Vimos uma oportunidade de utilizar altas doses de melfalano e transplante em tandem no tratamento do mieloma. Utilizamos todas as terapias eficazes conhecidas em um único protocolo, como uma série de tratamentos sem resistência cruzada, e a chamamos de Total Therapy I, iniciado em 1989. Ficamos satisfeitos ao constatar que essa abordagem resultou em remissão completa em um terço dos pacientes, algo inédito até então, além de melhorar sua qualidade e expectativa de vida. E o que fez esse interesse continuar ao longo de tantos anos? O que me manteve na área do mieloma, no entanto, não foi um tratamento ou descoberta específica, mas a oportunidade constante de responder a novas perguntas. Tive o privilégio de testemunhar a evolução da área, passando pelo transplante até chegar aos inibidores de proteassoma, fármacos imunomoduladores, anticorpos monoclonais e, agora, às células CAR-T e aos anticorpos biespecíficos. De muitas maneiras, escolhi o mieloma repetidamente ao longo da minha carreira, pois cada avanço revelava uma nova questão ainda sem resposta. Essa sensação contínua de possibilidade e a oportunidade de transformar o progresso científico em melhores resultados para os pacientes são o que me manteve dedicado a essa doença por décadas. O senhor se formou na Índia, passou pelo Canadá e construiu a carreira nos Estados Unidos. O que cada uma dessas experiências trouxe para a sua forma de enxergar a medicina e a pesquisa? Minha formação médica na Índia me proporcionou uma base sólida em medicina clínica e, mais importante, uma profunda compreensão do privilégio de cuidar de pacientes. Meu treinamento no Canadá se concentrou principalmente em atividades laboratoriais, despertando em mim o interesse pela pesquisa translacional. No MD Anderson Cancer Center, encontrei um ambiente onde a assistência clínica e a pesquisa estavam intimamente ligadas. Essa experiência consolidou minha convicção de que o paciente deve dar origem à pergunta, a ciência deve nos ajudar a respondê-la e a resposta deve, em última análise, retornar ao paciente. E que papel seus mentores tiveram na sua visão sobre colaboração científica? Ao trabalhar com meu mentor Karel A. Dicke no M. D. Anderson, conheci muitos pesquisadores da área de transplante autólogo de células-tronco. Trabalhando com meu mentor, o Dr. Barlogie, fui apresentado a pesquisadores internacionais de destaque na área de mieloma múltiplo. Isso reforçou minha convicção de que os avanços médicos são mais significativos quando compartilhados amplamente e capazes de beneficiar pacientes em toda parte. Essa perspectiva norteou meu compromisso com a colaboração, a mentoria e a ideia de que a melhor ciência raramente é realizada de forma isolada. Depois de acompanhar tantas mudanças no tratamento do mieloma, o que mais o surpreendeu? A mudança mais marcante foi a transformação de uma doença com opções limitadas de tratamento e expectativa de vida em uma doença com uma variedade extraordinária de terapias eficazes e potencial de cura. Quando comecei a tratar mieloma, teria sido difícil imaginar com que eficácia poderíamos utilizar o próprio sistema imunológico do paciente para atacar a doença. Hoje temos anticorpos monoclonais, células CAR-T, anticorpos biespecíficos e outras estratégias baseadas no sistema imunológico, com alguns pacientes alcançando respostas notavelmente profundas mesmo após múltiplos tratamentos anteriores. O que mais me surpreendeu não foi um medicamento específico, mas a velocidade e a magnitude do progresso cumulativo. Ao mesmo tempo, avanços como os testes de doença residual mínima nos permitem detectar a doença em níveis que nunca poderíamos ver antes. A verdadeira surpresa foi como a biologia, a tecnologia e a medicina clínica convergiram para tornar cada avanço possível. É isso que torna o mieloma uma área tão empolgante atualmente. O que me manteve na área do mieloma, no entanto, não foi um tratamento ou descoberta específica, mas a oportunidade constante de responder a novas perguntas. Dr. Sundar Jagannath ABHH em Revista 16 / 2026 20
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