ABHH em Revista #12/2024

#12 / 2024 Especialistas comentam sobre as novas ferramentas que estão revolucionando o tratamento do mieloma múltiplo, permitindo que os pacientes vivam mais NOVAS PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS DO MIELOMA Diretora de Comunicação da ABHH, a Dra. Vania Hungria fala do orgulho de o Brasil sediar a Reunião Anual da International Myeloma Society página 6 ABRE ASPAS Congresso da ABHH deste ano terá algumas novidades como o aumento da área global e parceria com a Society of Hematologic Oncology página 16 HEMO 2024 Mais de 3 mil pessoas participaram da 3ª Corrida e Caminhada Um Só Sangue, em São Paulo, vestindo a camisa da doação de sangue no Brasil página 22 COBERTURA

We are working to pioneer the path of tomorrow’s medicine. Material intended for medical class. September 2024. Powerful portfolio in multiple myeloma. For all patients, at all stages of their journey. For more information, please contact us. INFORME CORPORATIVO O conteúdo deste informe é de inteira responsabilidade da empresa e não representa necessariamente a opinião da ABHH.

sumário carta ao leitor p.4 | diretoria p.5 | artigo p.15 | giro ABHH p.32 abre aspas p.6 debate abhh p.10 “Foi muito recompensador nosso país ter sido escolhido”, destaca a Dra. Vania Hungria sobre o Brasil sediar o evento anual da IMS Especialistas comentam sobre novas ferramentas que estão revolucionando o panorama do mieloma múltiplo cobertura p.22 Participantes falam da emoção em correr pela causa da doação de sangue na 3ª Corrida e Caminhada Um Só Sangue HEMO 2024 p.16 Congresso da ABHH deste ano terá novidades em sua programação científica e aumento da área global do congresso perfil p.28 A hematologista, professora, escritora e pintora Dayse Lourenço transformou sua carreira em um grande palco de aprendizado em perspectiva p.18 Integrantes do Comitê de Cuidados Paliativos da ABHH falam sobre a nova política e evolução dos cuidados paliativos nas doenças hematológicas 12 / 2024 ABHH em Revista 3

carta ao leitor 4 O mês de setembro de 2024 representa um marco para o Brasil e para a ABHH. É o mês em que o país sediará, no Rio de Janeiro, a tradicional reunião anual da International Myeloma Society (IMS), o principal encontro científico do mundo sobre mieloma múltiplo. É a primeira vez, ao longo da sua história, que este evento da IMS acontece na América Latina, tendo o Brasil sendo o país-sede. A expectativa é que o Brasil receba mais de 3 mil profissionais que trabalham com a doença no mundo, como médicos, biólogos e pesquisadores, entre outros. Para a ABHH, esta é uma conquista que nos enche de orgulho. Sediar um evento dessa magnitude é um feito incrível e trabalho de muitos, muitos anos — décadas, na verdade. Nosso País tem figurado na vanguarda da produção científica e achados em mieloma múltiplo, incluindo também iniciativas de acesso, que ainda carecem de maior equidade, pela qual também temos trabalhado. Uma das pessoas que atuou incansavelmente para trazer este evento internacional é a entrevistada desta edição, Dra. Vania Hungria, que, além de Diretora de Comunicação, é também coordenadora do Comitê de Gamopatias Monoclonais da ABHH. Ela, que será a presidente deste evento da IMS no mesmo ano em que completa 40 anos de atuação na área de mieloma múltiplo, conta um pouco do que significa trazer este encontro científico global para a hematologia brasileira e da América Latina. Aproveitando o evento da International Myeloma Society, a reportagem principal desta edição apresenta as novas ferramentas para monitorar o mieloma múltiplo, com especialistas relatando os avanços nos medicamentos e nas combinações que têm permitido que os pacientes vivam mais. Confira também uma matéria sobre o HEMO 2024, considerado o terceiro maior congresso do mundo em hematologia, hemoterapia e terapia celular, e que acontece em outubro, entre os dias 23 e 26, em São Paulo. Garanta sua inscrição em nosso evento! Encerramos este editorial enfatizando novamente nosso orgulho por ter o Brasil como sede do principal evento da International Myeloma Society. Parabéns a todas as pessoas envolvidas! Um abraço e ótima leitura! Mais um marco para o Brasil! Dr. Renato Sampaio Tavares e Dra. Vânia Hungria Diretoria de Comunicação ISSN 2179-4855 ABHH em Revista é uma publicação da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) distribuída gratuitamente para seus associados. O conteúdo da publicação é de inteira responsabilidade de seus autores e não representa necessariamente a opinião da ABHH. JORNALISTA RESPONSÁVEL Roberto Souza (Mtb 11.408) EDITOR Madson de Moraes REPORTAGEM Danilo Gonçalves Helena Geraldes Tássia Lourenço Vinícius de Lima REVISÃO Joice Costa PROJETO EDITORIAL Madson de Moraes PROJETO GRÁFICO Leonardo Fial DESIGNERS Lucas Bellini Marcelo Cielo Rafael Bastos FOTO DE CAPA Getty Images CONTATO COMERCIAL Caroline Frigene RS HEALTH Rua Cayowaá, 228 – Perdizes São Paulo – SP – 05018-000 (11) 3875-6296 rspress@rspress.com.br www.agenciars.co ABHH Rua Dr. Diogo de Faria, 775, conj. 133 Vila Clementino São Paulo - SP (11) 2369-7767 / (11) 2338-6764 abhh@abhh.org.br www.abhh.org.br @abhhoficial ABHH em Revista 12 / 2024

DIRETORIA ABHH 2024-2025 Conheça os especialistas que integram a direção da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular Glaciano Ribeiro Leny Nascimento da Motta Passos Carmino Antônio de Souza Eduardo Magalhães Rego Celso Arrais Edvan Crusoé José Francisco Comenalli Marques Júnior Violete Petitto Laforga Carlos Sérgio Chiattone Angelo Maiolino Roberto Passetto Falcão Dr. José Orlando Bordin Renato Sampaio Tavares Dante Langhi Júnior Dimas Tadeu Covas Vania Hungria Jorge Vaz Pinto Neto Silvia Maria Meira Magalhães Diretoria Administrativa Diretoria Científica Diretoria de Defesa Profissional Diretoria de Ações Sociais Diretoria Financeira Diretoria de Comunicação Diretoria de Relações Institucionais Diretor Científico Emérito Diretor de Orientação e Aconselhamento Presidente Vice-presidente 12 / 2024 ABHH em Revista 5

