ABHH em Revista - Ed. 16/2026

Pesquisa “Perfil do Hematologista e Hemoterapeuta no Brasil”, da ABHH, revela diferenças regionais no acesso ao diagnóstico e ao tratamento, na infraestrutura dos serviços e nas oportunidades de pesquisa em hematologia, hemoterapia e terapia celular UM RETRATO DA NO BRASIL ESPECIALIDADE “Renovar os comitês é abrir espaço para novas pessoas e visões”, afirma o presidente da ABHH, Dr. Eduardo Rego página 8 ABRE ASPAS À frente da Conferência Magna, o Dr. Sundar Jagannath comenta sobre os avanços no tratamento do mieloma múltiplo página 19 HEMO 2026 Grupos regionais de hematologistas e hemoterapeutas promovem atualização científica e troca de experiências pelo Brasil página 34 CONEXÕES #16 / 2026

sumário carta ao leitor p.6 | diretoria p.7 abre aspas p.8 cobertura p.22 Entrevista com o presidente da ABHH, Dr. Eduardo Magalhães Rego Repercussão dos eventos realizados entre março e agosto giro ABHH p.42 perfil p.38 Dr. Roberto Passetto Falcão recebe homenagens e dá nome a prêmio da ABHH Paulo Pacheco e uma trajetória de mais de cinco décadas na hemoterapia HEMO 2026 p.19 Entrevista com Dr. Sundar Jagannath, palestrante da Conferência Magna do HEMO 2026 especial p.28 ciência p.32 conexões p.34 ABHH Mulheres avança com pesquisa e novas ações pela equidade Novos consensos ampliam orientações disponibilizadas pela associação Conheça grupos que conectam a hematologia em diferentes regiões abhh em ação p.12 Pesquisa revela diferenças regionais na hematologia 16 / 2026 ABHH em Revista 3

carta ao leitor 6 Depois de sete anos da última edição no Rio de Janeiro, o Congresso Brasileiro de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (HEMO) está de volta à Cidade Maravilhosa. Esta é a quarta vez que nosso congresso é realizado na capital fluminense, depois das edições de 2011, 2012 e 2019. E, assim como na última passagem, o Riocentro volta a ser o ponto de encontro da nossa comunidade. Relembrar o HEMO 2019 é também uma maneira de perceber o quanto a especialidade avançou. Naquela edição, o CAR-T Cell estava entre as grandes novidades discutidas no congresso em um momento em que começavam a ser divulgados no país os primeiros resultados relacionados a essa tecnologia. De lá para cá, a terapia celular ganhou espaço na hematologia brasileira e a ABHH acompanhou de perto essa evolução, ampliando as discussões científicas, assistenciais e de acesso em torno do tema. Uma coincidência conecta essas duas edições no Riocentro. Em 2019, a Conferência Magna foi conduzida pelo espanhol Jesús San Miguel, referência internacional em mieloma múltiplo. Agora, sete anos depois, outro dos grandes nomes mundiais da área ocupa o mesmo espaço: o norte-americano Sundar Jagannath, responsável pela Conferência Magna do HEMO 2026. Aquele congresso marcou ainda a realização da primeira sessão conjunta entre a ABHH e a European Hematology Association (EHA), iniciativa que se consolidou na programação do HEMO e se repete nesta edição. Outro passo importante em 2019 foi a realização do primeiro Encontro das Ligas Acadêmicas de Hematologia e Hemoterapia, evento que segue presente no HEMO. O encontro abriu espaço para aproximar estudantes interessados na especialidade e reforçou uma dimensão que permanece essencial para a ABHH, que é contribuir para a formação e estimular novas gerações de profissionais. Olhar para esses marcos ajuda a perceber como temas, parcerias e iniciativas que começavam a ganhar espaço naquele HEMO 2019 amadureceram. Agora, novamente no Riocentro, temos a oportunidade de acompanhar os caminhos que estão redesenhando a hematologia, a hemoterapia e a terapia celular no mundo e de discutir os desafios que acompanham essas transformações! Sejam todos muito bem-vindos ao HEMO 2026! De volta ao Rio de Janeiro Dr. Angelo Maiolino Presidente do HEMO 2026 ISSN 2179-4855 ABHH em Revista é uma publicação da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) distribuída gratuitamente para seus associados. O conteúdo da publicação é de inteira responsabilidade de seus autores e não representa necessariamente a opinião da ABHH. JORNALISTA RESPONSÁVEL Roberto Souza (Mtb 11.408) EDITOR Madson de Moraes REPORTAGEM Danilo Gonçalves Roberto Souza Talita Ribeiro Verônica Monteiro REVISÃO Joice Costa PROJETO EDITORIAL Madson de Moraes PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Leonardo Fial FOTO DE CAPA Getty Images CONTATO COMERCIAL Caroline Frigene IMPRESSÃO STGRAF RS HEALTH Rua Cayowaá, 228 – Perdizes São Paulo – SP – 05018-000 (11) 3875-6296 rspress@rspress.com.br www.agenciars.co ABHH Rua Dr. Diogo de Faria, 775, conj. 133 Vila Clementino São Paulo - SP (11) 2369-7767 / (11) 2338-6764 abhh@abhh.org.br www.abhh.org.br @abhhoficial ABHH em Revista 16 / 2026

DIRETORIA ABHH 2026-2027 Conheça os especialistas que integram a direção da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular Carmino Antonio de Souza Celso Arrais Rodrigues da Silva Angelo Maiolino Jorge Vaz Pinto Neto Carlos Sérgio Chiattone Dante Mário Langhi Júnior Silvia Maria Meira Magalhães Vania Hungria Edvan de Queiroz Crusoé Eduardo Magalhães Rego Roberto Passetto Falcão José Orlando Bordin Renato Sampaio Tavares José Francisco Comenalli Marques Júnior Violete Petitto Laforga Rodrigo Calado Leny Nascimento da Motta Passos Glaciano Nogueira Ribeiro Diretoria Administrativa e Financeira Diretoria de Ações Sociais, Acesso e Equidade Diretoria de Relações Institucionais Diretoria de Comunicação Diretoria Científica Diretoria de Educação Diretoria de Defesa Profissional Diretor Científico Emérito Diretor de Orientação e Aconselhamento Presidente Vice-presidente 16 / 2026 ABHH em Revista 7

“Renovar os comitês da ABHH é abrir espaço para novas pessoas e visões” ABHH em Revista 16 / 2026 8 abre aspas Fotos: Divulgação

