ABHH em Revista #11/2024

#11 / 2024 Especialistas comentam os principais desafios para a implementação da recém-criada Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer no âmbito do SUS TEMOS UMA POLÍTICA NACIONAL PARA O CÂNCER. E AGORA? Presidente eleito da ABHH, o hematologista Angelo Maiolino fala da importância do impacto social das ações da associação página 6 ABRE ASPAS Associações que representam pacientes hematológicos e onco-hematológicos apontam dificuldades no acesso aos tratamentos disponíveis página 16 EM PERSPECTIVA ABHH cria força-tarefa para garantir a manutenção de estoques nos bancos de sangue do estado gaúcho e se junta à coalizão para ajudar pacientes página 35 SOS RIO GRANDE DO SUL

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sumário carta ao leitor p.4 | diretoria p.5 abre aspas p.7 debate abhh p.10 “Nossa atuação é científica, mas tem um profundo impacto social”, afirma o presidente eleito da ABHH, Dr. Angelo Maiolino Os desafios para a implementação da recémcriada Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer no âmbito do SUS perfil p.28 A pesquisadora paulistana Ester Sabino tem sua trajetória marcada por contribuições na saúde pública em perspectiva p.16 Presidentes do Instituto Oncoguia, Abrasta e Abrale falam das dificuldades dos pacientes no acesso aos tratamentos disponíveis cobertura p.22 Confira a repercussão do Fórum de Acesso e Equidade: Região Norte, realizado em março, e do Brazilian Lymphoma Conference 2024, ocorrido em abril SOS RS p.35 ABHH monta força-tarefa para monitorar estoques de bancos de sangue no Rio Grande do Sul 11 / 2024 ABHH em Revista 3

carta ao leitor 4 Esta edição da ABHH em Revista chega aos associados em meio à tragédia ambiental que acometeu o Rio Grande do Sul. Não podemos deixar de registrar nossa consternação e solidariedade à população gaúcha que enfrenta esse cenário desolador e difícil. Neste contexto, vigilante e fiel ao seu propósito, a ABHH criou uma força tarefa para garantir que pacientes gaúchos dependentes de transfusão sanguínea não fiquem desguarnecidos, assim como segue monitorando a manutenção de níveis razoáveis de estoques de sangue para eventuais cirurgias emergenciais. Por meio dos Comitês de Acesso e de Equidade, a ABHH segue ainda mobilizada a fim de que, por meio de parcerias, possamos suprir eventuais falta de medicamentos para pacientes em tratamento onco-hematológico no estado gaúcho. Falando em boas iniciativas, a revista, que começou a ser produzida anteriormente à situação das enchentes no Sul, também traz uma ampla reportagem sobre a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer no âmbito do SUS, sancionada no final de ano passado e agora se encaminha para ser colocada efetivamente em prática. Dotada do olhar da equidade, a ABHH tem participado e promovido fóruns de debates e articulações para respaldar a real efetividade de suas diretrizes. É neste movimento que o atual presidente eleito para conduzir a ABHH no biênio 2024-2025, Dr. Angelo Maiolino, um dos mobilizadores para a criação do Comitê de Acesso da ABHH, conta sobre os desafios de encabeçar a continuidade do movimento social da associação, que corre ao lado do científico. Vale a pena a leitura da entrevista com ele! Neste momento, a ABHH já conta com nova Diretoria e formação de Comitês para dar sequência aos trabalhos que vêm sendo realizados e construídos pelas últimas gestões, pautadas sempre pela inovação, ética e olhar cuidados aos nossos pacientes. Boa leitura a todos e todas! Olhar atento para boas iniciativas Dr. Renato Sampaio Tavares e Dra. Vânia Hungria Diretoria de Comunicação ISSN 2179-4855 ABHH em Revista é uma publicação da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) distribuída gratuitamente para seus associados. O conteúdo da publicação é de inteira responsabilidade de seus autores e não representa necessariamente a opinião da ABHH. JORNALISTA RESPONSÁVEL Roberto Souza (Mtb 11.408) EDITOR Madson de Moraes REPORTAGEM Danilo Gonçalves Fernando Inocente Roberto Souza Verônica Monteiro REVISÃO Joice Costa PROJETO EDITORIAL Madson de Moraes PROJETO GRÁFICO Leonardo Fial DESIGNERS Lucas Bellini Marcelo Cielo Rafael Bastos FOTO DE CAPA Getty Images CONTATO COMERCIAL Caroline Frigene RS HEALTH Rua Cayowaá, 228 – Perdizes São Paulo – SP – 05018-000 (11) 3875-6296 rspress@rspress.com.br www.agenciars.co ABHH Rua Dr. Diogo de Faria, 775, conj. 133 Vila Clementino São Paulo - SP (11) 2369-7767 / (11) 2338-6764 abhh@abhh.org.br www.abhh.org.br @abhhoficial ABHH em Revista 11 / 2024

DIRETORIA ABHH 2024-2025 Conheça os especialistas que integram a direção da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular Glaciano Ribeiro Leny Nascimento da Motta Passos Carmino Antônio de Souza Eduardo Magalhães Rego Celso Arrais Edvan Crusoé José Francisco Comenalli Marques Júnior Violete Petitto Laforga Carlos Sérgio Chiattone Angelo Maiolino Roberto Passetto Falcão Dr. José Orlando Bordin Renato Sampaio Tavares Dante Langhi Júnior Dimas Tadeu Covas Vania Hungria Jorge Vaz Pinto Neto Silvia Maria Meira Magalhães Diretoria Administrativa Diretoria Científica Diretoria de Defesa Profissional Diretoria de Ações Sociais Diretoria Financeira Diretoria de Comunicação Diretoria de Relações Institucionais Diretor Científico Emérito Diretor de Orientação e Aconselhamento Presidente Vice-presidente 11 / 2024 ABHH em Revista 5

Comunicação/ABHH ABHH em Revista 11 / 2024 6 abre aspas Comunicação/ABHH Presidente da ABHH até 2025, o Prof. Dr. Angelo Maiolino destaca o protagonismo da entidade na área científica e de acesso e afirma que aprimorar a atuação social da ABHH será importante. Uma iniciativa imediata da gestão foi a criação da Diretoria de Ações Sociais “Nossa atuação é científica, mas tem um profundo impacto social” Por Danilo Gonçalves e Madson de Moraes