ABHH em Revista 12 / 2024 6 abre aspas

“O Brasil está na vanguarda do mieloma” No mesmo ano em que completa 40 anos de atuação na área de mieloma múltiplo, a Dra. Vania Hungria fala do orgulho de o Brasil sediar a prestigiada Reunião Anual da International Myeloma Society Por Danilo Gonçalves e Madson de Moraes O ano de 2024 é especialmente marcante para a carreira da médica hematologista Vania Hungria. Ela completa 40 anos de atuação na área de mieloma múltiplo e, este ano, tem a honra — em suas palavras — de presidir um evento inédito na América Latina sobre a doença: a prestigiada Reunião Anual da International Myeloma Society (IMS) — entidade que reúne pesquisadores, médicos e profissionais de saúde de todo o mundo envolvidos no estudo do mieloma —, realizado no Rio de Janeiro em setembro. Trazer este evento em parceria com o Dr. Angelo Maiolino (presidente da ABHH) para, ressalta Vania, que é cofundadora da International Myeloma Foundation Latin America, é a coroação de um trabalho de décadas. “Acho que foram três, quatro ou cinco tentativas para trazê-lo ao Brasil. Foi recompensador quando finalmente fomos escolhidos”, conta a médica, que conversou com nossa reportagem. Qual é a importância de trazer esse evento sobre mieloma para o Brasil? Desde a época que se chamava International Myeloma Workshop (IMW), nós já havíamos tentado trazer várias vezes para o Brasil. Foram várias as tentativas e uma jornada difícil. Faz muitos anos que estamos lutando para trazer um evento desse porte, sobre mieloma, para a América Latina. Foi muito recompensador nosso país ter sido escolhido. O encontro deveria acontecer em 2022, mas, por conta da pandemia, ocorreu em Los Angeles e, como já estava certo que o evento de 2023 seria realizado em Atenas, eles postergaram para fazermos este ano. Estamos muito contentes em sediar esse encontro global sobre mieloma. A expectativa é receber cerca de 2 mil pessoas, de 75 países diferentes e ter mais de 150 palestrantes. O evento do IMS será enorme e incrível. O que você pode falar sobre a programação científica? O programa científico do evento está excelente. Convido todos a visitar o site da IMS, onde consta toda a programação. Algo que gosto muito é que cada palestrante só pode ter uma atividade no evento, o que é um critério porque dá a oportunidade para o maior número de outros profissionais ou experts participarem. Teremos também pela primeira vez uma sessão de late-breaking abstract e posso adiantar que teremos trabalhos científicos extremamente importantes que serão apresentados pela primeira vez nessa reunião do IMS no Rio de Janeiro. Existe uma premiação para jovens investigadores, que Desde a época que se chamava International Myeloma Workshop (IMW), nós já havíamos tentado trazer várias vezes para o Brasil. Foram várias as tentativas e uma jornada difícil. Faz muitos anos que estamos lutando para trazer um evento desse porte, sobre mieloma, para a América Latina 12 / 2024 ABHH em Revista 7 Comunicação/ABHH

é extremamente importante para incentivar os jovens a participarem do encontro. É uma sociedade que está crescendo muito. Este congresso remonta ao antigo International Myeloma Workshop? Isso! O International Myeloma Workshop existe há muitos anos. Começou na década de 1980 por iniciativa dos professores Timothy McElwain e Robert Kyle. O primeiro workshop que participei foi o realizado em Boston, em 1997. Era um evento que acontecia a cada dois anos e começou, obviamente pequeno, mas foi crescendo ao longo dos anos e coincidiu com a melhora no tratamento do mieloma. Quando foi criada a International Myeloma Society, ele seguiu ocorrendo a cada dois anos e, desde 2021, passou a ser anual. As pessoas ainda confundem, chamando o evento de workshop, mas ele não tem mais esse nome. O fato de o Brasil ter sido o primeiro país da América Latina a ser escolhido pelo IMS mostra a potência da hematologia brasileira? Com certeza! Voltei recentemente de um evento que coordenei no Panamá. Tinha médicos de toda a América Latina. Fiquei muito impressionada em notar como o Brasil está à frente dentro da América Latina em relação ao nível de experiência que temos em se tratando do investimento de drogas novas, de estudos clínicos etc. Estamos à frente com a aprovação de CAR-T Cell, com a aprovação de biespecífico e de drogas novas. O Brasil deu uma arrancada. Foi impressionante notar isso naquele momento porque não nos damos conta dessa evolução. Sim, os Estados Unidos e Europa estão à frente em algumas questões, mas vale lembrar que temos um problema de equidade, a diferença entre público e privado. O Brasil está na vanguarda do mieloma. Você também tem uma longa atuação na International Myeloma Foundation (IMF). Como isso aconteceu? Meu primeiro contato com uma instituição internacional de mieloma foi com a IMF em 1998 ao conhecer pessoalmente o Dr. Brian Durie, referência em mieloma, e a Susie Novis, na época presidente do IMF, que era uma instituição pequena. Fui com um amigo conhecer a IMF e o Dr. Brian. Eles tinham um manual para pacientes, explicando o mieloma, e fui perguntar se eu poderia traduzir para o português. Então, meu primeiro ABHH em Revista 12 / 2024 8 Vania com o Dr. Brien Durie, um dos fundadores da International Myeloma Foundation

trabalho internacional foi traduzir este manual para que os pacientes em todo o Brasil entendessem melhor todas as mudanças pelas quais estavam passando. E, desde então, sempre estive envolvida com os trabalhos do IMF e acabei me tornando cofundadora do IMF Latin America, junto com a presidente da instituição, Christine Battistini, que começamos em 2004. Recentemente, tive a honra de ser convidada pelo Dr. Vincent Rajkumar, que assumiu a presidência do Scientific Advisory Board, para fazer parte. Ou seja, comecei no IMF pedindo para traduzir um manual para pacientes e hoje faço parte do Scientific Advisory Board. É algo que me emociona! Recentemente você publicou um artigo no The New England Journal of Medicine. Isso coroa esses 40 anos de atuação com mieloma? Fui a primeira autora deste estudo clínico publicado em junho deste ano no New England (o título é “Belantamab Mafodotin, Bortezomib, and Dexamethasone for Multiple Myeloma”), um dos periódicos científicos mais influentes do mundo e de maior fator de impacto. Fiquei muito feliz! É um trabalho de uma vida inteira. A participação brasileira em estudos clínicos vem crescendo muito nos últimos anos e a participação nessa publicação apenas vem demonstrar isso. Ou seja, esse respeito em estudos, a evolução do tratamento de mieloma na América Latina, tudo isso culmina com o fato de sediarmos um evento enorme como o da International Myeloma Society. Então o ano de 2024 é o ano em que estamos colhendo tudo o que fomos plantando nas últimas décadas. Meu primeiro contato com uma instituição internacional de mieloma foi com a IMF em 1998 ao conhecer pessoalmente o Dr. Brian Durie, referência em mieloma, e a Susie Novis, na época presidente do IMF 12 / 2024 ABHH em Revista 9 Palestrando sobre mieloma durante uma edição do HEMO Registro do dia em que o Brasil foi escolhido como sede da reunião anual da IMS Comunicação/ABHH