A hematologia entrou cedo no caminho do Dr. Eduardo Magalhães Rego. Ainda na graduação, em Ribeirão Preto (SP), as aulas de dois professores e figuras de destaque nas especialidades ajudaram a apontar o rumo: Roberto Passetto Falcão e Marco Antonio Zago. Ao encontro com grandes mestres somou-se o fascínio pela ciência por trás das doenças hematológicas. “A biologia molecular é filha da hematologia”, diz o Dr. Rego ao lembrar o que o encantou na especialidade. Vieram a pesquisa, a clínica e uma carreira construída justamente no encontro entre esses dois mundos. Décadas depois, os lugares se inverteram. O aluno marcado por seus professores tornou-se professor titular de Hematologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, pesquisador e orientador. Hoje é o Dr. Rego quem acompanha os primeiros passos de novas gerações de médicos e cientistas e encontra nessa troca uma das grandes satisfações da carreira. Entre a ciência, formação e assistência, coordena o Serviço de Leucemias Agudas do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e a Hematologia da Rede D’Or na América Latina. Sua história com a ABHH vem de longe. Presente na associação desde sua fundação, ocupou diferentes cargos na diretoria e foi editor do Hematology, Transfusion and Cell Therapy Journal (HTCT), revista científica da entidade. Em 2025, foi eleito presidente para o biênio 2026–2027. À frente da ABHH, tem entre suas prioridades ampliar o espaço para profissionais mais jovens e a representatividade regional e de gênero nos comitês da ABHH. Na entrevista a seguir, o hematologista aponta como uma das bandeiras de sua gestão a renovação e a maior representatividade nos comitês técnicos-científicos da entidade e aborda temas que vão do desafio de atrair mais hematologistas para a hemoterapia ao letramento científico da população. Confira! O que levou o senhor a escolher a hematologia no início da carreira? Minha história com a especialidade começou já no início do curso de graduação em medicina. A disciplina de hematologia era muito bem organizada com excelentes professores e muito bem avaliada na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Em particular, tive dois professores que tiveram muito impacto na minha escolha. Um foi o professor Roberto Passetto Falcão, que depois se tornou também meu orientador de doutorado e meu mentor, uma pessoa que teve um impacto muito importante na minha formação. O outro foi o professor Marco Antônio Zago. A dupla era incrível. As aulas que eles davam realmente se destacavam pela didática. Seu interesse pela pesquisa também teve peso nessa escolha? Sim! Sempre me interessei por pesquisa e a fisiopatologia das doenças hematológicas sempre me interessou muito. É importante lembrar que todo o avanço dos conhecimentos em genética e imunologia passou pela hematologia. A biologia molecular é filha da hematologia. Se pensarmos que o primeiro gene e a primeira molécula mais bem caracterizada foram relacionados à hemoglobina, isso nos levou a entender as doenças, de fato, em nível molecular. Então, esse conceito de medicina molecular, de biologia molecular, nasce do estudo das doenças hematológicas. Isso foi muito fascinante para mim. E o que, do ponto de vista clínico, reforçou essa escolha? Na clínica, já em uma fase mais avançada da minha formação, encontrei doentes muito complexos. Particularmente na onco-hematologia, são pacientes graves, com vários aspectos de fisiopatologia. São casos que, 16 / 2026 ABHH em Revista 9 Presidente da ABHH no biênio 2026-2027, o Dr. Eduardo Magalhães Rego destaca como bandeira de sua gestão a renovação e a maior representatividade nos comitês da entidade e aborda temas que vão do desafio de atrair mais hematologistas para a hemoterapia ao letramento científico da população Por Danilo Gonçalves e Madson de Moraes

do ponto de vista clínico, são muito desafiadores, e isso também me atraiu. Então, minha escolha pela hematologia foi uma combinação desses fatores. Tive mentores excepcionais, o aspecto científico é fascinante e, do ponto de vista clínico, são casos que demandam e envolvem muito a gente. Uma das grandes satisfações da sua carreira é ensinar e orientar jovens pesquisadores. O que percebe nessa nova geração? Com todo o avanço que testemunhamos na hematologia nos últimos 20 anos, a especialidade tem atraído muitos jovens talentos. Naturalmente, a exemplo do que ocorre na medicina de modo geral, nossos médicos recém-formados têm uma formação heterogênea e nem todos tiveram a oportunidade de ter uma formação tão boa. Mas, na hematologia, temos muita sorte. De modo geral, temos boas escolas de hematologia no país, que também são boas escolas de clínica. Isso ajuda bastante. Depois de ter grandes referências em sua formação, hoje também se vê como um mentor? Gosto de pensar que sim. Já tenho várias pessoas que mentorei e que hoje têm carreiras solo que considero muito bem-sucedidas. Só para citar alguns exemplos, lá em Ribeirão Preto, a professora Lorena Figueiredo Pontes foi minha orientanda. Aqui em São Paulo, mais recentemente, o professor Wellington Fernandes da Silva Júnior, que acabou de ser contratado como docente da USP, foi meu orientado. Tenho orientados não médicos que também estão construindo carreiras muito boas. Tenho o Antônio Roberto Lucena de Araújo, na Universidade Federal de Pernambuco, e também pessoas no exterior. O Diogo Pereira Martins foi meu orientando de doutorado e a companheira dele, Isabel Weinhäuser, também foi minha orientanda. Hoje estão construindo suas carreiras na Holanda e na Europa como pesquisadores independentes. A renovação dos comitês é uma das bandeiras da sua gestão. O que mudou? Os comitês têm uma importância muito grande na ABHH, sejam os institucionais, sejam aqueles ligados às subespecialidades, doenças e atividades. À medida que a comunidade cresceu, vimos também uma necessidade muito grande de renovação. Renovar os comitês da ABHH é abrir espaço para novas pessoas e novas visões. É uma bandeira que assumi na presidência. Estabelecemos, por exemplo, uma participação mínima de pessoas com menos de 40 anos, com pelo menos dois integrantes mais jovens em cada comitê, além de mandatos que favorecem essa renovação. Houve ainda uma preocupação em ampliar a representatividade de gênero e das diferentes regiões do país. Ainda não é perfeito porque é um processo, mas avançamos bastante nesse sentido. Neste ano, a ABHH incorporou a inteligência artificial à sua prova de título. O que muda com essa iniciativa? A incorporação da inteligência artificial permite uma análise mais atualizada da avaliação, considerando se as perguntas são suficientemente abrangentes e bem elaboradas e se todas as áreas da hematologia estão sendo contempladas. É um processo que requer o acompanhamento das lideranças das diferentes subespecialidades hematológicas, mas representa um avanço importante, que poderá servir de exemplo para outras especialidades médicas. Como a ABHH tem atuado para reduzir as desigualdades de acesso? Nos últimos anos, temos tido uma atuação muito importante nas questões de equidade. Isso passa pela equidade no acesso dos pacientes aos tratamentos que oferecem melhores resultados, especialmente no contexto do Sistema Único de Saúde. A ABHH tem participado e lutado para diminuir as iniquidades no tratamento do paciente hematológico. A distância que um paciente com uma doença hematológica precisa percorrer na Região Sudeste é muito diferente daquela enfrentada por um paciente da Região Norte. As dificuldades são muito maiores. Tudo isso está no radar e a ABHH tem buscado se estruturar e se reorganizar para liderar o máximo de movimentos que pode. ABHH em Revista 16 / 2026 10 Com todo o avanço que testemunhamos na hematologia nos últimos 20 anos, a especialidade tem atraído muitos jovens talentos