Meu pai tinha no Rio de Janeiro um laboratório de patologia clínica, hoje de medicina laboratorial. E eu ia com ele para o laboratório. Desde pequeno, me acostumei com essa rotina, principalmente a lidar com o hemograma Aos 65 anos de idade, o Prof. Dr. Angelo Maiolino encara pelos próximos dois anos talvez o maior desafio da sua carreira profissional: liderar a ABHH, uma das principais entidades de especialidades médicas do Brasil e reconhecida internacionalmente. Experiência esse hematologista, que é natural da cidade do Rio de Janeiro, tem de sobra. Além de atuar em diversas diretorias e comitês dentro da ABHH nos últimos anos, Maiolino é professor de Hematologia do Departamento de Clínica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Clínica Médica da instituição. Na carreira privada, ele é atualmente o coordenador de Hematologia do Oncologia Americas do Rio de Janeiro e pesquisador do Instituto Americas. Além disso, Maiolino é reconhecido como especialista em mieloma múltiplo, coordenando a linha de pesquisa nessa área na UFRJ e também na qualidade de vice-presidente do Grupo Brasileiro de Mieloma Múltiplo (GBRAM). Na entrevista a seguir, o novo presidente da ABHH destaca o protagonismo da entidade na área científica e afirma que aprimorar a atuação social da ABHH será crucial. Uma iniciativa nesse sentido foi a criação da Diretoria de Ações Sociais. “Queremos que a ABHH seja um exemplo até para as outras Sociedades de especialidades médicas no sentido de entender que nossa atuação é científica, mas tem um profundo impacto social no sentido mais amplo da palavra”, explica. Confira! O senhor esperava chegar à presidência da ABHH? Qualquer diretor que atue hoje na associação tem essa vontade. Sempre trabalhei muito para a ABHH e a presidência aumentou mais ainda esta dedicação. Nesse sentido, me sinto realizado. Tracei um longo caminho profissional na UFRJ, onde sou professor. Estruturamos o transplante de medula óssea do Hospital Universitário em 1994, fui Chefe de Serviço de Hematologia e Vice-Diretor do Hospital. E aí chego à presidência da ABHH, em que posso oferecer minha experiencia acadêmica e a experiência como gestor acumulada nestes anos de ABHH, conhecendo de perto a associação. Sei que tenho uma grande responsabilidade nos próximos dois anos. Quais planos o senhor pretende imprimir nestes dois anos? Desde sua criação, a ABHH está a serviço dos hematologistas e hemoterapeutas do Brasil, mas entendemos que hoje a sociedade médica tem uma abrangência de atuação muito maior do que quando foi criada, se expandindo em vários aspectos. Atualmente, a ABHH atua em diversos campos com padrão de excelência em atividades científicas e de defesa profissional. O HEMO, por exemplo, é um destaque porque se tornou, ao longo do tempo, o maior congresso da especialidade do Hemisfério Sul e o terceiro maior do mundo. Desconheço outra sociedade médica que tem uma estrutura não terceirizada e que organiza um congresso com mais de sete mil participantes. Também ampliamos muito a atuação da ABHH com a criação do Comitê de Acesso a Medicamentos e Tecnologias, em 2018, e com a criação do Programa de Equidade, em 2021. São duas atuações nossas muito complementares. Há um reconhecimento por todos os players da área de saúde, incluindo governos, entidades de pacientes, indústria farmacêutica e os hematologistas e hemoterapeutas de que a ABHH assumiu um protagonismo de atuação nessa área social, que inclusive se tornou uma das nossas missões: prezar pela qualidade e equidade no tratamento dos pacientes e nos serviços da especialidade. Esses dois anos buscarão consolidar este papel social da ABHH? Eu gostaria muito que isso fosse consolidado nesse período. A ABHH hoje ocupa um espaço que é muito significativo. Acredito que a ampla maioria dos hematologistas e hemoterapeutas brasileiros apoiem nossas ações, mas precisamos ampliar mais essa comunicação e explicar a importância dessas ações sociais. Esse é um dos nossos papéis como sociedade médica, e por isso até criamos a Diretoria de Ações Sociais, liderada pelo Dr. Jorge Vaz e pela Dra. Violete Laforga. Esse é um ponto no qual acredito que possamos ampliar bastante a nossa área de ação. Porém, em paralelo, não podemos esquecer que temos também a responsabilidade de elaborar documentos científicos e consensos. Temos sido muito demandados nesse sentido. O Ministério da Saúde tem buscado recorrentemente a posição da ABHH sobre determinados assuntos. Penso que podemos ter um programa mais estruturado para os comitês científicos executarem esses consensos. Se conseguir isso nesses dois anos, eu realmente ficaria muito feliz. No geral, qualquer ação da ABHH, da área científica à social, é sempre pensando no cuidado dos pacientes. 11 / 2024 ABHH em Revista 7

