ABHH em Revista 15 / 2025 30 artigo A neurodiversidade chega ao HEMO 2025 Falar sobre neurodiversidade em um congresso médico-científico ainda pode soar incomum. Mas talvez seja justamente essa surpresa que revela o quanto precisamos, de fato, abrir espaço para esse diálogo. Pela primeira vez, o HEMO dedica uma sessão científica inteiramente voltada à inclusão da neurodiversidade nos ambientes hospitalares, um passo histórico e necessário para repensarmos o que realmente significa oferecer um cuidado integral. Na onco-hematologia, convivemos com pacientes neurodivergentes que experimentam o hospital de uma forma diferente, muitas vezes mais intensa. Ruídos, luzes fortes, excesso de estímulos ou mudanças bruscas de rotina podem gerar desconforto e ansiedade. São aspectos que interferem no bem-estar do paciente e de sua família e que exigem de nós, profissionais de saúde, um olhar mais atento, sensível e humano. Protocolos ajustados, ambientes acolhedores e equipes multidisciplinares preparadas não são luxo, mas, sim, expressões de respeito e instrumentos de dignidade. Como médico hematologista e pai atípico, compreendo esse tema por dentro e por fora do hospital. Ser pai atípico me tornou mais forte em todos os sentidos. Fez com que eu entendesse a neurodiversidade não como um conceito teórico, mas como uma vivência diária, repleta de aprendizados e desafios. Tornou-se uma das minhas prioridades, assim como a medicina. Foi com esse propósito que, em 2024, ajudei a criar o grupo NeuroGente, dedicado à neurodiversidade no A.C.Camargo Cancer Center. Formado por profissionais de diferentes áreas, o grupo tem como foco a escuta, o acolhimento e a criação de ações que ampliem a inclusão e a compreensão sobre a neurodivergência no ambiente de trabalho. Promovemos rodas de conversa, presenciais e online, com pacientes neurodivergentes e pais de filhos neurodivergentes, fortalecendo uma rede de apoio e aprendizado mútuo. Liderar esse grupo se tornou uma das minhas maiores paixões. Trazer esse debate para o HEMO é reconhecer que a excelência médica só se realiza plenamente quando caminha lado a lado com a empatia. Esse encontro nos convida a refletir sobre o cuidado que transcende a técnica ao considerar cada indivíduo em sua totalidade. Falar sobre neurodiversidade, compartilhar experiências e construir pontes de entendimento são atitudes que transformam o modo como praticamos a medicina. Que esta primeira sessão científica sobre neurodiversidade no HEMO seja o início de um novo tempo em que compreender o outro seja tão essencial quanto curar. Dr. Jayr Schmidt Filho é chefe de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular do A.C.Camargo Cancer Center e membro do Comitê de Terapia Celular da ABHH
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