Como é a sua rotina fora da ABHH? Tenho um volume muito grande de trabalho. Por exemplo, continuo sendo professor de hematologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde coordeno toda a linha de pesquisa de mieloma múltiplo. Tenho 14 alunos de mestrado, doutorado e pós-doutorado. Fora isso, ainda dou aula para a graduação. Neste momento, estou dando aula de semiologia para uma turma de nove alunos do terceiro período. A cada semestre intervalado, eu faço isso. No fundo, eu sempre quis ser professor da UFRJ. Em relação à vida familiar, estou em uma boa situação. Minha esposa, Márcia, é médica e professora da UFRJ, então há uma compreensão. Meus filhos, Rafael e Carlos Eduardo, têm 14 e 17 anos e já têm mais independência. Eles entendem, mas às vezes falam “pai, tá extrapolando”. Aí eu explico a situação e tentamos encontrar o equilíbrio. Esses dias tinha um evento no mesmo período das férias escolares, mas julho é um mês de viajar com a família e não abro mão. Tento ter um equilíbrio entre trabalho e família, mas estou longe ainda de me aposentar. Meu pai costumava falar uma frase importante: “Não vai fechando as pontes e caminhos porque daqui a pouco não tem caminho nenhum para ir”. Carrego comigo esse mantra sempre. E quando você decidiu optar pela hematologia? A tomada de decisão foi por volta dos meus seis a sete anos de idade. Meu pai tinha no Rio de Janeiro um laboratório de patologia clínica, hoje de medicina laboratorial. E eu ia com ele para o laboratório. Desde pequeno, me acostumei com essa rotina, principalmente a lidar com o hemograma. Fazia contagem dos leucócitos numa maquininha, meu pai ia vendo no microscópio e eu digitando. Às vezes, meu pai pedia para eu olhar no microscópio e ver que célula era. Eu falava, ah, isso é um neutrófilo, é um linfócito e por aí vai. É claro que eu cheguei a mudar de ideia várias vezes ao longo da vida. Cheguei a pensar em fazer carreira diplomática porque tenho uma característica muito conciliadora. Acredito na mediação e na força das palavras para a resolução de conflitos. Sempre trouxe isso para os debates dentro da ABHH. Mas aí, na hora de decidir o que fazer, me lembro de escolher qualquer área que envolvesse laboratório e cogitei fazer infectologia ou hematologia porque unem as duas coisas. Aí decidi fazer hematologia, um desejo que estava meio plantado desde a minha infância. Além dessa influência paterna, quais foram os seus mentores na carreira médica? Sem dúvida alguma foi o Prof. Halley Pacheco de Oliveira. Ele foi um hematologista brilhante com capacidade de orientar como ninguém, além de ser uma pessoa muito culta. Depois, durante meu fellow em Hematologia e Transplante de Medula Óssea no Hospital San Martino em Genova, na Itália, que foi de 1986 a 1988, tive a oportunidade de trabalhar com grandes referências no mundo em transplante de medula óssea e hematologia como os professores italianos Alberto Marmont e Andrea Bacigalupo. Foram centrais nesse caminho de direcionamento da minha carreira de hematologista. Hoje o senhor é uma das autoridades no mundo em mieloma múltiplo. Quando surgiu o interesse nesta área? O interesse se deu exatamente por conta da minha atuação com transplante. Quando montamos a área de transplante lá no Hospital do Fundão, na UFRJ, priorizamos o transplante autólogo. Isso causou uma certa incompreensão dos outros. Eu enfrentei até um certo preconceito. Falavam que o transplante autólogo não era bem um transplante, uma vez que o doador era próprio paciente. Questionei naquela época. No final, acabou sendo uma decisão acertada e consolidamos o transplante autólogo no Rio de Janeiro e em nosso meio. O transplante autólogo se tornou o transplante indicado para o tratamento do mieloma. E aí veio a minha derivação para o campo do mieloma. Exatamente pelo fato de ter me tornado um expert no autólogo, quando o mieloma começou a ter essa indicação de tratamento, fizemos o primeiro transplante para um paciente com mieloma na UFRJ em 1997. Fomos um dos pioneiros! Assim, foi um caminho natural ir me dedicar, nas últimas décadas, aos estudos e pesquisas nesta área da onco-hematologia. Hoje tenho orgulho de fazer parte do Grupo Brasileiro de Mieloma Múltiplo, fundado e presidido pela minha grande amiga Profa. Vânia Hungria, reconhecida liderança internacional na área. Teremos esse ano um grande desafio ao sediar no Brasil e pela primeira vez na América Latina o Congresso Anual da International Myeloma Society. Certeza que vai ser um sucesso! Quer deixar uma mensagem final? Em primeiro lugar, não posso deixar de citar o Dr. José Francisco Comenalli Marques Júnior. Fui vice-presidente na sua gestão (2022-2023), muito voltada para a área social. Gostaria também de manifestar o meu reconhecimento ao Prof. Carmino Antônio de Souza, que me levou para a Diretoria da ABHH e a quem devo grandes ensinamentos. Assim, considero que nossa gestão é tornar a ação social prioritária e exemplo para as outras sociedades médicas, que entendam que nossa atuação é científica, mas tem um profundo impacto social no sentido amplo da palavra. Acredito que, no fim desse mandato, teremos uma gestão de sucesso em conjunto com a Diretoria e nosso Conselho Deliberativo. Todos que fazem parte são reconhecidos como lideranças no campo da hematologia, hemoterapia e terapia celular e, certamente, irão contribuir muito para o progresso da nossa especialidade e da ABHH. ABHH em Revista 09 / 2023 8
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