Como é a sua rotina fora da ABHH? Tenho um volume muito grande de trabalho. Por exemplo, continuo sendo professor de hematologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde coordeno toda a linha de pesquisa de mieloma múltiplo. Tenho 14 alunos de mestrado, doutorado e pós-doutorado. Fora isso, ainda dou aula para a graduação. Neste momento, estou dando aula de semiologia para uma turma de nove alunos do terceiro período. A cada semestre intervalado, eu faço isso. No fundo, eu sempre quis ser professor da UFRJ. Em relação à vida familiar, estou em uma boa situação. Minha esposa, Márcia, é médica e professora da UFRJ, então há uma compreensão. Meus filhos, Rafael e Carlos Eduardo, têm 14 e 17 anos e já têm mais independência. Eles entendem, mas às vezes falam “pai, tá extrapolando”. Aí eu explico a situação e tentamos encontrar o equilíbrio. Esses dias tinha um evento no mesmo período das férias escolares, mas julho é um mês de viajar com a família e não abro mão. Tento ter um equilíbrio entre trabalho e família, mas estou longe ainda de me aposentar. Meu pai costumava falar uma frase importante: “Não vai fechando as pontes e caminhos porque daqui a pouco não tem caminho nenhum para ir”. Carrego comigo esse mantra sempre. E quando você decidiu optar pela hematologia? A tomada de decisão foi por volta dos meus seis a sete anos de idade. Meu pai tinha no Rio de Janeiro um laboratório de patologia clínica, hoje de medicina laboratorial. E eu ia com ele para o laboratório. Desde pequeno, me acostumei com essa rotina, principalmente a lidar com o hemograma. Fazia contagem dos leucócitos numa maquininha, meu pai ia vendo no microscópio e eu digitando. Às vezes, meu pai pedia para eu olhar no microscópio e ver que célula era. Eu falava, ah, isso é um neutrófilo, é um linfócito e por aí vai. É claro que eu cheguei a mudar de ideia várias vezes ao longo da vida. Cheguei a pensar em fazer carreira diplomática porque tenho uma característica muito conciliadora. Acredito na mediação e na força das palavras para a resolução de conflitos. Sempre trouxe isso para os debates dentro da ABHH. Mas aí, na hora de decidir o que fazer, me lembro de escolher qualquer área que envolvesse laboratório e cogitei fazer infectologia ou hematologia porque unem as duas coisas. Aí decidi fazer hematologia, um desejo que estava meio plantado desde a minha infância. Além dessa influência paterna, quais foram os seus mentores na carreira médica? Sem dúvida alguma foi o Prof. Halley Pacheco de Oliveira. Ele foi um hematologista brilhante com capacidade de orientar como ninguém, além de ser uma pessoa muito culta. Depois, durante meu fellow em Hematologia e Transplante de Medula Óssea no Hospital San Martino em Genova, na Itália, que foi de 1986 a 1988, tive a oportunidade de trabalhar com grandes referências no mundo em transplante de medula óssea e hematologia como os professores italianos Alberto Marmont e Andrea Bacigalupo. Foram centrais nesse caminho de direcionamento da minha carreira de hematologista. Hoje o senhor é uma das autoridades no mundo em mieloma múltiplo. Quando surgiu o interesse nesta área? O interesse se deu exatamente por conta da minha atuação com transplante. Quando montamos a área de transplante lá no Hospital do Fundão, na UFRJ, priorizamos o transplante autólogo. Isso causou uma certa incompreensão dos outros. Eu enfrentei até um certo preconceito. Falavam que o transplante autólogo não era bem um transplante, uma vez que o doador era próprio paciente. Questionei naquela época. No final, acabou sendo uma decisão acertada e consolidamos o transplante autólogo no Rio de Janeiro e em nosso meio. O transplante autólogo se tornou o transplante indicado para o tratamento do mieloma. E aí veio a minha derivação para o campo do mieloma. Exatamente pelo fato de ter me tornado um expert no autólogo, quando o mieloma começou a ter essa indicação de tratamento, fizemos o primeiro transplante para um paciente com mieloma na UFRJ em 1997. Fomos um dos pioneiros! Assim, foi um caminho natural ir me dedicar, nas últimas décadas, aos estudos e pesquisas nesta área da onco-hematologia. Hoje tenho orgulho de fazer parte do Grupo Brasileiro de Mieloma Múltiplo, fundado e presidido pela minha grande amiga Profa. Vânia Hungria, reconhecida liderança internacional na área. Teremos esse ano um grande desafio ao sediar no Brasil e pela primeira vez na América Latina o Congresso Anual da International Myeloma Society. Certeza que vai ser um sucesso! Quer deixar uma mensagem final? Em primeiro lugar, não posso deixar de citar o Dr. José Francisco Comenalli Marques Júnior. Fui vice-presidente na sua gestão (2022-2023), muito voltada para a área social. Gostaria também de manifestar o meu reconhecimento ao Prof. Carmino Antônio de Souza, que me levou para a Diretoria da ABHH e a quem devo grandes ensinamentos. Assim, considero que nossa gestão é tornar a ação social prioritária e exemplo para as outras sociedades médicas, que entendam que nossa atuação é científica, mas tem um profundo impacto social no sentido amplo da palavra. Acredito que, no fim desse mandato, teremos uma gestão de sucesso em conjunto com a Diretoria e nosso Conselho Deliberativo. Todos que fazem parte são reconhecidos como lideranças no campo da hematologia, hemoterapia e terapia celular e, certamente, irão contribuir muito para o progresso da nossa especialidade e da ABHH. ABHH em Revista 09 / 2023 8

Submeta seu resumo até o dia 4 de agosto! Principais Conteúdos • Hemoterapia • Terapia Celular e TMO • Onco-hematologia • Hematologia Pediátrica • Hemostasia e Trombose • Anemias • Citometria de Fluxo • Hematologia e Hemoterapia Laboratorial • Cuidados Paliativos • Eventos Multidisciplinares • Acesso e Equidade • Residência Médica •Patient Blood Management (PBM) Trabalhos Científicos • Painéis • Painéis com Visita Guiada • Apresentações Orais www.hemo.org.br @abhhoficial Transamerica Expo Center São Paulo, Brazil Inscrições Abertas Silvia M. M. Magalhães PRESIDENTE DO HEMO 2024 O HEMO é um momento também de celebração, reencontro e networking. Contamos com a sua participação! 23 a 26 de Outubro

ABHH em Revista 11 / 2024 10 debate ABHH ENFIM, UMA POLÍTICA PARA O CÂNCER Especialistas comentam os principais desafios para a implementação da recémcriada Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer no âmbito do SUS Por Danilo Gonçalves e Talita Ribeiro

Getty Images 11 / 2024 ABHH em Revista 11 No finalzinho de 2023, a Lei nº 14.758 foi sancionada pelo Governo Federal, criando de maneira inédita a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer (PNPCC) no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). A norma foi criada após meses de diálogo entre gestores públicos, representantes de sociedades científicas, associações de pacientes e indústria farmacêutica com parlamentares do Congresso Nacional por meio da Comissão Especial Destinada a Acompanhar as Ações de Combate ao Câncer no Brasil, criada em março de 2023. A ABHH participou de audiências públicas a convite da comissão, trazendo para a pauta temas como a equidade e o acesso a novas tecnologias para diagnóstico e tratamento de cânceres hematológicos. Participante ativo dessas audiências, o Dr. Jorge Vaz, diretor de Ações Sociais da ABHH, ressalta a importância de a PNPCC ter força de lei. “Como proposição aprovada pelo legislativo e instituída pelo executivo, a lei implica o compromisso das diferentes esferas do governo e a obrigação legal de seu cumprimento”, afirma. Além dos objetivos e diretrizes que direcionam ações de prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação do câncer no Brasil, a Lei nº 14.758/2023 altera a Lei nº 8.080/1990, a Lei Orgânica da Saúde, adequando o modelo de avaliação e de financiamento de medicamentos onco-hematológicos às novas tecnologias disponíveis que apresentam comprovações científicas. Atualmente a discrepância entre o modelo de avaliação e de financiamento de medicamentos onco-hematológicos e a disponibilidade de novas tecnologias dificulta o enfrentamento do câncer no Brasil. Dados do Ministério da Saúde (MS) indicam que, apenas em 2023, foi necessária uma recomposição de R$ 1 bilhão do teto financeiro em oncologia para estados e municípios. “Com a nova lei, serão prioritários os Com a nova lei, serão prioritários os medicamentos para cânceres com maior incidência, para tratamentos de alta complexidade e que representam elevado impacto financeiro para o SUS Dra. Catherine Moura, CEO da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale)

