Nos últimos dois anos, a ABHH ampliou iniciativas e projetos voltados à integração entre acesso à ciência, equidade e impacto social, reforçando seu compromisso com o avanço da saúde, da ciência e da pesquisa no Brasil GESTÃO 2024-2025 Palestrante do HEMO 2025, o epidemiologista holandês Frits Rosendaal fala sobre a paixão que o move na hemostasia página 8 ABRE ASPAS Cresce o interesse de jovens hematologistas pelo TMO, atraídos pela combinação de ciência e cuidado ao paciente página 12 EM PERSPECTIVA Premiada pela ISTH em 2025, a Profa. Dra. Suely Rezende compartilha os momentos marcantes de sua carreira página 32 PERFIL #15 / 2025
sumário carta ao leitor p.6 | diretoria p.7 | giro ABHH p.36 abre aspas p.8 gestão 2024-2025 p.20 Entrevista com o holandês Frits Rosendaal, palestrante do HEMO 2025 Avanços e conquistas marcam a presidência do Dr. Angelo Maiolino à frente da ABHH perfil p.32 A trajetória da Dra. Suely Meireles Rezende, professora titular da UFMG HEMO 2025 p.16 “De nada adianta ciência sem acesso e direitos sem equidade”, afirma presidente do congresso cobertura p.24 ABHH em ação p.28 Repercussão do I Workshop de Pesquisa Clínica realizado em São Paulo A importância da participação no Conselho Deliberativo da ABHH em perspectiva p.12 Jovens explicam o interesse pela área de transplante de medula óssea artigos da edição Advocacy em saúde e o essencial papel da comunicação no processo p.22 A neurodiversidade chega ao HEMO 2025 p.30 15 / 2025 ABHH em Revista 3
carta ao leitor 6 Neste final de 2025, encerro minha gestão à frente da ABHH. Recordar o trabalho feito nestes dois anos me traz a emoção de dever cumprido. Liderar esta instituição, referência nacional e internacional em hematologia, hemoterapia e terapia celular, foi um desafio e uma honra. Nesse período, cada congresso, curso e iniciativa de advocacy mostrou a força da associação na defesa das boas práticas médicas e na ampliação do acesso da população a tratamentos de excelência. Avançamos em projetos que consolidaram a presença da ABHH em diferentes frentes: da produção científica ao diálogo com órgãos regulatórios, da aproximação com sociedades internacionais ao incentivo às novas gerações. Estreitamos também o contato com a sociedade, reforçando a relevância da especialidade em temas de saúde pública. Entre os marcos alcançados, destacam-se a reestruturação dos comitês, agora mais integrados; a ciência como pilar de independência, com captação de recursos sustentada pela produção científica; e a transformação do Comitê de Acesso em motor de advocacy, que ampliou a atuação em Brasília, garantindo cadeiras em conselhos estratégicos e participação ativa em políticas públicas. Celebramos ainda a criação do Dia do Hematologista e Hemoterapeuta, instituído em 2023 e celebrado pela primeira vez em 2024, além do início da parceria com a plataforma HemoBR, dedicada à curadoria de dados nacionais. Também conduzimos pesquisas pioneiras em equidade e essencialidade, fundamentais para mapear desigualdades e propor soluções concretas. Essas iniciativas reafirmam a ABHH como uma das sociedades médicas mais fortes e representativas do país, sustentada por pilares científico, associativo e social. Cada obstáculo encontrado se tornou oportunidade de aprendizado. Foi a união entre diretoria, comitês, staff e associados que permitiu que avançássemos, sempre guiados pela ciência, ética e cuidado com o paciente. Esta gestão enfrentou desafios, é verdade. Liderar uma entidade do porte da ABHH é saber ouvir e resolver dissensos com o propósito de beneficiar nossos pacientes. Deixo a presidência com um sincero agradecimento a todos. A ABHH encerra este ciclo fortalecida e preparada para seguir sua missão em benefício dos pacientes, médicos e profissionais de saúde. Continuarei junto à instituição, apoiando para que siga crescendo em relevância científica e impacto social. Um ciclo cumprido Angelo Maiolino Presidente da ABHH (2024-2025) ISSN 2179-4855 ABHH em Revista é uma publicação