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#congressocosemssp2026 #congressocosemssp2026 O envelhecimento da população brasileira desafia o SUS a reorganizar o modelo assistencial, fortalecer a atenção primária e rever o financiamento para garantir cuidado integral, integrado e sustentável às pessoas idosas O QUE ESPERAR DO SUS DIANTE DO ENVELHECIMENTO DA POPULAÇÃO Brasil vive uma transformação profunda. A população envelhece e altera de forma estrutural as demandas sobre o sistema público de saúde. O que antes era um país majoritariamente jovem caminha para se tornar uma nação de idosos, cenário que exigirá do Sistema Único de Saúde (SUS) capacidade de adaptação, reorganização do cuidado e financiamento sustentável. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que o número de pessoas com 60 anos ou mais dobrou entre 2000 e 2023 e deve superar o de jovens nas próximas décadas. Como 75% das pessoas idosas dependem exclusivamente da rede pública e cerca de 70% convivem com doenças crônicas, especialistas avaliam que esse quadro reforça a necessidade de fortalecer a atenção primária, ampliar ações de promoção e prevenção e rever o financiamento tripartite. A pressão tende a recair sobretudo sobre os municípios, que aplicam, em média, 26% da receita própria em saúde, percentual acima do mínimo constitucional. Um estudo de 2023 do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde indica que o sistema ainda não está preparado para essa transição, já que a oferta de profissionais e de estruturas especializadas é limitada e pouco avançou na última década. Superar a fragmentação da assistência Nos últimos anos, o Brasil instituiu políticas públicas voltadas à população idosa como a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, o Estatuto da Pessoa Idosa, a Estratégia Saúde da Família e a Política Nacional de Cuidados. O desafio agora, apontam especialistas, é transformar esses marcos legais em capacidade efetiva de organização e oferta de serviços. Para Marisa Accioly Domingues, doutora em Saúde Pública, pesquisadora e docente da Universidade de São Paulo, embora o SUS tenha acumulado esses avanços na promoção da saúde e na prevenção de doenças, a organização da assistência ainda mantém forte orientação para eventos agudos. Esse modelo, segundo ela, não responde adequadamente às necessidades de CAPA CAPA Rafa Neddermeyer/Agência Brasil quem convive por anos com múltiplas condições crônicas e demanda cuidado continuado. Ela defende a consolidação de uma gestão gerontológica do cuidar, abordagem que ainda não está plenamente difundida na rede pública. A proposta é ir além da dimensão exclusivamente clínica e incorporar uma visão biopsicossocial do envelhecer. “O desafio é superar a fragmentação da assistência e organizar a rede de forma articulada, com foco nas necessidades reais do idoso. Isso implica considerar sua rede relacional, o território onde vive e os determinantes sociais que influenciam sua condição de saúde”, ressalta Marisa, especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Transversalidade no cuidado Organizar o cuidado à pessoa idosa é um desafio permanente para sistemas de saúde em todo o mundo e não apenas no Brasil na avaliação do médico Carmino Antônio de Sousa, ex-presidente do COSEMS/SP e atual vice-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). No país, afirma, o ponto central está na articulação entre os diferentes níveis de atenção. Já o principal gargalo é a falta de transversalidade no cuidado. “É preciso garantir integração efetiva dentro do sistema de saúde, seja público, seja privado. Os maiores problemas aparecem justamente na transição entre os níveis de atenção, quando o paciente sai da atenção primária e precisa ser encaminhado, no momento certo, para o atendimento especializado ou para novos procedimentos”, comenta o médico. Isso implica fortalecer as ações de promoção e prevenção em saúde e assegurar maior integração entre a atenção primária e a atenção especializada ao longo da jornada do paciente. Se a reorganização do cuidado já representa um desafio estrutural diante do envelhecimento da população, o subfinanciamento histórico do SUS é um dos entraves para a sustentabilidade do sistema. Para Carmino, o modelo atual requer maior participação do governo federal no custeio de modo a assegurar equilíbrio federativo e estabilidade à rede pública. “Os municípios já chegaram ao seu limite. Os estados têm buscado alcançar e até ultrapassar o mínimo constitucional, destinando mais recursos à saúde. Mas, infelizmente, a participação da União vem diminuindo ao longo do tempo”, lamenta. Sem a recomposição dos recursos e a revisão do pacto federativo na saúde, acrescenta, a tendência é de sobrecarga das redes locais e de maior dificuldade para organizar um cuidado integral e contínuo à pessoa idosa no SUS. Território como eixo do cuidado Se o financiamento condiciona a capacidade de resposta do sistema, a integração entre políticas públicas define a qualidade desse cuidado. Outro desafio é implantar o cuidado integrado de forma homogênea em todo o território nacional. Para Marisa, essa transformação depende de articulação mais efetiva entre as políticas de saúde e de assistência social, especialmente no âmbito local. “A integração entre sistemas é vital. As velhices são múltiplas e profundamente marcadas por determinantes sociais que precisam ser considerados na formulação das políticas públicas, como habitação, renda e condições de moradia. Esses fatores impactam diretamente a qualidade da velhice e até mesmo a possibilidade de as pessoas chegarem a essa fase da vida”, observa. Nesse contexto, a Atenção Básica, porta de entrada do SUS, assume papel estratégico por estar mais próxima do território e das realidades sociais da população. No estado de São Paulo, a cobertura da Atenção Básica é de 68,7%, enquanto a da Estratégia Saúde da Família alcança 55,2%. Os índices indicam avanços, mas também evidenciam a necessidade de ampliar e qualificar o cuidado diante do envelhecimento. Para Marisa, isso significa reconhecer que o envelhecimento saudável não depende apenas da oferta de serviços de saúde, mas de políticas públicas capazes de enfrentar os determinantes sociais. “Quando entendemos a saúde como construção social, passamos a considerar os fatores que influenciam a qualidade de vida das pessoas idosas”, afirma. 5 4 Abril | 223 Artigo “A necessidade de um novo olhar sobre o envelhecimento” Cartilha para criação de órgãos estaduais e municipais de Direitos Humanos da Pessoa Idosa Vídeo “Cada território tem seus desafios, suas histórias e suas urgências” Artigo “Envelhecimento e doenças crônicas desafiam SUS e reforçam papel dos municípios na saúde” Recursos e leituras para aprofundar o tema

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