ABHH em Revista 11 / 2024 12 medicamentos para cânceres com maior incidência, para tratamentos de alta complexidade e que representam elevado impacto financeiro para o SUS. A lei também estabelece o prazo máximo de 180 dias para disponibilização de medicamentos incorporados pela Conitec ao SUS”, explica a Dra. Catherine Moura, médica sanitarista, CEO da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale) e líder do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC). Dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA) mostram que são esperados 704 mil novos casos de câncer no Brasil para cada ano do triênio 20232025. Destes cânceres hematológicos, as leucemias, linfomas e mielomas demandam tratamentos de alta complexidade, embora sejam menos incidentes na população em relação a outros tipos de tumores. “Essa nova lei conflui com a Portaria nº 874, de 2013, que continua vigente e que revisamos em 2023. Para nós, não adianta uma portaria ou uma lei se não tivermos mudanças práticas no atendimento da pessoa com câncer no SUS. Para isso, precisamos de todos os atores trabalhando juntos por melhorias na assistência à pessoa com câncer. E o Ministério da Saúde está aberto ao diálogo e precisa do apoio técnico dos especialistas”, ressalta o Dr. Fernando Maia, médico sanitarista que, na época desta reportagem, estava à frente da Coordenação-Geral da Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer, instituída pela primeira vez como uma coordenadoria-geral em abril de 2023 e vinculada à Secretaria de Atenção Especializada à Saúde (SAES) do Ministério da Saúde. Durante participação no Fórum de Acesso e Equidade – Região Norte, realizado pela ABHH no final de março em Belém (PA), Maia destacou que é raro que um projeto seja aprovado sem alterações na Câmara e no Senado e que seja sancionado sem vetos pelo Governo Federal, como foi com a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer. “Isso mostra a articulação entre os diferentes atores para a discussão e para que o projeto fosse para aprovação com as devidas contribuições.” Desafios no acesso Além da Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer, a Lei nº 14.758 também institui o Programa Nacional de Navegação da Pessoa com Diagnóstico de Câncer, que consiste na busca ativa de casos de câncer Alguns objetivos da Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer: Diminuir a incidência dos diversos tipos de câncer. Garantir o acesso adequado ao cuidado integral. Contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos usuários diagnosticados com câncer. Reduzir a mortalidade e a incapacidade causadas pelo câncer. debate ABHH

11 / 2024 ABHH em Revista 13 e no acompanhamento individual do paciente desde o diagnóstico até o tratamento. Segundo especialistas consultados pela reportagem, esse programa toma como referência um modelo similar já existente voltado ao controle do câncer de mama. “Hoje, por exemplo, uma pessoa com linfoma que mora em Brasília e precisa chegar a um hospital de referência, tem três opções no Distrito Federal, mas essa vaga pode ser longe de sua residência. Isso impõe barreiras, o que é dramático em outros lugares, de modo que as diferenças regionais impactam diretamente no combate ao câncer”, observa o Dr. Jorge Vaz, diretor da ABHH. Para ele, as ações de equidade realizadas pela ABHH desde 2022 chamam a atenção e propõem algumas soluções. Atualmente, segundo dados do MS, há 318 estabelecimentos habilitados ao tratamento do câncer no Brasil, sendo eles Unidades de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) e os Centros de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon). Na prática, com a nova lei, esses estabelecimentos devem oferecer assistência geral, especializada e integral à pessoa com câncer, atuando gratuitamente no diagnóstico e tratamento, em conjunto com toda a rede pública de saúde. No entanto, a maioria dos estabelecimentos para tratamento do câncer está localizada nas regiões Sul e Sudeste. Por isso, o Dr. Fernando Maia lembra que foi publicada em 2023 a Portaria SAES/MS nº 688, que revisa os critérios para habilitação de estabelecimentos, o que deve favorecer a equidade no acesso. “Tiramos o critério populacional para habilitar um estabelecimento, o que acabava sendo um gargalo em muitos locais. Porque ter um mínimo de mil pacientes para serem atendidos na prática não favorece a equidade. No Pará, por exemplo, a distância até um Unacon ou Cacon, às vezes, são dias. Com base nessa portaria, daremos prioridade à habilitação de estabelecimentos nas regiões Norte e Nordeste.” Nesse sentido, complementa o Dr. Jorge Vaz, a nova lei se soma à Lei nº 13. 896/2019 e à Lei nº 12.732/2012 que instituem, respectivamente, a realização de exames em até 30 dias para pacientes com suspeita de câncer, e o início do tratamento em até 60 dias após o diagnóstico da doença. “Embora importantes, essas leis foram ações isoladas, evidenciando a relevância de uma Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer”, destaca o diretor da ABHH. Como proposição aprovada pelo legislativo e instituída pelo executivo, a lei implica o compromisso das diferentes esferas do governo e a obrigação legal de seu cumprimento Dr. Jorge Vaz, diretor de Ações Sociais da ABHH

