O ano de 2024 não será a primeira vez do hematologista, professor e pesquisador italiano Andrea Bacigalupo no Brasil. Uma das referências globais em transplante de medula óssea (TMO) e em CAR-T, Bacigalupo volta como palestrante da Conferência Magna do HEMO 2024, cujo tema será o “Transplante de Medula e Terapia Celular — da substituição da hematopoiese à imunoterapia”. Diretor por 25 anos do Centro de Hematologia e Transplantes de Células-Tronco do Hospital San Martino, em Gênova, e ex-presidente da European Bone Marrow Transplantation (EBMT), atualmente Bacigalupo é professor de Hematologia da Università Cattolica del Sacro Cuore, em Roma. O professor Bacigalupo, como é chamado por todos, começou a atuar com TMO a convite do médico e pesquisador italiano Alberto Marmont, seu grande mentor. Marmont, falecido em 2014, foi um dos primeiros a compreender, no começo dos anos 1970, que o transplante de medula óssea alogênico seria uma oportunidade fantástica para muitos pacientes. “Devo tudo da minha carreira profissional a ele”. Um dia, quando ele tinha 92 anos e depois de uma ótima palestra, o Reitor da Universidade perguntou: mas qual é o seu elixir de longa vida, professor Marmont? E ele disse: “Meu elixir de longa vida? Café da manhã com Andrea discutindo pacientes e pesquisa”, conta Bacigalupo, de 75 anos. No bate-papo a seguir, ele conta quando optou pela hematologia, fala da influência de Marmont em sua formação e dá algumas dicas para jovens pesquisadores. Você se formou em 1973. O que o levou a se interessar pela hematologia? Eu tinha voltado para a biologia celular no meu sexto ano de medicina porque estava mais interessado em células do que em cirurgia. Minha tese foi sobre o isolamento e caracterização de membranas celulares de células B e T no frango. Me formei em julho de 1973. A tese foi um grande sucesso, e meu professor, o imunologista Carlo Grossi, me disse: quero que você conheça um hematologista, Alberto Marmont. A razão, ele disse, é que a hematologia combina o seu interesse em biologia celular com a clínica e pacientes. Marmont era um hematologista brilhante, a quem tinha sido negada a cadeira de hematologia na universidade no início dos anos 1960. Ele então aceitou o cargo de chefe de hematologia no Hospital de Sampierdarena, nos arredores de Gênova, e estava indo muito bem com muitos pacientes e novos tratamentos. Então fui encontrá-lo, numa segunda-feira de manhã, no início de outubro: conheci um médico alto, bonito e sorridente, o professor Marmont, como eu o chamaria pelas próximas décadas. Fui com ele para as rondas, testemunhei a variedade de pacientes, de leucemia à insuficiência da medula óssea e às doenças autoimunes, mas, acima de tudo, tive acesso a seu conhecimento médico e comentários profundos. Ao meio-dia daquela segunda, eu não tinha dúvidas: eu queria me tornar um hematologista. Foi a partir desse contato que você começou sua trajetória em TMO? Sim! Após conhecê-lo naquela manhã de segunda-feira, fui bolsista em sua unidade até junho de 1974, quando ele se tornou chefe de hematologia no Hospital San Martino, o maior de Gênova. Então eu fui junto e, claro, fiquei de plantão na primeira noite na nova unidade (os jovens estão sempre de plantão). Construímos um bom programa, uma Unidade de Cuidados Diurnos, e tínhamos muitos pacientes com leucemia, linfoma e mieloma. Mas, um dia, em 1975, o professor Marmont me chamou em seu escritório e disse: amanhã de manhã você vai para a Basileia. E eu disse: para fazer o quê, professor? E ele: “um amigo meu, o professor Bruno Speck, está realizando um transplante de medula óssea (TMO) e eu quero que você vá e veja do que se trata. Acho que o TMO se tornará uma forma importante de terapia para muitos distúrbios hematológicos nos próximos anos”. Fui para a Basileia e fiquei animado para testemunhar um dos primeiros TMO na Europa (naqueles anos, realizávamos de 10 a 20 TMO por ano na Europa!). Também tive a sorte de conhecer o professor Speck e sua equipe, e minha enfermeira chefe teve a oportunidade de conhecer seus colegas no Kantonsspital Basel (nota do editor: hoje chamado Universitätsspital Basel). Alguma lembrança marcante desses anos de convivência com Marmont? Em 1976, fizemos nosso primeiro transplante de medula óssea em Gênova no Hospital San Martino, e o professor 13 / 2024 ABHH em Revista 9 Prof. Andrea recebendo o título de Membro Honorário do Grupo Europeu de Transplante de Sangue e Medula Óssea (EBMT na sigla em inglês), que presidiu de 1998 a 2002 Fotos: Acervo pessoal
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