ABHH em Revista 12 / 2024 10 debate ABHH NOVAS PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS DO MIELOMA Especialistas comentam sobre novas ferramentas que estão revolucionando o panorama do mieloma múltiplo, permitindo que os pacientes vivam mais Por Vinícius de Lima

N o último Congresso da European Hematology Association (EHA), em junho deste ano, um dos temas discutidos entre os especialistas foram os novos procedimentos e tecnologias para monitorar o mieloma múltiplo (MM). É consenso que estamos em uma nova era no tratamento da doença. Novas possibilidades terapêuticas foram desenvolvidas nas últimas duas décadas e hoje são realidade no tratamento da doença como as terapias monoclonais, o uso das células CAR-T e os tratamentos medicamentosos com anticorpos biespecíficos. Aproveitando que o Brasil sediará em setembro a reunião anual da International Myeloma Society (IMS), a reportagem da ABHH em Revista conversou com especialistas que integram a ABHH para apontar o potencial dessas perspectivas terapêuticas no tratamento do mieloma múltiplo. Diretora de Comunicação da ABHH e uma das grandes especialistas em mieloma no mundo, a Dra. Vania Hungria observa que o conhecimento e o tratamento do mieloma aceleraram muito nessas duas últimas décadas. “Quando comecei a tratar pacientes com a doença, em 1984, tratávamos com melfalano e prednisona e a sobrevida global era de dois anos. Hoje temos muitas medicações e tratamentos, com os pacientes vivendo mais. Da década de 1980 até os anos 2000, as coisas andaram, mas não aceleraram. Mas, a partir de 2004, tivemos uma acelerada impressionante no desenvolvimento de novos tratamentos”, analisa. Entre as razões para este avanço, Vania explica que houve um investimento muito maior por parte das indústrias farmacêuticas. “Antigamente ninguém queria cuidar desses pacientes porque não haviam muitas opções de tratamento. Hoje existem mais recursos para cuidar dessas pessoas. Antigamente havia poucas indústrias farmacêuticas envolvidas com a doença. Hoje são muitas indústrias e, com o desenvolvimento de imunoterapia, biespecífico, anticorpos monoclonais e CAR-T Cell, houve uma explosão de possibilidades terapêuticas para tratar os pacientes”, afirma. Desde 2010, podemos ver os chamados anticorpos monoclonais como nova ferramenta diagnóstica. Com base no rastreio da proteína monoclonal, tipo de proteína característica do mieloma múltiplo, os pesquisadores e especialistas têm aperfeiçoado a verificação da eficácia do tratamento. Pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), membro do Comitê de Gamopatias Monoclonais e também Diretor da ABHH, o Dr. Edvan Crusoé explica que a proteína monoclonal sempre foi foco para a identificação de atividade da doença. Afinal, a maioria dos pacientes com mieloma múltiplo a secretam na urina ou no sangue, e sua identificação é fundamental na avaliação de doenças secundárias, como a insuficiência renal. “O 12 / 2024 ABHH em Revista 11 O conhecimento e o tratamento do mieloma aceleraram muito nessas duas últimas décadas. Com o desenvolvimento de imunoterapia, biespecífico, anticorpos monoclonais e CAR-T Cell, houve uma explosão de possibilidades terapêuticas para tratar os pacientes com mieloma múltiplo Getty Images

acompanhamento da proteína possibilita a resposta ao tratamento”, explica o especialista. “Para monitorá-la, utilizamos técnicas como a imunofixação, a dosagem de cadeias leves livres no sangue e a espectrometria de massa, que é mais sofisticada. Cada tecnologia vem sendo mais sensível para detectar pequenas quantidades da proteína”, diz o presidente da ABHH, Dr. Angelo Maiolino, especialista em mieloma e professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Aprovações pela FDA Também com foco no monitoramento do MM, em abril deste ano, a FDA aprovou o uso da Doença Residual Mínima (DRM) ou Doença Residual Mensurável como desfecho em ensaios clínicos de mieloma. A aprovação da FDA é considerada histórica pelos especialistas porque demarca um parâmetro para o controle da doença, ainda incurável, podendo acelerar a aprovação de novos tratamentos nos Estados Unidos com repercussão em outros países. Coordenadora do Comitê de Pesquisa Clínica da ABHH, a Dra. Danielle Leão explica que, quando a proteína monoclonal não é detectada no sangue e na urina e tampouco são identificadas células cancerígenas na medula óssea, a existência de DRM é avaliada para rastrear uma menor quantidade das células cancerígenas. “Quando a Doença Residual Mínima é negativa, não significa que a doença deixou de existir, mas que há um controle grande”, diz. De todo modo, complementa Maiolino, o fato de a FDA demarcar esse parâmetro para o controle do mieloma significa que pacientes que tiverem DRM de 10-5 ou 10-6, ou seja, que tiverem a DRM em níveis suficientemente negativos, passam a ser considerados como pacientes com uma quantidade muito pequena do câncer no organismo: “Então, quanto mais profunda a resposta, melhor vai ser o desfecho”, observa o pesquisador. Atualmente, tecnologias como a citometria de fluxo e o PET-CT são utilizadas para avaliar a DRM. O Sequenciamento de Nova Geração (NGS, na sigla em inglês) está disponível apenas em pesquisa clínica no Brasil, mas já é realidade em outros países. Em aspectos gerais, o PET- -CT avalia por imagem se há a presença de uma atividade da doença; a citometria e o NGS examinam a existência de células do mieloma na medula ou no sangue periférico. Dessa maneira, uma combinação das tecnologias possibilita aos especialistas identificarem se o paciente está com uma DRM negativa. ABHH em Revista 12 / 2024 12 debate ABHH Cada vez mais o CAR-T vem para as linhas mais precoces de tratamento. Possivelmente em breve os pacientes poderão utilizar essas tecnologias na primeira recidiva

