ABHH em Revista #15/2025

Lancet sobre o modelo de potencial de trombose, que na verdade era uma apresentação que fiz em um congresso da International Society on Thrombosis and Haemostasis, sem a intenção de ser publicada. Depois de alguns meses, recebi um manuscrito como revisor, claramente plagiado da minha apresentação. Então, decidi escrevê-lo e ele se tornou um dos meus artigos mais citados. Por fim, destaco o método para determinar a intensidade ideal de anticoagulação a partir de dados clínicos de anticoagulação. Este método não só recebeu o meu nome posteriormente como também alterou as diretrizes sobre os níveis-alvo de anticoagulação, tendo, portanto, um impacto clínico mensurável. O senhor tem uma produção científica impressionante, com mais de 1.200 artigos. Quais princípios norteiam sua abordagem de trabalho e publicação? Na minha própria pesquisa, mas também como editor- -chefe do Journal of Thrombosis and Haemostasis, eu queria fazer ou publicar pesquisas que aprofundassem nossa compreensão da coagulação ou que pudessem impactar o atendimento ao paciente. As duas coisas nem sempre estão presentes ao mesmo tempo, mas isso não importa muito: uma, com o tempo, levará à outra. Além disso, sempre procurei trabalhar em equipe, tanto dentro do nosso próprio centro quanto em estudos colaborativos em que um princípio norteador importante é trabalhar em equipe apenas com pessoas de quem gostamos. Isso nem sempre é possível, mas tive o privilégio de trabalhar com muitos colegas que são bons no que fazem e são pessoas simpáticas. E aí fica fácil. Na sua avaliação, quais são os principais desafios globais na área de trombose e hemostasia do ponto de vista científico de saúde pública? Ainda existem muitos. Na hemofilia, o maior desafio é a divisão desigual de recursos em todo o mundo para que pacientes em países ricos tenham melhor acesso ao tratamento ideal do que aqueles em países menos favorecidos. Na trombose, muitas questões ainda precisam ser resolvidas, que se resumem à seguinte pergunta: quando alguém desenvolverá trombose e será que podemos preveni-la sem complicações? Fizemos um enorme progresso na identificação de variantes genéticas preditivas de trombose, mas sua relevância clínica ainda é limitada. O tratamento anticoagulante não é isento de riscos, portanto, o maior desafio é conseguir limitar seu uso àqueles que precisam. Além disso, nossa compreensão das ligações entre inflamação e trombose, metabolismo lipídico e coagulação está apenas começando. Aos 66 anos, o senhor continua ensinando, coordenando estudos e contribuindo para a ciência. O que o mantém motivado a seguir nesse ritmo? Para ser sincero, o ritmo está um pouco menor do que antes ou pelo menos mudei um pouco o foco, me aposentando como chefe do departamento no ano passado após 25 anos nesse cargo. Isso significa que preciso dedicar menos tempo à administração e mais à pesquisa e ao ensino. Ambas continuam sendo ótimas atividades: a pesquisa nunca se torna entediante porque sempre se olha para novas questões, muitas vezes junto com novas pessoas, ou seja, bolsistas de doutorado. Sempre adorei ensinar porque é uma ótima sensação educar jovens sobre como fazer pesquisa e, principalmente, vê-los se entusiasmarem. Qual conselho você daria a estes jovens pesquisadores? O principal conselho é encontrar um bom mentor, alguém que o ensine e oriente. A pressão da produção é uma falha em nosso sistema, que é mantido vivo por universidades e agências de fomento. Há esforços para mudar isso. A ciência se constrói com base na confiança que a sociedade nos dá e, se a perdermos, acabaremos em um mundo onde o populismo e as notícias falsas se tornarão ainda maiores do que já são. A integridade da pesquisa é fundamental para manter essa confiança. Muitas vezes, a pesquisa é vista como um jogo esportivo onde há vencedores e perdedores, mas deveria ser vista como uma apresentação de uma orquestra sinfônica onde todos os instrumentos, juntos, produzem uma música maravilhosa. Muitas vezes, a pesquisa é vista como um jogo esportivo onde há vencedores e perdedores, mas deveria ser vista como uma apresentação de uma orquestra sinfônica em que todos os instrumentos, juntos, produzem uma música maravilhosa ABHH em Revista 15 / 2025 10

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