#congressocosemssp2025 CAPA O P I N I Ã O Emerson Merhy é médico sanitarista, pesquisador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) O enfrentamento dos dilemas atuais do SUS por parte dos gestores e trabalhadores, incluindo a saúde digital, em relação ao cuidado Emerson Merhy Se olharmos o tema do cuidado a partir da perspectiva de que ele tem a ver com a produção da saúde — e o cuidado aqui é um conjunto de todas as práticas profissionais, técnicas, tecnológicas e sociais que visam produzir corpos mais saudáveis e com menos sofrimento —, a essência da produção da saúde e, portanto, da alma do cuidado, é todo tipo de ação individual e coletiva que se abre para a produção de mais vidas nas vidas vividas. Isso é central porque não basta eu ter uma pessoa que sofre porque tem diabetes tipo 1. Eu diagnostico aquilo, olho pela biomedicina, e dou uma terapêutica, passo uma dieta, dou uma insulina e mando ela embora para casa. Isso não obrigatoriamente implica em produção de mais vidas nas vidas vividas por essa pessoa. Então é óbvio que um mundo do cuidado é um mundo que exige uma construção de ação interprofissional altamente articulada com as redes e laços de familiaridade dessa pessoa. Eu poderia ampliar esse exemplo para qualquer outro lado. Assim, o cuidado é antes de tudo uma ação ética sobre o valor da outra vida. Como para o SUS todas as vidas têm o mesmo valor, que é viver intensamente a sua potência de viver e que é qualificar produzindo cada vez mais vida na vida vivida, essa ação ética é chave no tema da desigualdade. Há desafios enormes do ponto de vista tecnológico para essa prática. Dentro da minha proposta, destaco que existem as tecnologias materiais e as imateriais para realizarmos essas construções, que não são de propriedade exclusiva de uma profissão. Elas pertencem ao campo das práticas de cuidado. As tecnologias materiais, como por exemplo as digitais — usarmos essas tecnologias para construir formulários ou prontuários virtuais que possam ser acessados em qualquer circunstância como um cadastro único nacional —, são fundamentais, mas não são suficientes. Sabemos que um prontuário pode ser uma fonte de informação riquíssima e pode ser nenhuma fonte de informação riquíssima. Então, é óbvio que existe uma outra tecnologia para que a tecnologia material funcione, que é uma tecnologia imaterial. Que é aquela forma de ação tecnológica no campo da saúde que implica o modo como você constrói a sua relação com o outro. Qual é a sua capacidade de escutar o que o outro fala? Qual é a sua capacidade como equipe, como profissional, de acolher a queixa do outro, de procurar construir uma conversa em que você não simplesmente olha aquele corpo e aquele sofrimento para fazer um diagnóstico e sugerir uma medicação ou um exame ou um procedimento, mas que você procure conhecer mais profundamente o modo de viver, o modo de sofrer, o modo de adoecer, o modo como aquela vida caminha na vida? O modo de caminhar a vida influencia profundamente o modo de sofrer. Pessoas com o mesmo diagnóstico sofrem diferentemente. E aí não são as tecnologias materiais que resolvem, elas ajudam. São as tecnologias imateriais, que eu chamo de tecnologias relacionais. Eu acho que o SUS tem investido muito pouco nisso. Temos que fazer um programa de formação de trabalhadores como o da educação permanente, em que o campo das tecnologias relacionais seja o foco do processo formativo das equipes de trabalhadores que atuam, por exemplo, nos territórios na rede básica de saúde ou nos serviços que se territorializam como matriz essencial para a ação das práticas de cuidado no território. Essa é uma questão fundamental e desafio central hoje do SUS. Ascom CNS 6 Abril | 222
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