Quais são hoje os principais desafios para fortalecer a hemoterapia? A hemoterapia é uma área à qual precisamos dar atenção. Não podemos esquecer que os hemocentros têm uma história importante e que precisamos lutar para manter essa atividade e ampliar o número de hematologistas que atuam em hemoterapia. Infelizmente, muitos alunos de graduação praticamente não têm contato com a hemoterapia, que é parte da nossa especialidade. Temos que lembrar que o segundo “H” da ABHH é a hemoterapia. Há também uma iniquidade na distribuição desses profissionais e precisamos ter mais pessoas interessadas nessa área. Tudo o que é novidade naturalmente chama mais atenção e o profissional mais jovem pode acabar sendo influenciado por isso. A terapia celular, por exemplo, é algo fantástico e está diretamente associada à hemoterapia e ao transplante de medula óssea. Então, a hemoterapia continua sendo uma atividade muito importante. Nas redes sociais, o senhor também leva a hematologia para além do público especializado. Que papel médicos e sociedades médicas têm no letramento científico da população? Hoje as mídias sociais têm uma importância muito grande e acho que nós, não só a ABHH, mas também os colegas, temos um papel importante no esclarecimento da população. Há um espaço voltado para as conversas entre os especialistas e os profissionais mais jovens, mas temos que assumir também o papel de ampliar o letramento da população sobre as doenças hematológicas. Como minha área de atuação é fundamentalmente a hemato-oncologia, procuro orientar principalmente sobre sinais de alerta e quando procurar um médico ou especialista. Também precisamos chamar a atenção para exageros e modismos que podem ser prejudiciais à saúde e, por outro lado, incentivar hábitos e condutas que contribuam para uma vida mais saudável. A ABHH tem participado e lutado para diminuir as iniquidades no tratamento do paciente hematológico 16 / 2026 ABHH em Revista 11 Dr. Eduardo Rego durante sua participação no HEMO 2025

ABHH em Revista 16 / 2026 12 ABHH em ação Dados da pesquisa "Perfil do Hematologista e Hemoterapeuta no Brasil", apresentados pela ABHH no HEMO 2026, revelam diferenças regionais no acesso a diagnóstico e tratamento, na infraestrutura e nas oportunidades de pesquisa em hematologia e hemoterapia no Brasil Por Danilo Gonçalves e Madson de Moraes UM RETRATO DA ESPECIALIDADE Quem são, onde estão e em que condições trabalham os profissionais que fazem a hematologia e a hemoterapia no Brasil? Em uma especialidade que conhece cada vez mais profundamente os mecanismos das doenças e incorpora com rapidez novas tecnologias diagnósticas e terapêuticas, ainda faltava um retrato mais amplo de sua própria realidade. A pesquisa "Perfil do Hematologista e Hemoterapeuta no Brasil", conduzida pelo Comitê de Equidade da ABHH, começa a preencher essa lacuna. Realizada entre 2023 e 2025, a pesquisa reuniu 585 participantes de todas as regiões do Brasil, entre associados e não associados à ABHH, e investigou quatro eixos: assistência médica, ensino e treinamento, pesquisa e percepção dos profissionais sobre a ABHH. Entre os participantes, 66,6% possuem título de especialista obtido por residência médica ou sociedade de especialistas. A primeira coleta, em 2024, obteve 416 respostas. Para ampliar a representatividade regional, o levantamento foi reaberto em 2025, chegando à amostra atual. Os resultados permitem identificar padrões e ajudam a dimensionar desigualdades que atravessam tanto a distribuição dos profissionais pelo país quanto as condições disponíveis para assistência, formação e pesquisa. Uma delas está no acesso aos recursos necessários ao cuidado. No Nordeste, por exemplo, cerca de metade dos participantes relata falta de recursos para diagnóstico e tratamento em instituições públicas ou filantrópicas, além de episódios de desabastecimento. Situações semelhantes aparecem em outras partes do país, em diferentes proporções, mostrando como as condições de trabalho podem variar de acordo com o território.

16 / 2026 ABHH em Revista 13 A distribuição dos participantes também revela contrastes. Norte, Nordeste e Centro-Oeste apresentam forte concentração nas capitais, enquanto a presença no interior cresce no Sudeste e se torna majoritária entre os participantes do Sul. Esse desenho chama atenção para uma questão importante: a presença da hematologia e da hemoterapia fora dos grandes centros não se distribui da mesma forma pelo país. O perfil da assistência também muda de uma região para outra. A onco-hematologia é a principal área de interesse assistencial em diferentes partes do país e alcança 60% dos participantes no Sul e 50% no Centro-Oeste. A organização do trabalho também varia. No Norte, 71,4% dos participantes têm uma instituição pública como principal local de atuação, enquanto nas demais regiões há um maior equilíbrio na distribuição entre serviços públicos, privados e na atuação em mais de um tipo de instituição. No campo da pesquisa, um obstáculo aparece em todo o país: há profissionais interessados em desenvolver essa atividade que não contam com centros de pesquisa em suas próprias instituições. Ao mesmo tempo, a pesquisa clínica é a principal área de interesse nas cinco regiões, indicando uma demanda que nem sempre encontra estrutura para se desenvolver. A assistência, por sua vez, ocupa parcela importante da jornada profissional, com variações que ajudam a mostrar como o exercício da especialidade assume configurações distintas pelo país. Próximos passos Quando analisados em conjunto, os resultados mostram alguns padrões que atravessam as regiões: forte concentração dos participantes nas capitais, peso expressivo da assistência na jornada profissional, participação mais restrita de atividades de ensino e pesquisa e diferenças no acesso a recursos para diagnóstico, tratamento e infraestrutura. Também aparecem, em diferentes partes do país, dificuldades para desenvolver pesquisa, seja pela ausência de centros nas instituições, seja pela falta de incentivo à atividade. Dr. Renato Cunha, primeiro coordenador do Comitê de Equidade da ABHH Dra. Lorena Costa Corrêa, coordenadora do Comitê de Equidade da ABHH Uma parte de nossas inquietações foi respondida como, por exemplo, onde estamos e como trabalhamos. Por outro lado, estas respostas trazem muitas outras inquietações A hematologia e hemoterapia brasileiras não acontecem da mesma maneira em todos os territórios