Com anticorpos monoclonais Desde 2010, surgiram os anticorpos monoclonais, proteínas artificiais que agem como anticorpos feitos pelo sistema imunológico. O anticorpo monoclonal mais significativo foi o daratumumabe, aprovado em 2015, que mudou a prática do tratamento da doença. Com células CAR-T Mais recentemente, tivemos o desenvolvimento de terapias de células CAR-T, que modificam geneticamente as próprias células imunes do paciente. Também há pouco tempo, a FDA aprovou dois medicamentos com CAR-T, inicialmente para o tratamento em fases mais tardias do mieloma. Com anticorpos biespecíficos Classe relativamente nova de medicamentos em mieloma múltiplo, os anticorpos biespecíficos são tratamentos bastante promissores. Três anticorpos biespecíficos, uma forma de imunoterapia pronta para uso, foram recentemente aprovados pela FDA. “Lembrando que medicina não é matemática. Portanto, ainda há pacientes que apresentam resposta contrária ao que se espera desses resultados. De todo modo, em pesquisa clínica, para termos a proteína monoclonal negativa controlada, levamos tempo acompanhando os exames. Nesse período, uma medicação, que poderia já estar sendo utilizada pelos pacientes, fica limitada aos estudos clínicos, sem chegar ao mercado”, ressalta a Dra. Danielle. Para a especialista, com a DRM como parâmetro como colocado pela FDA, os pesquisadores e especialistas poderão avaliar, meses ou anos antes, qual tratamento é melhor, qual leva a um controle extremamente profundo da doença, antecipando a chegada desse medicamento ao mercado. Com isso, haverá a perspectiva de uma sobrevida maior do paciente. Tratamento com tecnologia CAR-T Maiolino também analisa que a avaliação da DRM permite não esperar muito tempo para medir a sobrevida e traz uma possibilidade maior de aprovação de medicamentos, por exemplo, com a tecnologia CAR-T. Nesse sentido, recentemente a FDA aprovou dois medicamentos com CAR-T, inicialmente para o tratamento em fases mais tardias do mieloma. São elas: Idecabtagene vicleucel; Ciltacabtagene autoleucel, também aprovado pela Anvisa com a mesma indicação — para pacientes que foram expostos ao Bortezomibe e são refratários à Lenalidomida. “Isso significa que cada vez mais o CAR-T vem para as linhas mais precoces de tratamento. Possivelmente em breve os pacientes poderão utilizar essas tecnologias na primeira recidiva”, analisa Maiolino. Quanto mais cedo forem utilizadas, Novos tratamentos para o MM 12 / 2024 ABHH em Revista 13

maior a chance de um prognóstico mais positivo para os pacientes. No entanto, no Brasil, o CAR-T ainda é utilizado apenas em ensaios clínicos ou após o uso das duas linhas de tratamento. A Dra. Danielle, pesquisadora clínica em onco- -hematologia no Hospital Beneficência Portuguesa em São Paulo, comenta que a possibilidade de fazer o tratamento com CAR-T é significativa no tratamento do mieloma recaído ou refratário, inclusive conseguindo manter a doença controlada profundamente, com DRM negativa por mais tempo. “É o que chamamos de DRM sustentada, o que é importante para o prognóstico. Por isso, a aprovação de tecnologias CAR-T é necessária porque cada vez mais os pacientes têm usado as classes de terapias disponíveis e têm ficado com poucas opções de medicamentos efetivos já na segunda linha de tratamento”, esclarece. Além disso, a redução de toxicidade, isto é, as reações tóxicas decorrentes do uso de determinadas medicações, é um aspecto importante no uso do CAR-T. Maiolino conta que, no Brasil, a Anvisa aprovou um CAR-T para mieloma, o Ciltacabtageno autoleucel, e recentemente aprovou o Ciltacabtagene autoleucel para pacientes com mieloma expostos a inibidor de proteassoma, a imunomodulador e ao anticorpo CD38 — esta última indicação, exposto ao Bortezomibe e refratário à Lenalidomida. “Diante desse cenário de novas perspectivas terapêuticas, as aprovações da FDA podem ter impacto aqui e, evidentemente, temos os vários aspectos regulatórios e de incorporação de medicamentos. Mas atuamos para a celeridade desses processos.” Na visão dos especialistas, esta perspectiva é de otimismo em relação às novas tecnologias como o CAR-T. De acordo com o Dr. Crusoé, a terapia tem impacto no monitoramento do mieloma e, a partir disso, é possível verificar quais pacientes se beneficiarão mais: “O que buscamos agora é ter respostas mais profundas, uma vez que isso irá se traduzir cada vez mais numa sobrevida melhor para os pacientes, em especial, os que têm a doença mais agressiva e em fases mais precoces”, conclui. Improved overall survival of transplant eligible newly diagnosed multiple myeloma patients in a Chilean public center. How did we achieve it? Real-Life Experience with Pomalidomide plus Dexamethasone in Patients with Multiple Myeloma: A Single Center Retrospective Study A very rare relaps type in Multiple Myeloma: leptomengeal and cranial involvement A Case of Multiple Myeloma with Atypical Cutaneous Presentation Treated by Daratumumab + CYBORG Conteúdos recentes sobre mieloma na Hematology, Transfusion and Cell Therapy (HTCT) ABHH em Revista 12 / 2024 14 debate ABHH

12 / 2024 ABHH em Revista 15 Apesar de ser considerado um tipo de doença rara – 1% de todos os tipos de câncer e cerca de 12 a 15% das neoplasias hematológicas – o mieloma múltiplo é uma doença que vem ganhando muita relevância. Uma série de tratamentos inovadores estão mudando a história natural dessa doença. Quando comecei a trabalhar com mieloma, vivíamos um cenário muito obscuro em relação à questão do tratamento. As opções eram extremamente limitadas. Tínhamos o melfalano e a combinação de poliquimioterapia, particularmente, o esquema VAD (vincristina, adriblastina e dexametasona). Depois veio o transplante autólogo de medula óssea, que foi, sem dúvida nenhuma, uma revolução no tratamento do mieloma, mas que não era para todos os pacientes. Pacientes mais idosos, acima de 75 anos, não podiam receber o procedimento pelo grau de toxidade. Mas o transplante foi o início de um processo de evolução e revolução no tratamento e ainda hoje é uma ferramenta muito importante para o tratamento do mieloma. Na sequência, tivemos as aprovações regulatórias dos medicamentos mais inovadores, drogas alvo, pertencentes a três grandes classes: Inibidores de Proteassoma (bortezomibe, carfilzomibe e ixazomibe); Imunomoduladores (talidomida, lenalidomida e pomalidomida) e a terceira classe que que são os anticorpos monoclonais: o anti-CD 38, representado pelo daratumumabe e isatuximabe; e o anti-SLAMF7, representado pelo elotuzumabe. Mais recentemente foram aprovados os tratamentos à base de anticorpos biespecíficos (teclistamabe, elranantamabe e talquetamabe) e o ciltacabtagene autoleucel (Cilta-Cell), que é o primeiro CAR-T Cell para mieloma múltiplo aprovado no Brasil. Esse conjunto de medicamentos já estão aprovados, e em sua grande maioria são disponibilizados para os pacientes do sistema privado de saúde. Existem dificuldades relacionadas ao acesso também no sistema privado, mas quando olhamos para o sistema público de saúde, há uma enorme disparidade. Destes medicamentos inovadores, foram incorporados ao SUS a talidomida, aprovada há mais tempo e o bortezomibe, aprovado há quatro anos. Sem dúvida foi um grande avanço ter o bortezomibe, e aqui é preciso enaltecer o papel decisivo da ABHH e seu comitê de acesso para fazer com que o bortezomibe chegasse aos pacientes do sistema público de saúde. Recentemente conseguimos incorporar o carfilzomibe, mas ainda não foi aprovada a APAC que vai determinar o reembolso. Podemos perceber, assim, um grande desequilíbrio entre os sistemas de saúde. A luta para a aprovação das medicações no Brasil para os pacientes com mieloma múltiplo continua e a ABHH trabalha para que haja esse equilíbrio e equidade. Acesso a tratamentos inovadores para mieloma múltiplo no Brasil a r t i g o Quando comecei a trabalhar com mieloma, vivíamos um cenário muito obscuro em relação à questão do tratamento. As opções eram extremamente limitadas Dr. Angelo Maiolino Presidente da ABHH e professor de Hematologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) 12 / 2024 ABHH em revista

