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HEMO
abril/maio/junho 2013
quem foi
a comunicação sobre essa descoberta, em
1949, na
Revista Ciência e Cultura
, da
Sociedade Brasileira para o Progresso da
Ciência. O artigo foi assinado também por
Rosenfeld e Beraldo.
A descoberta da bradicinina em si
ocorreu no Departamento de Bioquímica
e Farmacologia da Faculdade de Medicina
de Ribeirão Preto, da USP, em 1948.
Rosenfeld levou do Butantan amostras do
veneno da cobra jararaca, que foi mistu-
rado a sangue de cachorro e testado em
intestino isolado de porquinhos-da-índia.
Os três cientistas pretendiam testar a
histamina,
substância orgânica que se en-
contra nos tecidos animais e estimula as
secreções salivar, gástrica e pancreática,
atuando como dilatadora dos capilares. Esta
é frequente em veneno de cobras, então
aguardavam uma contração da musculatura
lisa. Porém, o que ocorreu foi o contrário. A
contração ocorria de forma lenta, mas, con-
sistente, mantida por alguns minutos. Então,
os três autores chegaram à conclusão de que
os venenos de serpentes são capazes de li-
berar do plasma um fator para contrair o in-
testino isolado, além de causar hipotensão.
Vida científica
A paixão de Gastão Rosenfeld pela
área científica rendeu importantes traba-
lhos não apenas ao determinado hemato-
logista, mas também para a medicina bra-
sileira em geral. Exemplo disso é a criação
do Hospital Vital Brazil, no Instituto
Butantan, especializado no atendimen-
to a acidentes com animais peçonhentos.
Curiosamente, esse foi o primeiro hospital
do País a contar com um heliponto, o que
ajudava no transporte de feridos de todo o
estado de São Paulo.
O húngaro naturalizado brasileiro
teve 185 trabalhos publicados, foi um
dos fundadores da SBPC, onde foi se-
cretário-geral por dez gestões e também
coordenador de pesquisas do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq). Além da marcan-
te descoberta da bradicinina, o hematolo-
gista teve diversos trabalhos ligados ao
efeito de venenos dos animais no corpo
humano, ou seja, na coagulação do san-
gue. Por ela que os efeitos se dão, desde
febres, dores, espasmos, até a morte.
Algumas toxinas neurológicas, meto-
dologias laboratoriais, padronizações em
nível internacional, moléstias infecciosas
e trabalho com a doença de Chagas, sem
contar a direção de sociedades científicas,
como a então Sociedade Brasileira de
Hematologia e Hemoterapia (antecessora
da ABHH) foram pontos pesquisados e
teorizados por Rosenfeld.
O conhecimento na área transformou
o profissional em um ‘papagaio’, de acor-
do com seu filho, Luiz Rosenfeld. “Após
a descoberta da bradicinina e o trabalho
de referência no Instituto Butantan, ele
ministrou muitas palestras. Sempre, em
todo auditório, tem alguém que gosta e
quer esse ensinamento em outros locais.
Quando percebeu, ele estava falando a
mesma coisa diversas vezes”, explicou.
Atividades diversas
Apesar de ser um homem ocupado
com o trabalho cotidiano em laboratório,
além das diversas atividades em pesquisa,
Rosenfeld costumava se distrair com obri-
gações fora da área médica. O médico he-
matologista gostava de recarregar as ener-
gias no contato com a natureza, sempre no
interior do Brasil.
Curioso, Rosenfeld se tornou fazen-
deiro em 1943. No interior do Paraná,
mais precisamente na cidade de Bom
Sucesso (a 450 quilômetros da capital
Curitiba), adquiriu 100 alqueires (medida
utilizada para terras rurais. Um alqueire
corresponde a 24.200 metros quadrados,
mas os números podem variar de acordo
com o local do Brasil).
Para chegar até suas terras, o médi-
co encarava uma verdadeira maratona.
Rosenfeld ia de São Paulo até Londrina
(no norte do Paraná) de trem. O percur-
so de 540 quilômetros, com a tecnolo-
gia da época, chegava a levar 10 horas.
Depois, utilizava uma jardineira (tipo
de ônibus resistente a estradas de terra)
Foto: ©
Daindra Destri
/ Blog Daindra Destri
Instituto Butantan
/ Divulgação
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