ABHH em Revista 16 / 2026 14 “A hematologia e hemoterapia brasileiras não acontecem da mesma maneira em todos os territórios. As condições de assistência, as oportunidades de formação, o acesso à pesquisa, a disponibilidade de infraestrutura e a relação com os grandes centros assumem diferentes configurações de acordo com a região”, ressalta o Dr. Renato Cunha, primeiro coordenador do Comitê de Equidade da ABHH e um dos médicos envolvidos na concepção da pesquisa. Para a coordenadora do Comitê de Equidade da ABHH, Dra. Lorena Costa Corrêa, o levantamento responde a algumas das perguntas que deram origem à pesquisa, mas também traz novas questões. “Uma parte de nossas inquietações foi respondida como, por exemplo, onde estamos e como trabalhamos. Por outro lado, estas respostas trazem muitas outras inquietações”, analisa. Com base nesse diagnóstico, a proposta da ABHH é transformar os achados em prioridades. A intenção é aproximar o Comitê de Equidade dos demais comitês da Associação e, com base nas necessidades identificadas em cada região, orientar ações específicas. “A partir do conhecimento do cenário da hematologia e hemoterapia advindo deste levantamento, cada membro deste comitê poderá elencar atividades prioritárias por região e buscar melhorias em acesso, equidade e modo de trabalhar”, assinala a Dra. Lorena. ABHH em ação A transformação de políticas públicas, incorporações tecnológicas e novos protocolos em acesso efetivo aos pacientes esteve no centro do Fórum de Acesso e Equidade da ABHH — Região Centro-Oeste, realizado em 29 de maio, em Goiânia (GO). O encontro reuniu especialistas, gestores e representantes do poder público para discutir desafios da assistência às doenças hematológicas no Sistema Único de Saúde (SUS). Entre os temas abordados estiveram a implementação da Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer, o acesso a terapias avançadas, a Assistência Farmacêutica em Oncologia e os novos Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas. A programação também discutiu doenças como hemoglobinúria paroxística noturna, mieloma múltiplo, leucemias agudas, doença falciforme, mielofibrose e leucemia linfoide crônica. Na abertura, o diretor de Ações Sociais, Acesso e Equidade da ABHH, Dr. Angelo Maiolino, destacou a responsabilidade das sociedades médicas na ampliação do acesso à assistência. “Como sociedade médica, temos o papel de protagonismo na promoção do acesso à população”, afirmou. Na véspera do Fórum, representantes da ABHH visitaram serviços de hematologia e hemoterapia de Goiânia para conhecer estruturas de atendimento, ouvir profissionais e aproximar as discussões do evento dos desafios enfrentados na assistência local. Acesso e equidade pautaram fórum da ABHH em Goiânia

16 / 2026 ABHH em Revista 15 Confira os dashboards desta pesquisa e de outros levantamentos da ABHH na plataforma hemoBR PERFIL DO HEMATOLOGISTA E HEMOTERAPEUTA NO BRASIL EM NÚMEROS A pesquisa reuniu 585 participantes de todas as regiões do país. Veja alguns dos principais resultados. NORTE Forte concentração dos profissionais nas capitais, onde atuam 77,6% dos participantes. Relatos de falta de recursos diagnósticos (32,7%) e terapêuticos (36,7%) em serviços públicos ou filantrópicos. 71,4% têm instituições públicas como principal local de trabalho. NORDESTE 86,6% dos participantes atuam nas capitais e 13,4% no interior. A assistência ocupa parcela expressiva da jornada profissional: 58% dedicam mais da metade do tempo de trabalho à atividade. Cerca de metade relata falta de recursos para diagnóstico (50,6%) e tratamento (48,1%) em instituições públicas ou filantrópicas. SUDESTE 63,8% dos participantes atuam nas capitais e 36,3% no interior, uma presença no interior maior que a observada no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. 123 participantes desenvolvem pesquisa em instituições públicas, privadas ou em ambas, enquanto outros 59 têm interesse em pesquisar, mas não contam com centro de pesquisa em sua instituição. 58,8% dos participantes dedicam mais da metade da jornada profissional à assistência. SUL O Sul é a única região em que, entre os participantes, a atuação no interior supera a das capitais: 51,8% contra 48,2%. A onco-hematologia é a principal área de interesse assistencial, citada por 60% dos participantes. 31,8% informam a existência de serviço de TMO em instituições públicas ou filantrópicas. CENTRO-OESTE 88% dos participantes atuam em capitais e apenas 12% no interior, a maior concentração nas capitais entre as cinco regiões pesquisadas. Na assistência, a onco-hematologia é a principal área de interesse para 50% dos participantes. Apenas 4% informam a existência de serviço de TMO em instituições públicas ou filantrópicas.