ABHH em Revista 12 / 2024 16 HEMO 2024 Congresso da ABHH deste ano terá novidades em sua programação científica, aumento da área global do congresso e parceria com a Society of Hematologic Oncology (SOHO), entre outros destaques Da RedaçãoO Congresso Brasileiro de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (HEMO) acontecerá entre os dias 23 e 26 de outubro no Transamerica Expo Center, em São Paulo. O Congresso, que representa o encontro anual mais importante das atividades científicas e sociais promovidas pela ABHH, tem novidades neste ano. Um dos destaques do HEMO 2024 será a parceria, pela primeira vez, com a Society of Hematologic Oncology (SOHO), que terá um estande no HEMO e realizará duas sessões científicas conjuntas. A SOHO tem como objetivo promover a pesquisa mundial, educação, prevenção, estudos clínicos e atendimento ideal ao paciente em todos os aspectos de malignidades hematológicas e distúrbios relacionados. Outra novidade é a Arena Diálogos Abertos, espaço aberto no congresso para a realização de aulas curtas de 30 minutos, apenas durante os intervalos da programação científica. Presidente do HEMO 2024, a Dra. Silvia Meira Magalhães destaca que o Congresso da ABHH é uma oportunidade anual para ampliar a rede de relacionamentos e contatos, além de trocar informações e conhecimentos. “Nosso grande encontro está ainda maior, melhor e mais rico. Estamos maiores em área física e em novas parcerias. Teremos encontros educacionais, sessões conjuntas e simpósios com parceiros como a Associação Ítalo-Brasileira de Hematologia, a American Society of Hematology e a European Hematology Association, além da nova parceria com a SOHO. Reuniremos as várias comunidades que compõem as equipes multidisciplinares, fórum de acesso e equidade com participação das associações de pacientes, programas dedicados aos residentes, às ligas acadêmicas e muito mais. Será um evento plural”, diz. Novidades no HEMO 2024

12 / 2024 ABHH em Revista 17 Confira a programação completa e garanta a sua inscrição no HEMO 2024 +Arena Diálogos Abertos Trata-se de um espaço aberto com cadeiras e fones de ouvidos (com capacidade para 30 lugares) dentro da área de exposição do HEMO. O espaço será destinado para a realização de aulas curtas de 30 minutos e apenas durante os intervalos da programação científica. Os temas abordados na arena serão Acesso, Equidade, Diversidade e Pesquisa Clínica, dentre outros. Sessões conjuntas com a Society of Hematologic Oncology (SOHO) Nova parceria internacional da ABHH, a SOHO estará presente pela primeira vez na programação do HEMO. Além de um estande próprio, a SOHO terá duas sessões científicas conjuntas no dia 25/10 (sexta-feira), a partir das 8h30, sobre leucemia mieloide aguda (LMA) e síndromes mielodisplásicas (SMD). As sessões terão a presença da Dra. Amy Dezern (professora de Oncologia e Medicina na Johns Hopkins University School of Medicine), do Dr. Rami Komrokji (vice-presidente do Departamento de Hematologia Maligna do Moffitt Cancer Center) e da Dra. Gail Roboz (diretora do Programa de Leucemia Clínica e Translacional do Weill Medical College da Cornell University). Bootcamp para Jovens Hematologistas É uma das iniciativas do Programa de Apoio da Residência Médica da ABHH. O Comitê de Residência Médica da ABHH (formado pelos Drs. Celso Arrais, Eduardo Rego e Dante Langhi) está desenvolvendo um programa inédito e customizado junto ao SUPERA Parque de Inovação e Tecnologia. Será uma atividade baseada em casos clínicos na qual será demonstrada toda a jornada do paciente, desde o diagnóstico até os momentos críticos. Ampliação das iniciativas com Advocacy Neste ano, a praça de Advocacy no HEMO 2024 contará com a participação de um número maior de associações de especialidades e pacientes. O Fórum de Acesso a Medicamentos e Equidade terá a participação ativa das associações de pacientes em uma das sessões. Aumento da área do congresso Para melhor acomodar o crescente número de participantes e expositores do evento, a ABHH aumentou a área global do congresso com a locação de um pavilhão adicional. Foram aumentadas as capacidades de todos os auditórios e salas, corredores de circulação entre os estandes, áreas do restaurante/praça de alimentação, dentre outras mudanças. Além disso, a ABHH instalará totens para a retirada de crachá, permitindo maior agilidade e rapidez dos congressistas. Celebração dos 15 anos da ABHH e do Dia Oficial do Hematologista e Hemoterapeuta Durante o HEMO, serão celebradas duas efemérides: os 15 anos de criação da ABHH e a criação, neste ano, do Dia do Hematologista e Hemoterapeuta, data que será comemorada todo ano no dia 29 de outubro. A data é uma referência à fusão da Sociedade Brasileira de Hematologia e do Colégio Brasileiro de Hematologia, em 2008. Da união das duas entidades, nasceu a ABHH.