ABHH em Revista 11 / 2024 14 Implementação e seus desafios Na avaliação da Dra. Catherine Moura, CEO da Abrale, agora a Lei que originou a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer passará pelo processo de regulamentação com o detalhamento operacional e de pactuação das responsabilidades do governo federal, dos Estados e dos municípios para seu cumprimento: “O que a norma traz são objetivos, diretrizes e a inclusão de compromissos como a integralidade do cuidado da pessoa com câncer. Com isso, devem ser definidas metas, estratégias prioritárias, prazos e indicadores de gestão e assistenciais para que as ações e serviços sejam monitorados e avaliados”, opina. Para isso, o Dr. Fernando Maia defende a participação de diferentes atores da área na implementação da lei e afirma que a ABHH tem se mostrado um “grande protagonista” nessas discussões, preocupada com o acesso dos pacientes. Jorge Vaz também observa que, nessa implementação, será necessário o planejamento dos entes federativos e de outros atores como as sociedades científicas. “Planejamento para apoio e aprimoramento da lei ao longo do tempo porque a ciência não para”, assinala ao ressaltar que a atuação da ABHH nesta jornada, além de técnica, é também vigilante e mobiliza toda a Diretoria, Comitês Técnico-Científicos e outros facilitadores. “Isso para garantir que os encaminhamentos atendam, na ponta, a diferentes realidades e necessidades dos pacientes onco-hematológicos.” O objetivo da PNPCC, implementada no âmbito do SUS, é diminuir a incidência de câncer; contribuir para melhoria da qualidade de vida dos pacientes; reduzir a mortalidade; e assegurar acesso ao cuidado integral. O texto estabelece que novos tratamentos e medicamentos relacionados à assistência à pessoa com câncer terão prioridade na análise para incorporação ao SUS, sendo que sua disponibilização efetiva deverá ocorrer em até 180 dias após a incorporação. Atualmente a discrepância entre o modelo de avaliação e de financiamento de medicamentos oncohematológicos e a disponibilidade de novas tecnologias dificulta o enfrentamento do câncer no Brasil Acesse a íntegra do texto da PNPCC! debate ABHH

11 / 2024 ABHH em Revista 15 *As instalações de última geração de P&D e produção estão localizadas na sede da empresa, na Coreia do Sul. CTHC-BR-0196-202405 - Material impresso em maio de 2024 Especializada em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de anticorpos monoclonais (mAbs) de alta qualidade e biofármacos inovadores, contribui para o progresso médico ao oferecer alternativas terapêuticas para as seguintes áreas: virologia oncologia doenças autoimunes hematologia África do Sul Arábia Saudita Argélia Egito Emirados Árabes Unidos Iraque Jordânia Kuwait Marrocos Tunísia Turquia *Coreia Singapura EUA Aruba Canadá Costa Rica Curaçau El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá República Dominicana Albânia Alemanha Armênia Áustria Bélgica Bielorrússia Bósnia – Herzegovina Bulgária Dinamarca Eslováquia Eslovênia Espanha Estônia, Finlândia Grécia Holanda Hungria Itália Kosovo Letônia – Lituânia Luxemburgo Macedônia do Norte Malta Moldávia Noruega Polônia Portugal Reino Unido República Tcheca Romênia Rússia Sérvia Suécia Suíça Austrália Brunei Coreia Filipinas Hong Kong Indonésia Japão Malásia Nova Zelândia Paquistão Singapura Sri Lanka Tailândia Taiwan Vietnã EUA Argentina Brasil Chile Colômbia Equador Paraguai Peru Trindade e Tobago Uruguai Venezuela Azerbaijão Barém Cazaquistão Chipre Curdistão Geórgia Irã Israel Líbano Líbia Omã Qatar Turquia Uzbequistão A Celltrion é uma empresa biofarmacêutica sul-coreana, com atuação global em mais de 120 países. INFORME CORPORATIVO O conteúdo deste informe é de inteira responsabilidade da empresa e não representa necessariamente a opinião da ABHH.

ABHH em Revista 11 / 2024 16 em perspectiva Luta por acesso Associações que representam pacientes hematológicos e onco-hematológicos apontam as principais dificuldades no acesso aos tratamentos disponíveis Por Fernando Inocente

Getty Images 11 / 2024 ABHH em Revista 17 N as últimas décadas, o acesso dos pacientes hematológicos e onco-hematológicos a linhas de tratamento e opções terapêuticas, seja pelo Sistema Único de Saúde (SUS), seja na saúde suplementar, foram significativos. O uso da imunoterapia no tratamento do câncer, as terapias-alvo na jornada de pacientes com Leucemia Mieloide Aguda (LMA), os avanços na segurança transfusional com a obrigatoriedade do teste NAT no SUS e o transplante autólogo foram alguns desses avanços. Contudo, apesar dessas melhorias, estes pacientes encontram dificuldades de acesso ao tratamento nas redes pública e privada. Presidentes de associações no Brasil que representam pacientes onco-hematológicos e hematológicos como o Instituto Oncoguia, a Associação Brasileira de Talassemia (Abrasta) e a Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale) avaliam que alguns destes desafios no acesso ocorrem por questões como a extensão territorial do país, a heterogeneidade da população, o subfinanciamento do SUS, a limitação orçamentária das cidades e o desconhecimento de médicos e profissionais sobre as doenças raras do sangue. “A limitação orçamentária impede investimentos em infraestrutura e capacitação, enquanto o desinteresse dos profissionais de saúde é motivado pela falta de incentivos financeiros e de conhecimento. Estes problemas acabam prejudicando a qualidade de vida dos pacientes”, analisa o presidente da Abrasta, Eduardo Fróes. A talassemia é um tipo de anemia hereditária que faz parte de um grupo de doenças do sangue chamadas hemoglobinopatias (doença da hemoglobina). Ela acontece quando há um defeito na produção dessas globinas. Um dos avanços para os pacientes com talassemia foi o uso da ressonância magnética com a técnica T2 como alternativa menos invasiva e mais precisa — anteriormente, a medição do ferro no fígado dependia de biopsias hepáticas invasivas. Outro foi a introdução do teste NAT no SUS, reduzindo os riscos de contaminação. Pessoas com talassemia maior, que possuem sangue raro, enfrentam desafios adicionais no acesso ao tratamento pelo SUS, já que dependem da disponibilidade de bolsas de sangue com fenótipos raros. “Mesmo com avanços, ainda enfrentamos desafios para garantir um cuidado integral e digno aos pacientes com talassemia como o acesso equitativo aos tratamentos, a disponibilidade de sangue para transfusões periódicas, a capacitação de profissionais e o aumento da conscientização, além da necessidade de se promover pesquisas para desenvolver novas terapias”, opina Fróes. No contexto brasileiro, há 10 anos o Brasil enfrentava desafios mais significativos no diagnóstico e A limitação orçamentária impede investimentos em infraestrutura e capacitação, enquanto o desinteresse dos profissionais de saúde é motivado pela falta de incentivos financeiros e de conhecimento. Estes problemas acabam prejudicando a qualidade de vida dos pacientes Eduardo Fróes, presidente da Associação Brasileira de Talassemia (Abrasta)