Referências em hematologia pediátrica e mieloma múltiplo no Brasil, as médicas Maria Lúcia Lee e Vania Hungria são as homenageadas do HEMO 2026 Da Redação MULHERES QUE INSPIRAM Ao longo de décadas, as hematologistas Maria Lúcia Lee e Vania Hungria construíram trajetórias que ajudaram a transformar a especialidade no Brasil. Em frentes distintas, uniram cuidado, pesquisa, formação de profissionais e compromisso com o avanço da especialidade, deixando marcas que ultrapassam suas próprias áreas de atuação. No HEMO 2026, esse percurso ganha um reconhecimento especial com a homenagem às duas médicas. Na hematologia pediátrica, a Dra. Maria Lúcia construiu uma trajetória de quase 40 anos dedicada ao estudo e ensino das leucemias infantis e à prática da citomorfologia, 25 deles no GRAACC. Em sua trajetória, acompanhou de perto mudanças que transformaram o diagnóstico e o tratamento das leucemias infantis. No início da carreira, lembra, a classificação FAB ainda orientava o diagnóstico e a escolha terapêutica. Depois vieram a citometria de fluxo, os avanços nas técnicas de diagnóstico molecular e o refinamento da estratificação de risco, que permitiram adequar cada vez mais o tratamento às características da doença. Ela também presenciou a incorporação de terapias-alvo e, mais recentemente, da imunoterapia. “Tudo isso fez com que eu vivenciasse na minha prática clínica essas grandes mudanças que resultaram na melhora progressiva das curvas de sobrevida das leucemias infantis nos últimos 40 anos”, conta. Dra. Maria Lúcia Lee Dra. Vania Hungria ABHH em Revista 16 / 2026 16 Fotos: Comunicação/ABHH

A trajetória da Dra. Vania Hungria, por sua vez, soma mais de quatro décadas dedicadas principalmente ao mieloma múltiplo. Diretora médica na Clínica São Germano e professora adjunta de hematologia na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, ela participa de estudos clínicos sobre a doença como investigadora desde 1998. A escolha por essa área nasceu justamente da realidade que encontrava no atendimento. “Naquela época, na década de 1980, não tínhamos bons tratamentos para pacientes com mieloma. Decidi que precisava mudar essa realidade para ajudar esses pacientes”, afirma. A realidade que motivou essa escolha mudou profundamente ao longo das décadas. Quando ela começou a cuidar de pessoas com mieloma, a sobrevida global era, em média, de dois a três anos e havia poucas opções terapêuticas. Desde então, a Dra. Vania acompanhou de perto a chegada de novos tratamentos e as mudanças na história natural da doença. “Hoje, depois de tantos avanços, estamos discutindo não apenas como prolongar a sobrevida ou controlar melhor a doença, mas a possibilidade de cura para alguns desses pacientes. Ter testemunhado e participado dessa transformação é, para mim, um dos maiores privilégios da minha vida profissional”, ressalta a hematologista. Caminhos feitos de encontros Se há algo que aproxima as histórias de ambas, são as pessoas que ajudaram a construí-las. Ao revisitar sua trajetória, a Dra. Maria Lúcia Lee coloca os encontros no centro dessa história. “Foi um caminho de pessoas. Foram elas que me proporcionaram as melhores experiências, os melhores momentos e que estiveram presentes durante as mudanças de rumos que vivi”, destaca. Entre os mentores que marcaram sua trajetória, ela cita os hematologistas Josefina Braga, Mihoko Yamamoto, José Kerbauy e Sílvia Brandalise. No GRAACC, a parceria com Elizabete Delbuono ajudou a tornar realidade o laboratório de hematologia do serviço. Foi também ali que ela pôde se dedicar ao ensino, uma de suas paixões, acompanhando a formação de novos profissionais e vendo esse conhecimento seguir adiante por outras mãos. A atuação em grupos cooperativos é outro capítulo importante do seu percurso. Em 1997, a convite do Dr. Luiz Fernando Lopes, participou da criação pioneira do Grupo Cooperativo Brasileiro de Síndromes Mielodisplásicas em Pediatria (GCB-SMD-PED), trabalho conjunto que permitiu ampliar o conhecimento sobre um grupo de doenças até então com poucos dados no país. Anos depois, em 2018, outro momento marcante ocorreu quando assumiu, a convite da Dra. Sílvia Brandalise, a coordenação do Grupo Cooperativo Brasileiro de Tratamento da Leucemia Linfoide Aguda Infantil (GBTLI LLA), projeto ao qual se dedica até hoje. A construção do novo GBTLI LLA permitiu à Dra. Maria Lúcia conhecer mais profundamente, ao lado das Dras. Mecneide Mendes Lins e Adriana Seber e do Dr. Raul Ribeiro, os desafios do tratamento da LLA infantil no Brasil. Perto dos 60 anos, um convite do Dr. Phillip Scheinberg abriu uma nova frente em sua carreira: criar e estruturar, com os Drs. Victor Zecchin e Fabrício Romagnol, o serviço de transplante de medula óssea pediátrico do BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. O mieloma como escolha A Dra. Vania também reconhece nos encontros que teve na vida um elemento decisivo do seu caminho. O Dr. Carlos Chiattone foi quem a apresentou à hematologia e despertou seu interesse pela especialidade. Já o Dr. José Carlos de Almeida Barros lhe deu o primeiro livro sobre mieloma múltiplo e quem abriu as portas para seus primeiros congressos internacionais onde ela iniciou seu contato com pesquisadores e com as discussões que movimentavam a hematologia fora do Brasil. “Depois vieram muitos outros professores, colegas, amigos e pesquisadores, que foram fundamentais nessa caminhada. Acredito que uma trajetória nunca é construída sozinha. Ela é resultado dos encontros que temos pelo caminho, das oportunidades que recebemos e também daquilo que conseguimos compartilhar e construir com os outros”, reflete. Ao longo dos anos, suas conexões também se transformaram em iniciativas de pesquisa e colaboração. Como fundadora do Grupo Brasileiro de Mieloma Múltiplo (GBRAM) e cofundadora do International Myeloma Foundation Latin America, a Dra. Vania ajudou a fortalecer redes de troca de conhecimento sobre a doença no Brasil e no exterior. “Minha maior conquista tem sido conectar esses pacientes a ensaios clínicos que lhes

