ABHH em Revista #02/2020

A B H H e m R e v i s t a 02 / 2020 20 a r t i g o É INEGÁVEL A RESPEITABILIDADE ganha após a primeira publicação de um artigo, e isso pode ser um combustível para estimular outras publicações. O de- sejo de ter um artigo publicado se intensificou com a pandemia, com consequente aumento de “cientis- tas”, “pesquisadores” e “doutores” em coronavírus, trazendo mais problemas e dúvidas do que realmen- te contribuições, engrossando o caldo das fake news . Uma forma de garantirmos uma boa publicação de artigos é a escolha criteriosa de nossas referên- cias — para essa finalidade, cito o uso de instrumen- tos de avaliação da qualidade da evidência científi- ca, de acordo com o tipo de estudo realizado, como o sistema GRADE (Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation) e a pirâmide de níveis de evidência científica modifi- cada e proposta por Murad e colaboradores . A pandemia trouxe grande preocupação entre a população e enorme responsabilidade por parte de médicos e pesquisadores. Mas a resposta da ciên- cia, infelizmente, não é rápida como a velocidade de disseminação de um agente infeccioso. O HIV, por exemplo, foi detectado inicialmente em 1978 e apenas em 1981 surgiram os primeiros testes diag- nósticos. A atual pandemia teve uma rápida disse- minação, forçando resultados de pesquisa a serem publicados logo após sua conclusão. Os comitês de ética também sofreram a pressão e muitos projetos de pesquisa em coronavírus foram aprovados ad re- ferendum , e os comitês editoriais parecem ter relaxa- do nos critérios de seleção de artigos, resultando em publicações com dados e conclusões precipitadas. Mas o estrago de uma publicação com viés cien- tífico já foi feito, pois, com a atual velocidade na di- vulgação das informações, esses estudos influencia- ram de forma equivocada desde ações de prevenção e atuação contra o coronavírus até indicações de medi- camentos considerados ineficazes pela comunidade científica e médica, mas que estão sendo oferecidos como uma panaceia. Indiscutivelmente, a vacinação será a melhor e mais segura resposta ao coronavírus, mas, até que toda a população mundial esteja prote- gida, irá demorar ainda. Fazer boa ciência aplicável no mundo real não é tarefa fácil e rápida, exigindo muito investimento fi- nanceiro e outros recursos. Talvez aprendamos que não é adequado reduzir as exigências e critérios para a realização de pesquisa e publicação de seus resul- tados: a ciência deve ser respeitada em sua plenitu- de. Há possibilidade de novas pandemias surgirem, e então fica a pergunta: estaremos melhor prepara- dos? Seria importante discutirmos um plano de con- tingência emergencial com ações efetivas e coorde- nadas entre as várias instituições de pesquisa, em vez de ficarmos disputando quem sairia na frente ou apontarmos os culpados? Com certeza, essa pande- mia trouxe questionamentos importantes em relação ao rumo da atual pesquisa científica. A comunidade científica deverá discutir, o mais breve possível, se o atual modelo de pesquisa e publicação estará ade- quado aos novos desafios. A importância da ciência Dr. Denys Fujimoto Membro da ABHH e hemoterapeuta do Hemocentro da Unifesp e da Santa Casa de São Paulo Leia o artigo na íntegra no site da ABHH.

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