ABHH em Revista #12/2024

12 / 2024 ABHH em Revista 19 E m maio deste ano, o Ministério da Saúde oficializou a instituição da Política Nacional de Cuidados Paliativos (PNCP) no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). A política determina que os cuidados paliativos serão ofertados o mais precocemente possível no curso de qualquer doença ameaçadora da continuidade da vida. Na definição da PNCP, cuidados paliativos são as ações e os serviços de saúde para alívio da dor, do sofrimento e de outros sintomas em pessoas que enfrentam doenças ou outras condições de saúde que ameaçam ou limitam a continuidade da vida (saiba mais sobre a importância da nova política ao final desta matéria). O conceito de cuidados paliativos tem suas bases históricas e conceituais na década de 1960, no Reino Unido, com a médica Cicely Saunders, uma das pioneiras no uso dos cuidados paliativos para o tratamento dos pacientes. Ciente da necessidade de expandir o assunto para os hematologistas, a ABHH criou, em 2021, o Comitê de Cuidados Paliativos, composto por hematologistas e paliativistas. Seu objetivo é aprimorar a qualidade de vida e impactar positivamente o curso das doenças em pacientes hematológicos, que enfrentam desafios constantes relacionados a doenças graves e potencialmente fatais, tanto em casos de neoplasias hematológicas quanto em diversas condições classificadas como benignas. A evolução dos cuidados paliativos ao longo das décadas e sua importância para a hematologia foram assuntos abordados em um episódio recente do HEMOPlay Podcast, o podcast da ABHH. O bate-papo contou com a participação das médicas hematologistas e paliativistas Amanda Pifano e Laura Ferraz, coordenadora e membro do Comitê de Cuidados Paliativos da ABHH, respectivamente. Para a Dra. Amanda, há um interesse crescente dos hematologistas em relação ao assunto. “Estamos discutindo não só por meio do comitê, mas dentro dos diversos lugares em que trabalhamos a discussão dessa integração dos cuidados paliativos no tratamento do paciente hematológico, mas principalmente de como os cuidados paliativos podem aprimorar o cuidado com o paciente. O hematologista é um médico muito completo, mas temos várias defasagens na nossa formação. Mesmo nas doenças benignas na hematologia, nós estamos lidando com o sofrimento o tempo todo”, analisa a médica paliativista. Há uma grande mudança de paradigma sobre cuidados paliativos, acrescentou a Dra. Laura, em que saímos do ultrapassado modelo biomédico e caminhamos para um novo modelo bioético em sociedade que envolve também a medicina baseada em valor. “Nossos modelos atuais de prestação de cuidados não são sustentáveis a longo prazo, e isso faz com que novos modelos sejam estudados e avaliados. E esse novo modelo de medicina baseada em valor, em que temos a medicina baseada em evidências em associação com os valores, preferências e necessidades dos pacientes e suas famílias — algo que era invisível até pouco tempo atrás —, associado a uma avaliação de custo-efetividade, de efeito, eficácia e eficiência, isso tudo coloca muito em voga os cuidados paliativos. Não temos como praticar essa nova medicina se não tivermos habilidades e conhecimentos que venham desse lugar dos cuidados paliativos”, analisou a especialista durante o episódio do HEMOPlay Podcast. Cuidados paliativos não são apenas sobre o fim da vida Outro recorte que as especialistas trouxeram foi que o conceito de cuidados paliativos costuma ser mal interpretado por hematologistas como sendo o atendimento no fim de vida, quando todas as opções de tratamento curativo se esgotaram. Segundo elas, isso é um obstáculo para sua aplicação. “O conceito nasceu realmente do cuidado aos pacientes terminais, e eles, até pouco tempo atrás, eram O entendimento de que o sofrimento causado pela trajetória do adoecimento é complexo a ponto de uma única especialidade ou nicho de conhecimento não conseguir abraçar todas as dimensões do sofrimento é muito recente e os cuidados paliativos estão caminhando para isso Getty Images

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