oferecem os melhores tratamentos possíveis”, enfatiza. Em 2024, ela presidiu o Congresso Mundial de Mieloma da International Myeloma Society, realizado pela primeira vez na América Latina. “Conseguimos trazer este congresso após muita luta e ter realizado este evento no Brasil, pela primeira vez na América Latina, foi motivo de enorme orgulho.” Relação com o HEMO A relação com o congresso da ABHH também ocupa um lugar importante na trajetória das duas homenageadas. Entre as edições que mais marcaram a Dra. Vania está a realizada de forma totalmente online durante a pandemia quando presidiu o congresso. O desafio, lembra, era preservar a qualidade científica e encontrar maneiras de aproximar os participantes apesar da distância. A programação chegou a incluir uma versão do “Que História É Essa, Porchat?”, com Fábio Porchat. Para ela, a experiência mostrou que era possível combinar o rigor científico com momentos de leveza em um período especialmente difícil. “Tenho um carinho muito especial por aquela edição porque ela simboliza nossa capacidade de nos reinventarmos diante de um grande desafio”, afirma. A Dra. Maria Lúcia Lee também guarda uma lembrança especial do congresso: a primeira edição em que participou da criação de uma programação específica para a hematologia pediátrica. Foram duas salas, uma dedicada à hematologia benigna e outra à onco-hematologia pediátrica. “Ver as duas salas cheias foi algo inesquecível. Um desafio vencido”, recorda. A homenagem no HEMO deste ano desperta nela um misto de surpresa e gratidão. “Me senti extremamente gratificada em saber que meu trabalho, no decorrer desses quase 40 anos na hematologia pediátrica, tenha impactado as pessoas de forma tão positiva, fazendo aquilo que amo: cuidar de crianças com leucemia e ensinar”, conclui. A emoção também acompanha a Dra. Vania. “O HEMO faz parte da minha história profissional e da minha vida. Ao longo dos anos, foi um espaço de aprendizado, de encontros, de troca de experiências e, sobretudo, de construção de muitas amizades”, afirma. Ela diz receber a homenagem não apenas como um reconhecimento pessoal, mas como uma celebração das pessoas que fizeram parte dessa caminhada, entre colegas, pesquisadores, equipes, amigos e pacientes. Lições para novas gerações Outro ponto em comum entre as duas trajetórias é o compromisso com a formação de novas gerações. Entre os principais aprendizados que a Dra. Maria Lúcia destaca ao olhar para a própria carreira está a persistência. “Nada se constrói sem muito trabalho, um trabalho contínuo e focado. Nem sempre será simples ou fácil, por isso são necessários persistência e resiliência”, assinala. Para ela, o trabalho não se apoia apenas no conhecimento técnico, mas também na capacidade de ouvir quem está sendo cuidado. “Uma parte fundamental do que fazemos não está calcada apenas na expertise técnica, mas na permanência da escuta ativa de nossos pacientes, que nos ensinam muito sempre.” Ao falar com quem está começando na hematologia, a Dra. Vania ressalta a necessidade de manter a curiosidade e a disposição para aprender em uma especialidade que se transforma rapidamente. Também reforça uma lição que atravessa sua própria história. “É importante criar pontes, compartilhar conhecimento e abrir portas para quem vem depois de nós”, comenta. Mesmo diante dos avanços científicos e de uma medicina cada vez mais sofisticada, ela ressalta que o sentido desse trabalho continua ligado ao cuidado. “Por mais sofisticada que a medicina se torne, nunca perder de vista que, no centro de tudo, existe um paciente que depositou sua confiança em nós. A ciência nos mostra os caminhos, mas é o cuidado com as pessoas que dá sentido à nossa profissão”, completa. A programação do HEMO 2026 está distribuída em 10 salas temáticas simultâneas organizadas por áreas. Confira a programação completa no aplicativo do congresso, que fica ativo pós-evento para emissão de certificados e outras informações. ABHH em Revista 16 / 2026 18

“Transformamos o mieloma, mas ainda não o vencemos” À frente da Conferência Magna do HEMO 2026, o Dr. Sundar Jagannath fala sobre os avanços no tratamento do mieloma múltiplo, seu entusiasmo em definir o que é cura na doença e explica que as perguntas ainda sem resposta continuam a mover sua pesquisa Por Madson de Moraes e Roberto Souza Quando o Dr. Sundar Jagannath começou a tratar pacientes com mieloma múltiplo há mais de quatro décadas, as opções terapêuticas eram limitadas e falar em cura parecia distante da realidade clínica. Formado em Medicina na Índia com passagem pelo Canadá e carreira construída nos Estados Unidos, o onco-hematologista acompanhou de perto uma transformação que passou pelo transplante de células-tronco e chegou aos anticorpos monoclonais, células CAR-T e anticorpos biespecíficos. Professor de medicina, hematologia e oncologia clínica na Icahn School of Medicine at Mount Sinai e no Tisch Cancer Institute, em Nova York, o Dr. Jagannath construiu uma trajetória marcada pelo desenvolvimento de ensaios clínicos com novas terapias. Estudos que liderou e dos quais participou contribuíram para a aprovação de diversos medicamentos para o mieloma pela Food and Drug Administration. Ao longo da carreira, também ajudou a formar gerações de médicos e pesquisadores e sua produção científica reúne mais de 400 artigos revisados por pares. No HEMO 2026, ele será o palestrante da Conferência Magna “Mieloma múltiplo – O caminho para a cura”. Na entrevista a seguir, o Dr. Jagannath relembra momentos de sua trajetória, fala sobre os avanços que transformaram o tratamento do mieloma e explica por que considera importante estabelecer uma definição de cura. “Transformamos o mieloma, mas ainda não o vencemos. É isso que me faz continuar voltando. Ainda há trabalho a fazer, pacientes que precisam de tratamentos melhores e descobertas esperando para serem feitas”, diz. Confira! O que levou o senhor a escolher o mieloma múltiplo como foco da sua carreira? Após concluir meu fellowship no MD Anderson, em Houston, passei a integrar o programa de transplante de medula óssea como jovem docente. Investigamos o papel da quimioterapia intensiva associada ao transplante autólogo de medula óssea no tratamento de diversos tipos de câncer. Minha área de pesquisa clínica se concentrava em terapias de altas doses para casos de doença de Hodgkin e linfoma não Hodgkin recidivantes. O esquema CBV, publicado inicialmente pelo nosso grupo em 1986, foi amplamente adotado. Em 1989, me transferi para a University of Arkansas for Medical Sciences em Little Rock, no Arkansas, para dirigir o programa de transplante de células-tronco. Lá fui apresentado ao mieloma múltiplo como foco de pesquisa pelo meu mentor, o Dr. Bart Barlogie [hematologista norte-americano que liderou inúmeras conquistas ​no avanço do conhecimento sobre a doença]. Foto: Divulgação