ABHH em Revista 11 / 2024 18 intervenções precoces, notadamente no SUS, principal fonte de assistência à saúde para a maioria da população. Este cenário evoluiu com melhora na qualidade de vida dos pacientes, aumento da sobrevida e diminuição na morbidade do tratamento. “Hoje temos importantes tratamentos no SUS como a imunoterapia, o transplante autólogo e as terapias-alvo. Desde 2011, por exemplo, o SUS disponibiliza anticorpo monoclonal para o tratamento de pacientes com linfoma não-Hodgkin de grandes células B, ampliando o uso em 2013 para o tratamento do linfoma não-Hodgkin folicular, um medicamento essencial. Reconhecemos os esforços do poder público e de outros setores da sociedade para melhorar o acesso e a qualidade do tratamento do câncer no país, mas, apesar desses esforços, muitos desafios persistem”, analisa a gerente de Políticas Públicas e Advocacy da Abrale, Luana Ferreira Lima. “Hoje o SUS, em sua grandiosidade, consegue dar as respostas necessárias para os pacientes com câncer até certo ponto da jornada. A partir daí, o Reconhecemos os esforços do poder público e de outros setores da sociedade para melhorar o acesso e a qualidade do tratamento do câncer no país, mas, apesar desses esforços, muitos desafios persistem Falta capacitação para a equipe médica que recebe o paciente com os primeiros sintomas ou algum sinal e não suspeita de uma doença onco-hematológica paciente fica sozinho esperando resoluções que muitas vezes não chegam ou chegam com muito atraso, o que implica seriamente no desfecho do tratamento”, afirma Marlene Oliveira, presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida. O instituto realizou em 2023 a pesquisa “O câncer no Brasil, a realidade paciente”. “O que constatamos, agora com uma pesquisa real, é a total disparidade de processos, os enormes vazios assistenciais, a falta de profissionais, assim como, de capacitação, as dificuldades díspares e as angústias vivenciadas por esses centros e unidades que precisam atender e dar as respostas que os pacientes precisam em toda a sua jornada de tratamento”, complementa Marlene. Incorporado, mas não disponível Outro desafio é quando ocorre a incorporação de tratamentos e medicamentos, mas o paciente não consegue ter acesso efetivo — qualquer nova tecnologia ou medicamento incorporado ao SUS deve estar Luana Ferreira Lima, coordenadora de Políticas Públicas e Advocacy da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale) Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia em perspectiva

Barreiras que impedem a acesso dos pacientes hematológicos aos tratamentos 11 / 2024 ABHH em Revista 19 Há uma complexidade significativa no sistema de saúde brasileiro, o que afeta o acesso e a qualidade do tratamento. O acesso ao tratamento é fortemente influenciado por desigualdades sociais e econômicas, como o fato de que os centros de tratamento especializado estão localizados nos grandes centros urbanos. Há diferenças na assistência à saúde dada nas regiões Norte e Nordeste (por causa de limitação orçamentária) em comparação com a região Sudeste. Mesmo quando incorporado pelo Ministério da Saúde, não há garantia de recursos para a compra do medicamento/tecnologia. Após a incorporação, a compra centralizada ou descentralizada do medicamento, essa última feita pelo estado, há problemas de logística, burocracia e interesses comerciais que fazem com que o paciente, que está na ponta, fique sem o acesso ao tratamento ou que este seja interrompido. disponível aos pacientes em no máximo 180 dias após a decisão do Ministério da Saúde pela inclusão. Um exemplo é o medicamento para pacientes com leucemia linfoblástica aguda (LLA), câncer infantil, cuja incorporação aconteceu há mais de um ano. Apesar da publicação de portaria que inclui o medicamento na tabela do SUS, com previsão das condições para autorização do uso do medicamento e a definição do financiamento e a publicação da atualização do Protocolo de Uso, a chegada do medicamento aos pacientes do SUS ainda não é efetiva mesmo considerando se tratar de pacientes pediátricos, com proteção especial garantida pela legislação. “Os medicamentos, por exemplo, não chegam ao paciente dentro do tempo legal estipulado, tempo que seria para os trâmites administrativos de negociação de preço, compra, distribuição e elaboração de protocolo clínico, mas o prazo não é cumprido. Nesse sentido, a principal dificuldade dos pacientes no acesso ao tratamento está na atualização e incorporação de tratamentos e medicamentos, no SUS e na saúde suplementar, e no acesso efetivo aos medicamentos incorporados”, observa Luana, coordenadora da Abrale. A demora para o câncer hematológico ser identificado pelos médicos, que nem sempre têm o conhecimento suficiente sobre as especificidades dessas doenças do sangue, representa mais dificuldade no acesso. “Falta capacitação para a equipe médica que recebe o paciente com os primeiros sintomas ou algum sinal e não suspeita de uma doença onco-hematológica”, afirma a presidente do Instituto Oncoguia, Luciana Holtz. Outros obstáculos são o acesso a medicamentos que estão na lista de medicamentos essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS), problemas como longas filas de espera para consulta com especialistas, realização de exames, cirurgias e transplantes mesmo com legislações como a Lei dos 30 e 60 dias. O acesso ao Transplante de Medula Óssea (TMO) também é desafiador. “Quando falamos sobre TMO, a escassez de centros de transplante qualificados representa uma dificuldade significativa, tornando a busca por um doador adequado uma tarefa complexa. Além disso, o alto custo do procedimento e a falta de infraestrutura adequada em alguns hospitais dificultam o acesso dos pacientes ao tratamento”, observa Luana, da Abrale. 01. 02. 03. 04. 05. Fonte: Luana Ferreira Lima, da Abrale