ABHH em Revista 12 / 2024 18 em perspectiva Cuidados paliativos na hematologia Integrantes do Comitê de Cuidados Paliativos da ABHH falam sobre a nova política e evolução dos cuidados paliativos nas doenças hematológicas Por Helena Geraldes

12 / 2024 ABHH em Revista 19 E m maio deste ano, o Ministério da Saúde oficializou a instituição da Política Nacional de Cuidados Paliativos (PNCP) no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). A política determina que os cuidados paliativos serão ofertados o mais precocemente possível no curso de qualquer doença ameaçadora da continuidade da vida. Na definição da PNCP, cuidados paliativos são as ações e os serviços de saúde para alívio da dor, do sofrimento e de outros sintomas em pessoas que enfrentam doenças ou outras condições de saúde que ameaçam ou limitam a continuidade da vida (saiba mais sobre a importância da nova política ao final desta matéria). O conceito de cuidados paliativos tem suas bases históricas e conceituais na década de 1960, no Reino Unido, com a médica Cicely Saunders, uma das pioneiras no uso dos cuidados paliativos para o tratamento dos pacientes. Ciente da necessidade de expandir o assunto para os hematologistas, a ABHH criou, em 2021, o Comitê de Cuidados Paliativos, composto por hematologistas e paliativistas. Seu objetivo é aprimorar a qualidade de vida e impactar positivamente o curso das doenças em pacientes hematológicos, que enfrentam desafios constantes relacionados a doenças graves e potencialmente fatais, tanto em casos de neoplasias hematológicas quanto em diversas condições classificadas como benignas. A evolução dos cuidados paliativos ao longo das décadas e sua importância para a hematologia foram assuntos abordados em um episódio recente do HEMOPlay Podcast, o podcast da ABHH. O bate-papo contou com a participação das médicas hematologistas e paliativistas Amanda Pifano e Laura Ferraz, coordenadora e membro do Comitê de Cuidados Paliativos da ABHH, respectivamente. Para a Dra. Amanda, há um interesse crescente dos hematologistas em relação ao assunto. “Estamos discutindo não só por meio do comitê, mas dentro dos diversos lugares em que trabalhamos a discussão dessa integração dos cuidados paliativos no tratamento do paciente hematológico, mas principalmente de como os cuidados paliativos podem aprimorar o cuidado com o paciente. O hematologista é um médico muito completo, mas temos várias defasagens na nossa formação. Mesmo nas doenças benignas na hematologia, nós estamos lidando com o sofrimento o tempo todo”, analisa a médica paliativista. Há uma grande mudança de paradigma sobre cuidados paliativos, acrescentou a Dra. Laura, em que saímos do ultrapassado modelo biomédico e caminhamos para um novo modelo bioético em sociedade que envolve também a medicina baseada em valor. “Nossos modelos atuais de prestação de cuidados não são sustentáveis a longo prazo, e isso faz com que novos modelos sejam estudados e avaliados. E esse novo modelo de medicina baseada em valor, em que temos a medicina baseada em evidências em associação com os valores, preferências e necessidades dos pacientes e suas famílias — algo que era invisível até pouco tempo atrás —, associado a uma avaliação de custo-efetividade, de efeito, eficácia e eficiência, isso tudo coloca muito em voga os cuidados paliativos. Não temos como praticar essa nova medicina se não tivermos habilidades e conhecimentos que venham desse lugar dos cuidados paliativos”, analisou a especialista durante o episódio do HEMOPlay Podcast. Cuidados paliativos não são apenas sobre o fim da vida Outro recorte que as especialistas trouxeram foi que o conceito de cuidados paliativos costuma ser mal interpretado por hematologistas como sendo o atendimento no fim de vida, quando todas as opções de tratamento curativo se esgotaram. Segundo elas, isso é um obstáculo para sua aplicação. “O conceito nasceu realmente do cuidado aos pacientes terminais, e eles, até pouco tempo atrás, eram O entendimento de que o sofrimento causado pela trajetória do adoecimento é complexo a ponto de uma única especialidade ou nicho de conhecimento não conseguir abraçar todas as dimensões do sofrimento é muito recente e os cuidados paliativos estão caminhando para isso Getty Images

ABHH em Revista 12 / 2024 20 em perspectiva invisíveis para a medicina em geral. Então, os cuidados paliativos ocuparam esse lugar do cuidado das pessoas sem perspectivas. Mas, nas últimas décadas, os cuidados paliativos modernos mudaram, e o nosso enfoque hoje não é mais o cuidado de fim de vida, mas a complexidade do sofrimento humano. O entendimento de que o sofrimento causado pela trajetória do adoecimento é complexo a ponto de uma única especialidade ou nicho de conhecimento não conseguir abraçar todas as dimensões do sofrimento é muito recente e os cuidados paliativos estão caminhando para isso”, pontua a Dra. Laura Ferraz. Nesse processo de adoecimento, complementou a Dra. Amanda, não adoece apenas o paciente, mas todo o meio em que ele convive. “Para dar suporte para esse cuidador, para essa família, para a rede de apoio do paciente que também entra com outras demandas, é necessário um time, uma equipe. A gente começa a perceber que, mais do que encaminhar, é integrar para que se trabalhe em Em maio deste ano, o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Cuidados Paliativos (PNCP) no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), garantindo que os cuidados paliativos sejam prestados de forma integral e humanizada em todos os níveis de atenção do Sistema Único de Saúde (SUS). Isso significa que o cuidado deve estar centrado na pessoa e em suas necessidades, levando em consideração seus valores, crenças e desejos. A PNCP também prevê a capacitação de profissionais em cuidados paliativos, a promoção da pesquisa nessa área e a ampliação do acesso a medicamentos e insumos necessários para o cuidado. conjunto com foco em uma melhoria de qualidade de vida não só do paciente, mas de todo o entorno, incluindo não apenas o próprio hematologista, mas os profissionais envolvidos”, destacou. Os cuidados paliativos são indicados em quaisquer situações em que há uma carga de sintomas importante e/ ou uma doença potencialmente ameaçadora da vida, seja qual for a probabilidade de cura. E a literatura científica sobre essa abordagem já demonstra seu impacto positivo na assistência aos pacientes submetidos ao transplante de medula óssea alogênico, assim como favorece os pacientes portadores de doenças hematológicas benignas devido à elevada carga de sofrimento biopsicossocial. Ouça a íntegra do bate-papo sobre cuidados paliativos no HEMOPlay Podcast Segundo o Ministério da Saúde, existem cerca de 625 mil pessoas que precisam de cuidados paliativos. “Atualmente, no Brasil, a maior parte da oferta de serviços de cuidados paliativos está concentrada no estado de São Paulo e, por isso, é desigual. A implementação de uma política pública federal permitirá mapear e ter uma visão mais precisa dos recursos disponíveis no SUS, oferecendo serviços e treinamento especializado em regiões carentes, além de fortalecer os serviços existentes e desenvolver programas de educação continuada”, destacou a Dra. Amanda Pifano, coordenadora do Comitê de Cuidados Paliativos da ABHH. Brasil tem agora uma Política Nacional de Cuidados Paliativos