Vimos uma oportunidade de utilizar altas doses de melfalano e transplante em tandem no tratamento do mieloma. Utilizamos todas as terapias eficazes conhecidas em um único protocolo, como uma série de tratamentos sem resistência cruzada, e a chamamos de Total Therapy I, iniciado em 1989. Ficamos satisfeitos ao constatar que essa abordagem resultou em remissão completa em um terço dos pacientes, algo inédito até então, além de melhorar sua qualidade e expectativa de vida. E o que fez esse interesse continuar ao longo de tantos anos? O que me manteve na área do mieloma, no entanto, não foi um tratamento ou descoberta específica, mas a oportunidade constante de responder a novas perguntas. Tive o privilégio de testemunhar a evolução da área, passando pelo transplante até chegar aos inibidores de proteassoma, fármacos imunomoduladores, anticorpos monoclonais e, agora, às células CAR-T e aos anticorpos biespecíficos. De muitas maneiras, escolhi o mieloma repetidamente ao longo da minha carreira, pois cada avanço revelava uma nova questão ainda sem resposta. Essa sensação contínua de possibilidade e a oportunidade de transformar o progresso científico em melhores resultados para os pacientes são o que me manteve dedicado a essa doença por décadas. O senhor se formou na Índia, passou pelo Canadá e construiu a carreira nos Estados Unidos. O que cada uma dessas experiências trouxe para a sua forma de enxergar a medicina e a pesquisa? Minha formação médica na Índia me proporcionou uma base sólida em medicina clínica e, mais importante, uma profunda compreensão do privilégio de cuidar de pacientes. Meu treinamento no Canadá se concentrou principalmente em atividades laboratoriais, despertando em mim o interesse pela pesquisa translacional. No MD Anderson Cancer Center, encontrei um ambiente onde a assistência clínica e a pesquisa estavam intimamente ligadas. Essa experiência consolidou minha convicção de que o paciente deve dar origem à pergunta, a ciência deve nos ajudar a respondê-la e a resposta deve, em última análise, retornar ao paciente. E que papel seus mentores tiveram na sua visão sobre colaboração científica? Ao trabalhar com meu mentor Karel A. Dicke no M. D. Anderson, conheci muitos pesquisadores da área de transplante autólogo de células-tronco. Trabalhando com meu mentor, o Dr. Barlogie, fui apresentado a pesquisadores internacionais de destaque na área de mieloma múltiplo. Isso reforçou minha convicção de que os avanços médicos são mais significativos quando compartilhados amplamente e capazes de beneficiar pacientes em toda parte. Essa perspectiva norteou meu compromisso com a colaboração, a mentoria e a ideia de que a melhor ciência raramente é realizada de forma isolada. Depois de acompanhar tantas mudanças no tratamento do mieloma, o que mais o surpreendeu? A mudança mais marcante foi a transformação de uma doença com opções limitadas de tratamento e expectativa de vida em uma doença com uma variedade extraordinária de terapias eficazes e potencial de cura. Quando comecei a tratar mieloma, teria sido difícil imaginar com que eficácia poderíamos utilizar o próprio sistema imunológico do paciente para atacar a doença. Hoje temos anticorpos monoclonais, células CAR-T, anticorpos biespecíficos e outras estratégias baseadas no sistema imunológico, com alguns pacientes alcançando respostas notavelmente profundas mesmo após múltiplos tratamentos anteriores. O que mais me surpreendeu não foi um medicamento específico, mas a velocidade e a magnitude do progresso cumulativo. Ao mesmo tempo, avanços como os testes de doença residual mínima nos permitem detectar a doença em níveis que nunca poderíamos ver antes. A verdadeira surpresa foi como a biologia, a tecnologia e a medicina clínica convergiram para tornar cada avanço possível. É isso que torna o mieloma uma área tão empolgante atualmente. O que me manteve na área do mieloma, no entanto, não foi um tratamento ou descoberta específica, mas a oportunidade constante de responder a novas perguntas. Dr. Sundar Jagannath ABHH em Revista 16 / 2026 20

Em entrevistas, o senhor tem enfatizado a necessidade de uma definição formal do termo cura no mieloma. Qual a importância desse debate? Tenho grande entusiasmo em definir o que é cura no mieloma e em enfatizar que alguns pacientes são curados da doença. Para os pacientes, isso traz a esperança de que eles podem ser curados. Dizer que ela é tratável, mas não curável ou que é uma doença crônica que pode ser controlada com terapia contínua não é a mesma coisa. Isso muda a abordagem dos médicos no manejo de seus pacientes, tornando-os mais atentos aos avanços recentes, mais entusiasmados e mais favoráveis a ensaios clínicos com intenção curativa. Podemos alcançar hoje respostas notavelmente profundas e duradouras e testes sensíveis de doença residual mínima nos permitem identificar pacientes nos quais já não conseguimos detectar doença mensurável. Nossas terapias se tornaram suficientemente poderosas a ponto de a questão sobre se podemos realmente curar alguns pacientes não ser mais teórica. O senhor ajudou a construir um dos principais programas de mieloma múltiplo dos Estados Unidos. O que não pode faltar em uma boa equipe? A primeira coisa é que não se pode construir um grande programa em torno de uma única pessoa. Ele é construído em torno de pessoas excepcionais com diferentes pontos fortes e que entendem que o sucesso é uma conquista coletiva. Sempre procurei reunir excelentes clínicos, médicos-cientistas e especialistas em áreas como terapia celular e genômica e, então, dar a eles a oportunidade de desenvolver seus pontos fortes. A confiança é igualmente essencial. As pessoas precisam se sentir confortáveis para fazer perguntas, discordar e propor ideias que talvez não funcionem porque a inovação exige liberdade para assumir riscos. Também é preciso ter uma missão compartilhada, que, para nós, sempre foi melhorar a vida dos pacientes com mieloma por meio de excelência no cuidado clínico, pesquisa e educação. Por fim, os líderes precisam criar oportunidades para que outras pessoas tenham sucesso. Meu papel não é ter todas as respostas, mas identificar pessoas talentosas, fornecer os recursos de que precisam, remover obstáculos e ajudá-las a crescer. Quando se faz isso, o programa se torna maior que qualquer indivíduo e é nesse momento que se constrói um verdadeiro centro de excelência. Depois de décadas dedicadas ao mieloma, o que ainda faz o senhor entrar no laboratório ou em uma discussão científica sobre a doença? O que continua a me inspirar é perceber que ainda não temos todas as respostas. Depois de mais de quatro décadas, vi um progresso extraordinário, mas cada resposta parece gerar outra pergunta: por que um paciente responde tão bem enquanto outro não, como podemos tornar as novas terapias mais eficazes e duradouras e o que devemos fazer com as informações que obtemos por meio de medidas cada vez mais sensíveis da doença residual? Mais importante, os pacientes nos lembram de que esse não é um problema científico abstrato. Por trás de cada ensaio clínico e experimento de laboratório há uma pessoa que quer viver, passar tempo com a família, voltar ao trabalho ou simplesmente ter mais tempo. Também me inspira a geração mais jovem de médicos e cientistas cujas ideias estão desafiando pressupostos e abrindo novas possibilidades. Transformamos o mieloma, mas ainda não o vencemos. É isso que me faz continuar voltando. Ainda há trabalho a fazer, pacientes que precisam de tratamentos melhores e descobertas esperando para serem feitas. Quando olha para os próximos dez anos, que pergunta sobre o mieloma o senhor mais gostaria de ver respondida? A pergunta que eu mais gostaria que conseguíssemos responder é simples: como eu curo cada paciente com mieloma múltiplo que atendo? Estamos aprendendo que o mieloma múltiplo não é uma única doença, mas um conjunto de subtipos biologicamente distintos com diferentes níveis de risco e padrões de resposta. Gostaria que chegássemos a um ponto em que pudéssemos identificar essas diferenças no diagnóstico e usá-las para orientar um tratamento verdadeiramente individualizado. Também precisamos entender o que permanece quando um paciente alcança uma resposta profunda, onde estão escondidas as células responsáveis pela recaída, por que a doença residual persiste em alguns pacientes e como podemos eliminá-la sem tratamento e toxicidade desnecessários. Espero que a próxima década nos traga um cuidado verdadeiramente personalizado, identificando quem precisa de mais tratamento, quem pode receber menos com segurança, quando a terapia pode ser interrompida e, em última análise, quem pode ser curado.