ABHH em Revista 11 / 2024 20 Em 2022, a ABHH criou o Programa Equidade ABHH para desenvolver e fortalecer ações nas áreas da Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular no âmbito dos sistemas de saúde. Representando um marco para a ABHH, o programa defende que políticas públicas sejam criadas levando-se em consideração determinantes sociais de saúde, disseminando o acesso igualitário a medicamentos essenciais e a novas tecnologias igualmente na saúde suplementar e no SUS. O que esperar no futuro? Apesar do contexto desafiador, a perspectiva é de que seja possível amenizar a situação crítica atual. “Temos consciência de que os desafios são muitos, mas, com estruturação e objetivos bem estabelecidos, podemos avançar para melhorar, sobretudo, a prevenção, o diagnóstico precoce e melhorias nos serviços de saúde. A criação da nova Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer no SUS (confira reportagem sobre este assunto na página XX), uma vez implementada de forma objetiva, será decisiva para a melhoria do cenário”, afirma Luana, da Abrale. Um fator apontado por ela para melhorar o acesso ao tratamento no Brasil é a colaboração importante entre médicos e pacientes. “Os médicos possuem o importante papel de comunicar, informar e trabalhar a educação em saúde sobre a realidade do tratamento, os direitos relacionados à saúde e os serviços disponíveis no SUS, garantindo que estejam bem informados sobre como acessar o tratamento necessário. Já o paciente deve estar envolvido ativamente no processo de tomada de decisão relacionado à sua saúde. Temos visto um movimento muito ativo de pacientes nesse sentido, tanto no que se refere ao protagonismo do tratamento, quanto por melhores serviços e acesso ao tratamento. Um exemplo é a participação social nos processos de incorporação de tecnologia, tanto no SUS quanto na saúde suplementar”, complementa Luana. Hoje o SUS, em sua grandiosidade, consegue dar as respostas necessárias para os pacientes com câncer até certo ponto da jornada. A partir daí, o paciente fica sozinho esperando resoluções que muitas vezes não chegam ou chegam com muito atraso, o que implica seriamente no desfecho do tratamento Marlene Oliveira, presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida ABHH COMPROMETIDA COM A EQUIDADE NO ACESSO Conheça mais sobre o Programa em perspectiva

11 / 2024 ABHH em Revista 21 Meeting & Exposition September 25-28, 2024 • Riocentro Rio De Janeiro, Brazil PROGRAM AVAILABLE NOW Scan the QR code for more information Register now: imsannual.com

Por Roberto Souza ABHH em Revista 11 / 2024 22 cobertura Em março, lideranças do Norte e Nordeste debateram acesso e equidade sob a ótica da realidade regional durante fórum promovido pela ABHH em Belém (PA) D iscutir as principais necessidades e desenhar possíveis soluções para aprimorar a atenção a pacientes onco-hematológicos da Região Norte foi o mote do Fórum de Acesso e Equidade: Região Norte, realizado pela ABHH no dia 23 de março, em Belém (PA). O encontro regional em Belém é parte das ações do Programa Equidade ABHH. Além da participação de diretores da ABHH, o Fórum teve a participação de médicos onco-hematológicos com atuação na região. No total, 21 palestrantes participaram do evento, que teve a presença de cerca de 100 pessoas. Transmitido ao vivo pelo canal da ABHH no YouTube, aproximadamente quase 500 pessoas acompanharam online. “Tivemos aqui a participação de importantes nomes da diretoria e da história da ABHH, além de colegas de outros estados. Dialogamos sobre as realidades da saúde pública regional no cenário nacional sob a ótica de colegas que atuam no sistema público e no privado, além de gestores. Falamos sobre os mais variados temas, desde a navegação do paciente até o financiamento e o acesso a novas tecnologias. Parabéns pelo pioneirismo da ABHH em promover debate tão amplo e visando apenas o paciente”, afirma o Dr. Thiago Xavier Carneiro, que é membro do Comitê Equidade ABHH e professor de Medicina da Universidade do Estado do Pará (UEPA). Xavier integrou a comissão organizadora local junto à Dra. Lucyana Leão Equidade na região Norte

11 / 2024 ABHH em Revista 23 (coordenadora de Transplante de Medula do Hospital Ophir Loyola, referência em oncologia no estado) e à enfermeira Rosana Moreira, que atua no hospital. O Dr. João Carlos Pina Saraiva, ex-presidente da antiga SBHH e atual diretor do Instituto de Hematologia e Hemoterapia de Belém (IHEBE), marcou presença no Fórum. Pela manhã, na abertura do evento, o presidente da ABHH, Dr. Angelo Maiolino, relembrou que a jornada de equidade, agora na missão da associação, começou em 2018 com a criação do Comitê de Acesso. “É uma satisfação enorme estar em Belém, de olho na realidade da região Norte. Esse tipo de fórum, adicionalmente às visitas que fizemos nos serviços locais, é uma oportunidade de olhar de perto para a excelência da Medicina daqui e também para as dificuldades específicas que são enfrentadas”, afirmou Maiolino. No primeiro painel do evento, o coordenador-geral da recém-criada Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer (PNPCC), Fernando Maia (que pediu exoneração do cargo em abril), falou sobre a importância da integração entre especialistas e gestores. “O protagonismo da ABHH em promover ambientes de debate sobre o tema do acesso é extremamente relevante para que todos os envolvidos se mobilizem em prol de melhorias para o paciente. O desafio de construir essa política é atender ao maior número de demandas reprimidas sem onerar o sistema público”, falou. Em sua palestra, a Dra. Sandra Gioia, coordenadora do Programa de Navegação de Pacientes da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro desde 2017, falou com o público sobre este programa e de como ele pode ajudar na eficiência da jornada do paciente oncológico. “Os programas de navegação de pacientes, com a inclusão do navegador nas equipes de saúde, trazem inúmeros benefícios. Os navegadores avaliam e compreendem as necessidades físicas, emocionais, informativas e logísticas da paciente”, afirmou Sandra durante o Fórum da ABHH. A navegação de pacientes oncológicos é uma metodologia que diz respeito à jornada do paciente e que envolve tanto o relacionamento entre profissionais da saúde e pacientes quanto a integração processual dos hospitais e clínicas de atendimento. O assunto teve a mediação da CEO da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale), Catherine Moura. “Redução de inequidade e acesso são dois temas bastante complexos. Muitas vezes, nós temos a impressão de que esta é uma missão apenas do poder público e dos gestores, mas, na verdade, essa iniciativa de reunião de diversos atores, e mesmo em atividades individuais enquanto cidadãos, demonstra que todos somos corresponsáveis por essa busca”, opinou Catherine durante o debate. Ainda na parte da manhã, o coordenador do Comitê de Equidade da ABHH, Dr. Renato Cunha, explicou as iniciativas da ABHH e lançou uma pesquisa para nortear as ações nos próximos anos. Desenhando propostas práticas No segundo bloco do encontro, realizado à tarde, o Fórum da ABHH abriu espaço para debates focados na construção de propostas práticas para trazer pontos de vistas, experiências práticas e desafios para elaborar propostas e tentar tirá-las do papel. Sobre o cuidado multidisciplinar ao paciente, participaram da mesa Ivison Carvalho, representando a Secretaria Municipal de Saúde de Belém; a coordenadora de Enfermagem de Transplante de Medula Óssea do Hospital Ophir Loyola, Rosana Moreira, e do Dr. James Maciel, membro do Comitê de Equidade da ABHH. Getty Images

