ABHH em Revista #04/2021
A B H H e m R e v i s t a 04 / 2021 20 a r t i g o SOMOS POUCOS HEMATOLOGISTAS NO BRASIL. Mal distribuídos geograficamente e, associada às vá- rias subáreas da Hematologia e da Hemoterapia nas quais nos dividimos, existe atualmente uma escassa oferta assistencial da nossa especialidade. Esse fato corrobora outra realidade: estamos acostumados com nossos consultórios sempre lotados, tanto na área pú- blica, quanto na saúde suplementar, invariavelmente em todas as regiões do país. Em março de 2020, me deparei com vários ho- rários vagos em consequência do decreto de isola- mento social causado pela pandemia de Covid-19. Foi uma situação nunca antes vivida na minha tra- jetória profissional. Não que eu estivesse proibido de atender, mas era evidente o medo dos pacientes em sair de casa e ir ao consultório. A diminuição da re- ceita não foi o maior motivo da minha preocupação, mas, sim, o impacto que essa situação poderia cau- sar tanto no andamento do tratamento dos pacien- tes, quanto na demanda reprimida de casos novos, com os necessários diagnósticos e estabelecimento de estratégias para o estadiamento, classificação e abordagem terapêutica. E a receita de Imatinibe para o convênio liberar a continuidade da medicação? E a guia justificando a mudança de dose da Hydroxiureia para a tromboci- temia essencial? E a solicitação de sangria terapêuti- ca para controlar a viscosidade na Policitemia Vera? As preocupações foram mais além: e as transfusões regulares para os pacientes com mielodisplasia de- pendentes de transfusão? Meu Deus, onde estão os doadores para suprir as demandas transfusionais? Sumiram! Sumiram também as vagas nos hospitais para o tratamento das neutropenias febris. Não tardou a aparecer situações de adaptação. Telemedicina nas suas mais variadas formas (como WhatsApp, Telegram, Zoom, Meeting e demais pla- taformas) surpreenderam muitos convênios despre- parados a utilizar essa alternativa. Passei a distribuir meu telefone para que os pacientes não se vissem perdidos em dúvidas ou situações de buscar solu- ções que mantivessem o tratamento adequadamente. Muitos pacientes tiveram solução de prosseguimento nos tratamentos. Ações surgiram: campanhas de doação de sangue em campos de futebol, atendimento domiciliar, pro- postas de alterações em triagem de doadores e o uso do plasma convalescente, só para citar algumas. Aos poucos, com a consciência por parte dos pacientes em avaliar que os riscos reais da descontinuidade do tratamento superavam os riscos potenciais da conta- minação, foram gradativamente sendo preenchidos meus horários no consultório. Chegaram à solicitação dos costumeiros encaixes em torno de julho a agosto de 2020, aumentando o contumaz congestionamen- to no fim daquele ano com adição de outro perfil de pacientes: os que estavam confusos com as manifes- tações da mídia em referência aos riscos da Covid-19. Tipo sanguíneo, risco de trombose, imunossupres- são, plaquetopenia etc. Percebi um verdadeiro pânico coletivo manifestado em cada ansiedade individual e específica. Foi uma fase mais tumultuada no sen- tido do volume de atendimentos, mas mais tranquila pela oportunidade de manter os tratamentos e poder dirimir dúvidas ou demolir conceitos equivocados e preocupações desnecessárias. Até que veio 2021 e a vacinação, juntando outra demanda não reprimível do afluxo de pacientes antigos e novos, muitos deses- perados pelos possíveis efeitos colaterais das vacinas, como tromboses e plaquetopenias. Utilizei frequentemente o argumento da possi- bilidade e da probabilidade, convencendo a gran- de maioria que a vacina tinha sim possibilidade de complicações, mas a probabilidade dessas mesmas A pandemia para um hematologista 04 / 2021 A B H H e m R e v i s t a
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