12 / 2024 ABHH em Revista 21 A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) aprovou este ano o uso do medicamento BRUKINSA® (zanubrutinibe) para o tratamento de leucemia linfocítica crônica (LLC) e linfoma linfocítico de pequenas células (LLPC) em pacientes adultos, tanto sem tratamento prévio quanto recidivantes/refratários. Essa nova aprovação baseia-se nos resultados de dois ensaios clínicos globais de Fase 3, sendo cenário sem tratamento prévio (estudo SEQUOIA) e no cenário recidivante/refratário (estudo ALPINE). O estudo SEQUOIA demonstrou uma sobrevida livre de progressão de 86% em 2 anos para pacientes sem del(17p), enquanto o estudo ALPINE apresentou uma taxa de resposta global significativamente maior, sendo de 78,3% em pacientes recidivantes/refratários. Esses resultados reforçam o potencial de BRUKINSA® como a opção preferida entre os inibidores da tirosina quinase de Bruton (BTKi). Com esta nova indiciação, BRUKINSA® (zanubrutinibe) ampliou seu uso para um total de quatro aprovações voltadas para diferentes tipos de câncer do sangue. Esse avanço reflete o compromisso da BeiGene em fornecer tratamentos inovadores e eficazes para um número crescente de pacientes. A leucemia linfocítica crônica (LLC) e o linfoma linfocítico de pequenas células (LLPC) são formas de câncer de progressão lenta, que afetam principalmente adultos com mais de 50 anos. Esses tipos de câncer representam desafios significativos tanto para a comunidade médica quanto para os pacientes, devido à sua natureza crônica e ao impacto prolongado na qualidade de vida. A aprovação de BRUKINSA® representa um avanço importante no tratamento da LLC/LLPC, proporcionando uma nova esperança para pacientes e suas famílias. Aprovação do BRUKINSA® (zanubrutinibe) pela ANVISA para o Tratamento de Leucemia Linfocítica Crônica e Linfoma Linfocítico de Pequenas Células 0824-BRU-PRC-135 Acesse a bula: INFORME CORPORATIVO O conteúdo deste informe é de inteira responsabilidade da empresa e não representa necessariamente a opinião da ABHH.

ABHH em Revista 12 / 2024 22 cobertura RECORDE DE PÚBLICO Mais de 3 mil pessoas participaram da 3ª Corrida e Caminhada Um Só Sangue, em São Paulo, correndo e caminhando pela causa da doação de sangue no Brasil Por Danilo Gonçalves e Tássia Lourenço O dia 30 de junho foi uma data especial para a produtora e naturóloga Giovanna Pauletto. Acostumada a participar de eventos de corrida de rua, ela foi uma das mais de 3 mil pessoas que acordaram bem cedinho para participar da 3ª Corrida e Caminhada Um Só Sangue, evento organizado pela ABHH, em parceria com a Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (ABRALE) e a Associação Brasileira de Talassemia (ABRASTA), que aconteceu no Campo de Marte, em São Paulo. Este ano, o evento desafiou os participantes com percursos de três, cinco e 10 quilômetros e proporcionou atividades lúdicas, como dança e recreação para crianças (que também puderam participar na categoria kids) e massagem para todos celebrarem o real motivo do evento: a conscientização sobre a importância da doação de sangue. “Treinamos em climas diferentes para, no dia D, testar tudo o que se vivenciou até ali”, relembrou sobre a manhã de frio e garoa daquele 30 de junho, um

12 / 2024 ABHH em Revista 23 tempo que não foi nem um pouco diferente das duas edições anteriores da Corrida da ABHH, das quais Giovanna também participou. “Foi muito especial para mim. Voltei da Corrida falando sobre muitas coisas boas, sobre atrairmos realmente aquilo que vibramos, sobre viver essa jornada”, conta Giovanna, de 26 anos. Quem também marcou presença foi o casal Ana Paula e Wilson, que gosta de praticar exercícios físicos e registrar as corridas que participam no perfil @casalgoodvibes10, no Instagram. “Foi um evento maravilhoso, que trata de uma grande mobilização social, por meio do esporte para conscientizar pessoas sobre a necessidade de doar, a fim de que os institutos possam repor os seus estoques de sangue. Parabéns à organização da Corrida e a todos os participantes”, postaram na rede social. A jornalista Fernanda Spagnuolo também participou de todas as edições da Corrida e Caminhada Um Só Sangue. Para ela, o evento da ABHH tem um gostinho especial: foi a partir da edição de 2022 da Corrida que ela decidiu fincar o pé nas corridas de rua. “Foi nela que decidi virar a chavinha, fincar o pé na corrida de rua e começar a me cuidar. Foi o dia em que criei meu pódio particular, me parabenizei e comecei a comemorar cada feito na vida pessoal/ esportiva e na vida profissional. Posso dizer que estou comemorando dois anos de uma nova Fernanda”, escreveu em seu perfil. Já o evento para a psicóloga Daniella Fujii ganhou outra textura: ela precisou de muitas bolsas de sangue para sobreviver e correu 10 quilômetros na edição deste ano. Em um reels gravado por sua amiga no Instagram, Daniella deu um depoimento emocionado sobre o significado da corrida da ABHH para ela. “Quero honrar cada pessoa que doou sangue e Fotos: Angélica Alves/ABRALE

ABHH em Revista 12 / 2024 24 cobertura proporcionou que eu estivesse aqui hoje e completasse 10 quilômetros. Se não fosse pela doação de sangue, eu jamais, jamais estaria correndo (...). Doe sangue porque é muito importante. Isso salva vidas e eu sou uma prova.” Presidente da ABHH, o Dr. Angelo Maiolino exaltou a importância da mobilização da sociedade em prol da doação de sangue. “Todo ano, o Brasil historicamente vivencia baixas em estoques de banco de sangue, e esse problema só pode ser resolvido com o incentivo à doação voluntária. A Corrida é um dos marcos do Junho Vermelho dentro de um Programa da ABHH, o Programa Um Só Sangue, que fala sobre doação de sangue o ano todo”, disse. Siga o perfil @umsosangue nas redes sociais. A 3ª Corrida e Caminhada Um Só Sangue contou com os patrocínios da TriMais (cota diamante), Astrazeneca e Andorinha (cota ouro), Blau Farmacêutica, HapVida (cota prata), Knight, Roche, Teva Farmacêutica, Sicredi, Janssen Farmacêutica, Básica Montadora e SF3 (cota bronze), além do apoio da Agência RS Health, Passeg, Hoppe Assessoria Contábil, Terumo, Cryopraxis, GSC Consult, TJN Locações, Live Events, Caixa Consórcio, Da Terrinha, AESABESP, Studio Arquitetura Promocional, Gran Mata Café Especial, BMF Trade, Ramari e Santana Parque Shopping. Alguns registros da 3ª Corrida e Caminhada Um Só Sangue