ABHH em Revista 11 / 2024 24 Para Ivison, que é Mestre em Gestão e Saúde na Amazônia, o segredo para integrar todos os profissionais que atuam na jornada do paciente são modelos de comunicação. “Todos os envolvidos no cuidado devem olhar para o problema, estabelecer uma meta e conduta, ou seja, olhar para o que o paciente precisa, definir uma linha terapêutica e estabelecer objetivos de maneira integrada”, disse. “Ter profissionais atualizados, que vão atrás de conhecimento constante, e oferecer treinamentos também são iniciativas que fazem a diferença”, complementou Rosana. Integrante do Comitê de Equidade da ABHH, o Dr. Marcelo Capra apresentou iniciativas de sucesso do Grupo Hospitalar Conceição em gestão e acompanhamento de pacientes nas áreas de oncologia e oncohematologia. "Existem processos aplicados em diversas localidades que podem ser replicados em outras iniciativas, no público e no privado, para melhorar a vida do paciente na ponta", afirmou. Em sua fala na sessão sobre desafios para leucemias agudas, leucemia mieloide crônica (LMC) e leucemia linfocítica crônica (LLC), o Dr. João Saraiva falou sobre a importância de se conhecer os muitos Brasis existentes quando se olha para o cenário de acesso na área da saúde. “É muito difícil orientar o paciente a continuar seu tratamento em casa, ou dar alta precoce, se muitas vezes ele não tem água encanada dentro de casa”, lamentou sobre a realidade crônica que impacta na prática médica. “Ou seja, são uma série de nuances que temos que olhar quando falamos em acesso e equidade”, disse Saraiva, responsável técnico pelo Serviço de Transplante de Medula Óssea do Hospital HSM e hematologista do Hospital Ophir Loyola e do IHEBE. Ao projetar o mapa do Pará no telão do evento, o hematologista ainda evidenciou que o cuidado hematológico ainda está centrado na capital do estado, sendo que o local mais próximo com esse tipo de atendimento fica a uma hora e meia de Belém. “A partir destes pontos e outras nuances, fica fácil entender as dificuldades em diagnosticar e tratar, por exemplo, leucemia mieloide crônica, uma doença hematológica que exige amplo acompanhamento”, destacou o especialista. Acesse todas as palestras do Fórum de Acesso e Equidade: Região Norte cobertura Alguns registros do fórum em Belém

11 / 2024 ABHH em Revista 25

ABHH em Revista 11 / 2024 26 Realizado de 24 a 27 de abril pela plataforma de eventos online da ABHH, o Brazilian Lymphoma Conference (BLC) de 2024 reuniu um público de quase mil pessoas entre estudantes, especialistas e pesquisadores do Brasil e de outros países. Considerado o mais importante evento latino-americano sobre doenças linfoproliferativas e segundo maior evento científico realizado pela ABHH depois do HEMO, a programação científica do BLC 2024 apresentou aos inscritos avanços relevantes já publicados ou apresentados em importantes congressos científicos. O evento contou com a inscrição de aproximadamente mil pessoas e com a presença de speakers do Brasil e de países como Estados Unidos, Portugal, Alemanha e Itália. “A excelência desta edição se deu, como sempre, pelo olhar dos speakers, orientados pelo comitê organizador a quem agradeço novamente pelo empenho e por ter trazido debates focados nas realidades brasileira e latino-americana quando se fala em inovações e aplicabilidade”, destaca o Dr. Carlos Chiattone, presidente do BLC 2024. No primeiro dia do evento, as palestras focaram em diferentes aspectos dos linfomas agressivos e do linfoma difuso de grandes células B, apresentando ao público alguns casos clínicos. Ao final das sessões com palestras temáticas, os congressistas puderam fazer perguntas ao vivo aos especialistas. No segundo dia, o BLC contou com a realização dos Simpósios Corporativos, eventos direcionados aos profissionais prescritores e dispensadores de medicamentos. Já no último dia do evento, os palestrantes abordaram temas relacionados a linfoma de Hodgkin, linfomas de células T periféricas e sobre a atuação da ABHH junto às agências de incorporação de novas tecnologias e medicamentos. Além de Simpósios Corporativos, cobertura as sessões de perguntas e respostas também fizeram parte da programação do BLC. Coroando a realização do evento, ocorreu a Conferência Magna “DNA tumoral circulante no linfoma: princípios e direções futuras”, ministrada pelo norte-americano Ash A. Alizadeh, líder do Programa de Genômica do Câncer no Stanford Cancer Institute, da Universidade de Stanford. Segundo Alizadeh, as mudanças no DNA podem ser informativas no diagnóstico da doença e devem ser analisadas. “Em se tratando de uma linha do tempo, particularmente quando falamos do ctDNA, o DNA tumoral circulante, ele informa a estratificação de risco para a classificação molecular e a previsão de sensibilidade clínica a determinadas terapias”, disse. Além do Dr. Carlos Chiattone, integram o comitê organizador do BLC os médicos Celso Arrais, Guilherme Perini. Jorge Vaz, , Natália Zing, Talita Silveira e Thaís Fisher. Brazilian Lymphoma Conference 2024 superou a marca de mil inscritos C M Y CM MY CY CMY K Os vídeos do BLC 2024 estão disponíveis na Hemoteca

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