da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) distribuída gratuitamente para seus associados. O conteúdo da publicação é de inteira responsabilidade de seus autores e não representa necessariamente a opinião da ABHH. JORNALISTA RESPONSÁVEL Roberto Souza (Mtb 11.408) EDITOR Madson de Moraes REPORTAGEM Danilo Gonçalves Roberto Souza Talita Ribeiro REVISÃO Joice Costa PROJETO EDITORIAL Madson de Moraes PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Leonardo Fial FOTO DE CAPA Getty Images CONTATO COMERCIAL Caroline Frigene IMPRESSÃO STGRAF RS HEALTH Rua Cayowaá, 228 – Perdizes São Paulo – SP – 05018-000 (11) 3875-6296 rspress@rspress.com.br www.agenciars.co ABHH Rua Dr. Diogo de Faria, 775, conj. 133 Vila Clementino São Paulo - SP (11) 2369-7767 / (11) 2338-6764 abhh@abhh.org.br www.abhh.org.br @abhhoficial ABHH em Revista 15 / 2025
DIRETORIA ABHH 2024-2025 Conheça os especialistas que integram a direção da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular Glaciano Ribeiro Leny Nascimento da Motta Passos Carmino Antônio de Souza Eduardo Magalhães Rego Celso Arrais Edvan Crusoé José Francisco Comenalli Marques Júnior Violete Petitto Laforga Carlos Sérgio Chiattone Angelo Maiolino Roberto Passetto Falcão José Orlando Bordin Renato Sampaio Tavares Dante Langhi Júnior Dimas Tadeu Covas Vania Hungria Jorge Vaz Pinto Neto Silvia Maria Meira Magalhães Diretoria Administrativa Diretoria Científica Diretoria de Defesa Profissional Diretoria de Ações Sociais Diretoria Financeira Diretoria de Comunicação Diretoria de Relações Institucionais Diretor Científico Emérito Diretor de Orientação e Aconselhamento Presidente Vice-presidente 15 / 2025 ABHH em Revista 7
“A pesquisa nunca se torna entediante porque sempre se olha para novas questões” ABHH em Revista 15 / 2025 8 abre aspas Destaque da Conferência Magna do HEMO 2025, o epidemiologista holandês Frits Rosendaal compartilha a paixão que o levou a construir uma carreira de referência mundial em hemostasia e trombose e inspira jovens médicos com conselhos para quem deseja trilhar o caminho da pesquisa científica Por Madson de Moraes e Roberto Souza Foto Acervo pesso l
Uma memória marcante que o médico holandês Frits Rosendaal tem de suas viagens ao Brasil é a ida ao show do cantor Paulinho da Viola após um jantar em um restaurante construído em torno de árvores centenárias. Outra é a realização de um curso na cidade de Ouro Preto, com pessoas da América Latina, organizado pela Profa. Dra. Suely Rezende, de quem é amigo e parceiro de pesquisa. Frits é o palestrante da Conferência Magna do HEMO 2025, que será no dia 1º de novembro (sábado), das 11h às 12h. Ele falará sobre a história da trombose venosa e nossa compreensão sobre ela, com foco na genética, mas discutindo fatores ambientais. “E falarei sobre o que o futuro pode trazer”, diz. Presidente do Comitê de Integridade Científica e professor do Departamento de Epidemiologia Clínica da Universidade de Leiden, na Holanda, além de membro do Committee on Publication Ethics (COPE), organização que busca promover a integridade na pesquisa e publicação acadêmica, o holandês iniciou vários estudos epidemiológicos, como LETS e MEGA, que levaram à descoberta de um grande número de causas de trombose, como o Fator V de Leiden. Mesmo durante suas férias, o professor Frits aceitou gentilmente responder algumas perguntas de nossa reportagem sobre o que o motivou a dedicar sua carreira ao estudo e pesquisa em hemostasia e trombose, entre outras questões. Confira! O que levou o senhor a escolher a medicina como profissão? E como surgiu o seu interesse pela investigação das doenças trombóticas? Para ser franco, foi tudo uma coincidência. Naquela altura, pensava em ser jornalista, mas para isso era recomendado um curso universitário. Procurei algo mais genérico. O meu pai era clínico geral e eu gostava de matemática e ciências na escola, por isso escolhi medicina. O interesse por hemostasia e trombose também surgiu naturalmente: não havia tantos empregos depois de me formar em