12 / 2024 ABHH em Revista 25

ABHH em Revista 12 / 2024 26 cobertura Curso de Hemostasia e Trombose teve 160 inscritos Nos dias 17 e 18 de maio, a ABHH realizou seu Curso Educacional de Hemostasia e Trombose em Belo Horizonte (MG) com 160 inscritos. A programação abordou de forma prática os diferentes aspectos das doenças hemorrágicas e trombóticas, capacitando para interconsultas de diferentes especialidades. A abertura contou com a participação do diretor da ABHH, Dr. Glaciano Ribeiro, e da Dra. Ana Clara Kneese, coordenadora do Comitê de Hemostasia e Trombose da ABHH, além das médicas Suely Rezende e Dayse Maria Lourenço e do médico Daniel Dias Ribeiro, membros do comitê. O curso da ABHH teve quatro mesas-redondas e dois simpósios satélites, que contaram com a participação de mais de 15 especialistas, que conversaram sobre as novas diretrizes em SAAF e trombofilias hereditárias, as comorbidades nas doenças hemorrágicas, as plaquetopenias e a hemostasia e a trombose na mulher. O curso encerrou sua programação com uma sessão de apresentação de quatro casos sugeridos pelos participantes. Todas as palestras estão disponíveis na Hemoteca. C M Y CM MY CY CMY K VI Encontro de Hematologia e Hemoterapia Pediátrica reuniu 150 pessoas Já nos dias 7 e 8 de junho, em São Paulo, a ABHH realizou o VI Encontro do Comitê de Hematologia e Hemoterapia Pediátrica da ABHH. O encontro reuniu 150 pessoas, e a programação trouxe cerca de 20 especialistas que debateram sobre os avanços e desafios em diagnóstico e tratamento para doenças onco-hematológicas no público infantil. Coordenadora do Comitê de Hematologia e Hemoterapia Pediátrica da ABHH, a Dra Sandra Loggetto celebrou mais um encontro de sala cheia com a presença de 150 pessoas. Nas mesas-redondas, os especialistas discutiram inúmeros temas relevantes como o tratamento das leucemias pediátricas no Brasil, o transplante em pacientes com Anemia Falciforme, o tratamento de lactentes com LLA e a implantação do Patient Blood Management (PBM) na pediatria, por exemplo. Nas conferências, os temas abordados foram sobre terapia gênica, onco-hematologia (apresentando os resultados preliminares do Grupo Brasileiro de Tratamento da Leucemia na Infância e do Grupo de Estudos de Leucemia Mieloide Aguda Infantil) e sobre os avanços na hemofilia.

12 / 2024 ABHH em Revista 27 IMPACTO 2,1 FATOR DE www.htct.com.br Submeta seu trabalho cientí co Principal revista cientí ca da área de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular da América Latina. + 400 artigos submetidos anualmente Aceita na Plataforma Web Of Science Indexada nas bases de dados Scopus, Scielo Brasil e Pubmed/PMC 1ª Colocação no ranking da Scimago na América Latina Publicação cientí ca trimestral da ABHH, AIBE, EHOG e SOBOPE

ABHH em Revista 12 / 2024 28 Médica e multiartista Dayse com seu primeiro romance lançado este ano em São Paulo perfil

Divulgação 12 / 2024 ABHH em Revista 29 A médica hematologista, professora, escritora e pintora Dayse Lourenço transformou sua carreira em um grande palco de aprendizado e descobertas Por Madson de Moraes O dia 30 de julho desse ano representou um marco na carreira da médica hematologista e professora Dayse Lourenço, de 68 anos de idade. Longe da rotina do consultório, das palestras em congressos e eventos científicos sobre hemostasia e trombose e das orientações a alunos de graduação e pós-graduação na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), aquele foi o dia em que Dayse lançou seu primeiro romance, Mulheres de Soneto (Ed. Folhas de Relva, 184 páginas), em São Paulo. O livro conta a história do menino Carlos, que encontra um poema escrito pelo pai dedicado a uma mulher e, a partir daí, resolve descobrir quem é essa pessoa. A noite de autógrafos na capital paulista foi rodeada de amigos e amigas queridas. A paixão pela literatura e pintura e o desejo de ser médica plantaram suas primeiras sementes ainda durante a infância. Dayse nasceu em 1956, na cidade de Barbacena, no interior de Minas Gerais. Mas, aos cinco anos, toda a família precisou se mudar para São Paulo porque o pai passou em um concurso do Banco do Brasil. O amor pelas palavras nasceu quando ela ganhou de presente a coleção de livros infantis de Monteiro Lobato. Já o desejo de ser médica teve uma boa influência da avó, Dona Magdalena, parteira conhecida em todo o bairro em Barbacena. Por pouco, conta Dayse, ela mesma não nasceu pelas mãos da avó. “Fui sua primeira neta e, após horas de suplício da minha mãe, minha avó foi obrigada a ceder a honra de me trazer ao mundo ao Dr. Agostinho, médico local. Já meu irmão teve o privilégio de vir por suas mãos. Os dois últimos irmãos tiveram que nascer em São Paulo, na maternidade, fora de seu alcance. Era uma mulher alta, firme e até geniosa, que sabia quando ‘era a hora’. É muito importante saber quando ‘é a hora’, e ela tinha total domínio sobre este conhecimento. Eu a via sair à noite, no meio da noite, com desconhecidos que vinham buscá-la com a voz angustiada: será que chegou a hora, dona Magdalena? E lá ia ela com seu poder de decidir a hora”, recorda-se. Outra paixão dessa hematologista multiartista é a pintura, atividade a que se dedica com menos frequência do que aos poemas que costuma escrever. “Desenho desde a infância. Pintei óleo sobre tela e depois aquarela e pastel seco. Era fascinada por quem sabia dominar o traço criando formas com beleza e precisão. Desenhava e pintava sempre. Eu desenhava tudo o que conseguia e adorava os personagens do Walt Disney. Mas hoje sou uma pintora bissexta”, brinca. A decisão de ser médica Já no colegial, Dayse conta que precisou fazer sua primeira decisão para um rumo: fazer um curso de inglês ou estudar na Escola Pan-americana de Arte. Escolheu a primeira opção por entender que seria mais útil, mas sem nunca abandonar o desenho e a pintura. “Descobri o significado de passar por uma encruzilhada: escolher um caminho e segui-lo em detrimento de todos os outros. Com Manuela e Caio, seus filhos Com o Prof. Meyer Samama durante um congresso da ISTH

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