Em entrevistas, o senhor tem enfatizado a necessidade de uma definição formal do termo cura no mieloma. Qual a importância desse debate? Tenho grande entusiasmo em definir o que é cura no mieloma e em enfatizar que alguns pacientes são curados da doença. Para os pacientes, isso traz a esperança de que eles podem ser curados. Dizer que ela é tratável, mas não curável ou que é uma doença crônica que pode ser controlada com terapia contínua não é a mesma coisa. Isso muda a abordagem dos médicos no manejo de seus pacientes, tornando-os mais atentos aos avanços recentes, mais entusiasmados e mais favoráveis a ensaios clínicos com intenção curativa. Podemos alcançar hoje respostas notavelmente profundas e duradouras e testes sensíveis de doença residual mínima nos permitem identificar pacientes nos quais já não conseguimos detectar doença mensurável. Nossas terapias se tornaram suficientemente poderosas a ponto de a questão sobre se podemos realmente curar alguns pacientes não ser mais teórica. O senhor ajudou a construir um dos principais programas de mieloma múltiplo dos Estados Unidos. O que não pode faltar em uma boa equipe? A primeira coisa é que não se pode construir um grande programa em torno de uma única pessoa. Ele é construído em torno de pessoas excepcionais com diferentes pontos fortes e que entendem que o sucesso é uma conquista coletiva. Sempre procurei reunir excelentes clínicos, médicos-cientistas e especialistas em áreas como terapia celular e genômica e, então, dar a eles a oportunidade de desenvolver seus pontos fortes. A confiança é igualmente essencial. As pessoas precisam se sentir confortáveis para fazer perguntas, discordar e propor ideias que talvez não funcionem porque a inovação exige liberdade para assumir riscos. Também é preciso ter uma missão compartilhada, que, para nós, sempre foi melhorar a vida dos pacientes com mieloma por meio de excelência no cuidado clínico, pesquisa e educação. Por fim, os líderes precisam criar oportunidades para que outras pessoas tenham sucesso. Meu papel não é ter todas as respostas, mas identificar pessoas talentosas, fornecer os recursos de que precisam, remover obstáculos e ajudá-las a crescer. Quando se faz isso, o programa se torna maior que qualquer indivíduo e é nesse momento que se constrói um verdadeiro centro de excelência. Depois de décadas dedicadas ao mieloma, o que ainda faz o senhor entrar no laboratório ou em uma discussão científica sobre a doença? O que continua a me inspirar é perceber que ainda não temos todas as respostas. Depois de mais de quatro décadas, vi um progresso extraordinário, mas cada resposta parece gerar outra pergunta: por que um paciente responde tão bem enquanto outro não, como podemos tornar as novas terapias mais eficazes e duradouras e o que devemos fazer com as informações que obtemos por meio de medidas cada vez mais sensíveis da doença residual? Mais importante, os pacientes nos lembram de que esse não é um problema científico abstrato. Por trás de cada ensaio clínico e experimento de laboratório há uma pessoa que quer viver, passar tempo com a família, voltar ao trabalho ou simplesmente ter mais tempo. Também me inspira a geração mais jovem de médicos e cientistas cujas ideias estão desafiando pressupostos e abrindo novas possibilidades. Transformamos o mieloma, mas ainda não o vencemos. É isso que me faz continuar voltando. Ainda há trabalho a fazer, pacientes que precisam de tratamentos melhores e descobertas esperando para serem feitas. Quando olha para os próximos dez anos, que pergunta sobre o mieloma o senhor mais gostaria de ver respondida? A pergunta que eu mais gostaria que conseguíssemos responder é simples: como eu curo cada paciente com mieloma múltiplo que atendo? Estamos aprendendo que o mieloma múltiplo não é uma única doença, mas um conjunto de subtipos biologicamente distintos com diferentes níveis de risco e padrões de resposta. Gostaria que chegássemos a um ponto em que pudéssemos identificar essas diferenças no diagnóstico e usá-las para orientar um tratamento verdadeiramente individualizado. Também precisamos entender o que permanece quando um paciente alcança uma resposta profunda, onde estão escondidas as células responsáveis pela recaída, por que a doença residual persiste em alguns pacientes e como podemos eliminá-la sem tratamento e toxicidade desnecessários. Espero que a próxima década nos traga um cuidado verdadeiramente personalizado, identificando quem precisa de mais tratamento, quem pode receber menos com segurança, quando a terapia pode ser interrompida e, em última análise, quem pode ser curado.
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