medicina e li um anúncio para uma vaga de pesquisador na Universidade de Leiden e me candidatei. Foi na área da hemofilia que obtive o meu doutoramento, mas logo depois surgiram grandes desafios na trombose, como o papel das anomalias trombofílicas e, com o interesse que tinha desenvolvido pela metodologia, voltei a minha atenção para essa direção. Tudo isso me convenceu de que muita ambição em uma direção específica numa idade jovem não é algo bom: deixe o acaso desempenhar o seu papel. Ao longo de uma carreira tão bem-sucedida, quais conquistas o senhor destaca como as mais significativas e as que mais lhe orgulham? Todas as minhas publicações evocam em mim memórias, das questões de pesquisa, dos desafios logísticos, das pessoas com quem trabalhei e do trabalho que tivemos que fazer em equipe. Assim como os filhos trazem lembranças, é um pouco difícil escolher quais são as mais queridas. É claro que a descoberta do Fator V de Leiden, publicada na Nature, foi importante, pois mudou a maneira como olhávamos para as causas genéticas da trombose e levou a muitos outros projetos e publicações, mas também porque resultou de um excelente trabalho em equipe entre clínicos, bioquímicos, biólogos moleculares e epidemiologistas. Depois, a publicação na Queria fazer ou publicar pesquisas que aprofundassem nossa compreensão da coagulação ou que pudessem impactar o atendimento ao paciente. As duas coisas nem sempre estão presentes ao mesmo tempo, mas isso não importa muito: uma, com o tempo, levará à outra 15 / 2025 ABHH em Revista 9
Lancet sobre o modelo de potencial de trombose, que na verdade era uma apresentação que fiz em um congresso da International Society on Thrombosis and Haemostasis, sem a intenção de ser publicada. Depois de alguns meses, recebi um manuscrito como revisor, claramente plagiado da minha apresentação. Então, decidi escrevê-lo e ele se tornou um dos meus artigos mais citados. Por fim, destaco o método para determinar a intensidade ideal de anticoagulação a partir de dados clínicos de anticoagulação. Este método não só recebeu o meu nome posteriormente como também alterou as diretrizes sobre os níveis-alvo de anticoagulação, tendo, portanto, um impacto clínico mensurável. O senhor tem uma produção científica impressionante, com mais de 1.200 artigos. Quais princípios norteiam sua abordagem de trabalho e publicação? Na minha própria pesquisa, mas também como editor- -chefe do Journal of Thrombosis and Haemostasis, eu queria fazer ou publicar pesquisas que aprofundassem nossa compreensão da coagulação ou que pudessem impactar o atendimento ao paciente. As duas coisas nem sempre estão presentes ao mesmo tempo, mas isso não importa muito: uma, com o tempo, levará à outra. Além disso, sempre procurei trabalhar em equipe, tanto dentro do nosso próprio centro quanto em estudos colaborativos em que um princípio norteador importante é trabalhar em equipe apenas com pessoas de quem gostamos. Isso nem sempre é possível, mas tive o privilégio de trabalhar com muitos colegas que são bons no que fazem e são pessoas simpáticas. E aí fica fácil. Na sua avaliação, quais são os principais desafios globais na área de trombose e hemostasia do ponto de vista científico de saúde pública? Ainda existem muitos. Na hemofilia, o maior desafio é a divisão desigual de recursos em todo o mundo para que pacientes em países ricos tenham melhor acesso ao tratamento ideal do que aqueles em países menos favorecidos. Na trombose, muitas questões ainda precisam ser resolvidas, que se resumem à seguinte pergunta: quando alguém desenvolverá trombose e será que podemos preveni-la sem complicações? Fizemos um enorme progresso na identificação de variantes genéticas preditivas de trombose, mas sua relevância clínica ainda é limitada. O tratamento anticoagulante não é isento de riscos, portanto, o maior desafio é conseguir limitar seu uso àqueles que precisam. Além disso, nossa compreensão das ligações entre inflamação e trombose, metabolismo lipídico e coagulação está apenas começando. