vem a falecer, é necessário justificar depois”. Mesmo com Goiás sendo um dos estados com menor núme- ro de casos no País (de acordo com os dados do Ministério da Saúde, é o oitavo estado com menos infectados), a quan- tidade de pacientes que têm sido atendidos no Hospital das Clínicas já foi o suficiente para mudar a rotina de quem vai até lá em busca de um tratamento hematológico. “Metade do hos- pital é responsável por atender os casos de covid e o restante está disponível para as outras situações. (Os casos de) leuce- mias agudas estão chegando até mais porque os outros (tipos de) casos a gente está segurando. Mas a demanda é muito maior do que o número de leitos, en- tão, infelizmente, a gente sabe que muitos acabavam falecendo sem ter atendimento”, lamentou Sampaio durante o bate-papo. “PARECE UMA ETERNIDADE”, reflete o diretor de Comunica- ção da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), Dr. Angelo Maiolino. Nas últimas nove semanas, o coordenador de Hematologia do Américas Centro de Oncologia Integrado, no Rio de Janeiro, se viu em uma situação de compreender o porquê dos seus pacientes onco-hematológicos terem tanto medo de pisar nos corredores hospitalares. Na épo- ca em que a entrevista foi feita com o hematologista pela pla- taforma online Zoom, em 19 de maio, o Rio de Janeiro registrava 3.079 óbitos e 27.805 casos do novo coronavírus (covid-19). A nova realidade causada pelo novo coronavírus na rotina dos hematologistas é cheia de escolhas. Como evitar que os pacientes não sejam impactados com o caos causado pela pande- mia? Como garantir que os seus tratamentos tenham continuidade mediante o cenário? E as pessoas com patologias hematológicas que também foram diagnostica- dos com esse novo vírus? “Alguns casos nós delibera- mos e atrasamos transplantes”, explica o hematologista. Em um deles, Maiolino decidiu postergar a consulta de um paciente com 75 anos que está em seu terceiro ano de manutenção do tratamento de mieloma múltiplo. O idoso, que é do grupo do risco e viria junto para a consulta com a esposa para a ca- pital fluminense, já estava recluso há algumas semanas no interior do estado. “E se os dois vêm para cá e ficam com covid? Como é que eu vou me sentir?”, reflete.
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy NTMyMjc=