Speck veio ficar conosco e iniciar nosso programa. O programa de transplante em Gênova se tornou o maior da Itália e um dos primeiros na Europa em termos de números. O professor Marmont era o chefe do programa e se tornou o presidente da European Bone Marrow Transplantation (EBMT) no início dos anos 1980. Ele continuou a inspirar nosso programa até se aposentar aos 70 anos, em 1989, e então eu me tornei chefe da Unidade, e o professor Marmont ficou no escritório em frente ao meu pelos próximos 25 anos, sim, 25, sempre contribuindo com profundos insights, ideias e escolhas terapêuticas para o nosso programa. Devo tudo da minha carreira profissional a ele. Um dia, quando ele tinha 92 anos, e depois de uma ótima palestra, o Reitor da universidade perguntou: mas qual é o seu elixir de longa vida, professor? E ele disse: “Meu elixir de longa vida? Café da manhã com Andrea discutindo os pacientes e a pesquisa”. Na sua opinião, quais são as transformações mais significativas que a Hematologia sofreu desde a década de 1970 até o presente? No início dos anos 1970, não tínhamos tratamento eficaz para a maioria dos distúrbios. Todos os pacientes adultos com leucemia morriam, o mesmo para leucemia mieloide crônica. Não tínhamos tratamento eficaz para mieloma, linfoma ou leucemia linfocítica crônica. Era viver em um universo diferente. Nos anos 2020, temos anticorpos monoclonais, anticorpos biespecíficos, terapia direcionada, transplantes de células-tronco, terapia celular projetada. É uma oportunidade diferente e emocionante para nossos pacientes e para o jovem hematologista. De quais realizações pessoais você mais se orgulha? Reduzir a incidência da doença de enxerto contra hospedeiro (DECH) e tratar essa complicação tem sido o foco da minha pesquisa desde meus primeiros dias no transplante. Concluímos e publicamos vários ensaios clínicos, tanto para tratamento quanto para profilaxia. Talvez o primeiro estudo mostrando, em um estudo prospectivo, que a adição de globulina antitimocitária reduz a DECH aguda, mas principalmente a crônica. Um dos nossos últimos estudos prospectivos (2017) mostrou que não há benefício no tratamento com esteroides de DECH aguda de grau I, e os pacientes devem ser deixados sem tratamento. Você veio ao Brasil inúmeras vezes para participar de eventos científicos. Qual é a sua lembrança mais marcante? Minhas viagens ao Brasil foram todas emocionantes e cheias de amizade. Conheci os hematologistas Angelo Maiolino e Carmino de Souza quando eles ficaram em Gênova, em nossa unidade em San Martino. Continuamos a nos ver na Itália e no Brasil. A Associação Ítalo-Brasileira de Hematologia foi fundamental para organizar grandes reuniões e manter nossa cooperação ativa nas últimas três décadas! Com Carmino e seus filhos também fizemos uma viagem fantástica ao Pantanal! O Brasil é um país lindo! Sua palestra no HEMO 2024 será sobre o empolgante campo da terapia celular. Por que você escolheu esse tópico? Os tópicos são aqueles que refletem as atuais áreas de pesquisa no campo do transplante e terapia celular. Isso inclui transplante alogênico e autólogo e terapia com células CAR-T. Pediram-me para dar a perspectiva do Gruppo Italiano Trapianto Midollo Osseo sobre esses dois tópicos importantes. Além disso, falarei sobre anemia aplástica adquirida, uma doença rara, que nos permitiu entender as interações entre células-tronco hematopoiéticas e o sistema imunológico, com novas opções terapêuticas. Você publicou mais de 500 artigos. Qual é o segredo para uma produção científica tão vasta? Eu usaria as palavras de um grande cientista australiano, Don Metcalf [nota do editor: o Professor Metcalf é considerado o pai da hematologia moderna], que descobriu os fatores estimulantes de colônias (CSFs), os hormônios que impulsionam os glóbulos brancos que combatem infecções no corpo. Ele disse que o segredo é baseado em três regras: 10 horas por dia no microscópio (você pode dizer a unidade clínica, se for um clínico); a devoção aos dados primários (resista a especulações, pois elas são castelos de cartas); e a motivação ao longo da vida (mal posso esperar para começar a trabalhar e abrir a incubadora). Então os jovens precisam saber: muito trabalho duro, nunca pense que você está acima dos seus dados e aproveite a motivação ao longo da vida. Você precisa amar isso — a paixão é o segredo! ABHH em Revista 13 / 2024 10 Andrea (em pé de chapéu preto) durante viagem ao Pantanal realizada com amigos no Brasil
RkJQdWJsaXNoZXIy MTg4NjE0Nw==