ABHH em Revista #02/2020
02 / 2020 A B H H e m R e v i s t a 15 Trazemos aqui mais um pouco dessa conversa! A pandemia poderia ser comparada a uma guerra? E como se manter motivado para seguir nessa batalha? Ouça o que disse o Dr. Dimas Covas. última fase, que é o estudo clínico de fase 3. E iniciamos a produção local dessa vacina. Desde outubro, recebemos a matéria-prima da vacina da China e começamos a produção de várias aqui no Butantan, permitindo que, até o fim de dezembro, tenhamos em torno de 46 milhões de doses disponíveis. Havendo o registro — obviamente dependemos dos resultados do estudo clínico para poder re- gistrar a vacina na Anvisa — antes do fim do ano, a vacina estará disponível ao Ministério da Saúde para introdução em seu Programa Nacional de Imunizações (PNI) no início de 2021. É um fato que traz muita esperança, ao mesmo tempo que coloca o Brasil, o estado de São Paulo e o Butantan em posição de destaque mundial. A vacina que desenvol- vemos com a companhia chinesa é uma das cinco vacinas no mundo em estágio mais avançado de desenvolvimento, e ela tem grandes chances de começar a ser usada antes das demais. É um motivo enorme de satisfação e orgulho chefiar esse esforço. Você acredita que a presença de profissionais da hematologia em cargos de liderança no combate ao coronavírus mostra uma valorização da área? A hematologia no Brasil sempre esteve na ponta do desenvolvimento científico, não só dentro da especialidade, mas também realizando ciência da melhor qualidade. A ciência feita pelos hematologistas brasileiros se compara aos melhores centros do mundo. No meu caso, essa formação profissional é que me permitiu essa atuação de liderança no atual momento. Toda a experiência que acumulei está sendo utilizada agora, e ela foi fundamental em decorrência da minha for- mação, dos professores que tive, das vivên- cias na Associação Brasileira de Hematolo- gia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), da qual tive a honra de ser presidente e hoje ainda sou membro da Diretoria. Tudo isso agrega experiência e, num determinado mo- mento, ela se mostra fundamental. Em uma coluna no jornal O Globo de março, você já alertava para o perigo do coronavírus. Você acha que a doença foi menosprezada? Faltou um cuidado maior no começo? Não tenho dúvida disso. Os alertas aparece- ram lá atrás, mas muitas autoridades sim- plesmente os ignoraram. Se tivéssemos sido ouvidos naquele momento, se nossas autori- dades maiores no governo federal tivessem incorporado muitas das sugestões feitas lá no começo, se não houvesse acontecido tantas mudanças durante esse tempo — várias mu- danças de ministros, a condução mudando de direção várias vezes —, o resultado teria sido melhor sem dúvida nenhuma. Me entris- tece demais saber que o Brasil é o segundo país do mundo em número de mortes pela covid-19 e o terceiro, neste momento, em nú- mero de casos. É uma estatística muito triste e que reflete bastante o fato de não ter sido reconhecida — e muitos ainda não reconhe- cem — a importância dessa pandemia. Quais as suas expectativas para a recuperação do País no período pós-pandemia? Toda crise gera grandes oportunidades. Se o Brasil tiver juízo, terá muitas oportunida- des em decorrência dessa crise. Ele precisa aprender, ver suas fragilidades, enxergá-las, corrigi-las e se preparar para um avanço. O caminho ficou muito mais claro após essa pandemia. É uma crise, um sofrimento, uma angústia, não há dúvidas sobre isso, mas que também nos mostra o caminho para nos prepararmos para o futuro. Eu o enxergo com muita esperança, se aprendermos as lições e as incorporarmos, tornando-as per- manentes. Nossas fragilidades apareceram como nunca, e é uma oportunidade muito rara de corrigirmos nossas dificuldades. Corrigindo agora e mantendo, pois outras epidemias poderão vir, outros desafios na área de saúde virão, e acredito que estare- mos melhor preparados.
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