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abril/maio/junho 2013
educação
Fotos: ©
Igor Grazianno /
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Shutterstock
Ciências Médicas da Santa Casa de São
Paulo (FCMSCSP), Rodolfo Cançado, a
deficiência do ferro pode causar graves
problemas. “Prejudica o desenvolvimen-
to mental e psicomotor, ocasionando
menor rendimento intelectual e escolar
nos lactentes, e maiores taxas de repro-
vação e abandono escolar na criança e
no adolescente; pode causar aumento da
mortalidade materna e infantil, além da
queda no desempenho do indivíduo no
trabalho e redução da resistência às in-
fecções”, escreveu Cançado.
No entanto, o excesso de ferro no san-
gue pode causar problemas e as doenças
provenientes dessa anomalia não são raras.
Cançado explica que diversos pacientes são
expostos a riscos que podem comprome-
ter gravemente seus quadros, como ocorre
em portadores de sobrecarga de ferro com
hemocromatose hereditária ou pessoas por-
tadoras de anemias hereditárias, doença
falciforme, talassemia, além de doenças
onco-hematológicas. Dados do Ministério
da Saúde mostram que, anualmente, a cada
mil nascidos vivos, aproximadamente um
tem doença falciforme.
Riscos da fortificação
Independentemente de o indivíduo ter
excesso, falta ou níveis normais de ferro,
essa substância não é eliminada natural-
mente pelo corpo. Essa excreção ocorre
apenas por meio da descamação da pele
e do intestino. Portanto, uma das únicas
alternativas para quem sofre de hemocro-
matose, por exemplo, é realizar sangrias.
“O ferro se deposita no fígado, coração,
baço e pâncreas. Em alguns casos, chega
a causar cirrose hepática e câncer no fí-
gado. Outra doença grave, a talassemia,
pode ser ainda mais agravada pelo ferro
e causar até morte”, alerta o especialista
José Murilo Martins. Outro risco citado
por ele é o prolongamento do tempo para
se diagnosticar qualquer tipo de câncer.
“O primeiro sintoma da doença é a ane-
mia. Como o paciente está previamente
medicado com o consumo do ferro, o
sintoma não se manifesta e o diagnóstico
pode chegar tarde demais”, revelou.
Em seu artigo, o hematologista
Rodolfo Cançado concorda com Murilo
sobre os perigos da medida da Anvisa e
de outros países. “A fortificação expõe,
desnecessariamente, uma parcela signifi-
cativa da população brasileira ao agrava-
mento de sua condição de saúde”, opinou.
Tendo em vista esses riscos, Cançado su-
gere que a União legisle da mesma forma
que para alimentos com ou sem açúcar, ou
sal que contém iodo ou não. “O Governo
já disponibiliza alimentos sem adição de
açúcar para diabéticos e sal não iodado
para quem sofre de câncer de tireoide, por
exemplo”, citou.
Com esses exemplos, o professor da
Santa Casa lembra que o mesmo pode ser
realizado com o ferro. “Passa a ser crucial
que haja disponibilidade e acesso fácil a
alimentos não fortificados com ferro para
a população de maneira geral.”
Alternativas
Na hipótese da RDC n.º 344 ser derru-
bada, os portadores de anemia ferropriva
não serão prejudicados. Conforme sugeri-
do tanto por Martins, quanto por Cançado,
os alimentos fortificados com ferro pode-
rão ser comercializados normalmente, mas
não como únicas opções. Além dessa al-
ternativa, Martins lembra também de uma
opção simples e de baixo custo. “Um com-
primido de ferro custa 30 centavos e tem
40 miligramas do metal, o que correspon-
de a um quilo de pão”, sugeriu o hemato-
logista que mais luta para divulgar e tentar
alterar a situação junto à Anvisa.
No entanto, alimentos fortificados são
mais caros para a população. “Amedida de
fortificação foi governamental, mas o custo
vai todo para a população. Aadição de ferro
aos alimentos tornou os produtos mais one-
rosos. Portanto, a derrubada da RDC seria o
caminho ideal”, opinou Martins.
Além das alternativas plausíveis, o
professor Cançado lembrou que o Brasil
não tem resultados necessariamente
bons após 10 anos da medida da Anvisa.
“Apesar da sintonia do Governo do País
com as recomendações internacionais, são
poucos e contraditórios os resultados so-
bre a efetividade do programa de fortifica-
ção de alimentos”, lembrou.
Caminhos
JoséMuriloMartins foi o primeiro a ten-
tarderrubaramedidadaAgênciaNacionalde
Vigilância Sanitária (ANVISA). “Primeira-
mente denunciei ao Conselho Regional de
Medicina (CRM) do Ceará e à Secretaria de
Saúde do Estado. Prometeram que a Anvisa
me chamaria para uma reunião, o que ainda
não ocorreu”, revelou. Martins pensa que
a legislação precisa ser revista o mais rá-
pido possível, até por causa das mudanças
que ocorreram na sociedade nas últimas
décadas. “Hoje, nos Estados Unidos, são 1
milhão de pessoas com excesso de ferro no
sangue. No Brasil, esse número é desconhe-
cido, mas está claro que se tratam de doenças
frequentes. Oferecer até 100 gramas de fer-
ro diariamente não é correto”, opinou.
O médico falou também dos riscos
da quantidade do metal, além do ácido
fólico em cada alimento. “A resolução
prevê o mínimo de 4,2 gramas a cada
100, mas não um número máximo. Ou
seja, se uma empresa alimentícia utilizar
99 gramas do metal, não há nada de er-
rado conforme a legislação. Isso precisa
mudar”, concluiu.
A fortificação
expõe, desneces-
sariamente,
uma parcela
significativa da
população ao
agravamento de
sua condição
de saúde .
Rodolfo Cançado,
hematologista