MARÇO Comitês técnicos da ABHH participam de treinamento sobre ATS ABHH em Revista 16 / 2026 22 cobertura CIÊNCIA, PRÁTICA E ATUALIZAÇÃO No dia 13 de março, a ABHH realizou, em São Paulo, o 1º Treinamento sobre Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS) para integrantes de seus comitês técnicos. O encontro discutiu conceitos, metodologias e desafios envolvidos na análise e incorporação de novas tecnologias no sistema de saúde brasileiro. Na abertura, Helaine Capucho, consultora da Interfarma e ex-integrante da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), percorreu as etapas da incorporação e os desafios que permanecem após uma recomendação favorável. “Somente o aval da Conitec não incorpora medicamentos”, afirmou. O impacto orçamentário e seus reflexos no acesso também estiveram entre os temas discutidos. A análise econômica das novas tecnologias foi abordada por Camila Pepe, especialista em avaliação de tecnologias em saúde e economia da saúde e diretora-executiva da Origin Health. “O Orçamento da União é finito, por isso as avaliações de novas incorporações passam por análises de custos”, explicou. O Dr. Yung Gonzaga, hematologista do Instituto Nacional de Câncer (INCA), discutiu a análise crítica e a síntese de evidências, incluindo a elaboração de protocolos clínicos baseados em evidências. Na etapa prática, o Dr. Renato Tavares, diretor de Educação da ABHH e coordenador do Comitê de Acesso a Novas Tecnologias, detalhou a construção de pareceres para consultas públicas e processos de ATS. O Dr. Jorge Vaz Pinto Neto, vice-presidente da ABHH e membro do comitê, ressaltou a importância dos dossiês técnicos para a atuação da entidade. A programação incluiu ainda a incorporação de tecnologias no SUS e na saúde suplementar, com o advogado Tiago Farina Matos, e os desafios para garantir o acesso após a incorporação, apresentados pelo Dr. Glaciano Ribeiro, também membro do comitê. Avaliação de tecnologias em saúde, linfomas, mieloma múltiplo, hematologia pediátrica, hemostasia e trombose estiveram no centro dos eventos promovidos pela ABHH entre março e agosto Da Redação Fotos: Comunicação/ABHH Encontro aprofundou conceitos e práticas de avaliação de tecnologias em saúde

ABRIL BLC 2026 reuniu mais de 60 palestrantes do Brasil e do mundo 16 / 2026 ABHH em Revista 23 Realizada on-line, de 8 a 11 de abril, a edição deste ano do Brazilian Lymphoma Conference (BLC) reuniu especialistas nacionais e internacionais em 15 sessões científicas sobre doenças linfoproliferativas. Foram 21 convidados de nove países e 43 especialistas brasileiros. Realizado há 16 anos pela ABHH, o BLC tem como chair o Dr. Carlos Chiattone, diretor da entidade. A abertura contou também com a participação do presidente da ABHH, Dr. Eduardo Magalhães Rego. A programação científica começou com discussões sobre linfomas agressivos e leucemia linfocítica crônica (LLC). Terapia de primeira linha no linfoma difuso de grandes células B (LDGCB), subtipos moleculares, novos inibidores, doença residual mínima e individualização do tratamento estiveram entre os temas. No segundo dia, diferentes subtipos de linfoma entraram em pauta, com evidências de longo prazo no linfoma de células do manto e avanços em novas terapias, incluindo terapia celular. No linfoma folicular, foram apresentadas evidências do estudo inMIND. Estratégias emergentes para linfomas T periféricos recidivados ou refratários e dados do consórcio PETAL sobre desfechos e prognóstico também integraram os debates. O terceiro dia teve entre os destaques o linfoma de Hodgkin, com discussões sobre intensidade do tratamento e manejo da doença recidivada ou refratária. Tricoleucemia, linfoma transformado da zona marginal e linfoma de Burkitt também estiveram em pauta, além de estudos com vírus oncolíticos e novas perspectivas para os linfomas de células T. No encerramento, foram abordados interpretação do PET-CT, inteligência artificial, avaliação crítica de estudos de fase 3, value-based care, vacinação e avaliação geriátrica. Na Conferência Magna, o Dr. Miles Prince, do Epworth HealthCare e do Peter MacCallum Cancer Centre (Austrália), tratou das diferenças biológicas entre os linfomas de células B e T/NK e seus impactos no tratamento, além dos desafios da imunoterapia e das perspectivas abertas por anticorpos biespecíficos e terapia com células T receptoras de antígeno quimérico (CAR-T). BLC 2026 reuniu 21 convidados de nove países em sua programação

RkJQdWJsaXNoZXIy MTg4NjE1MA==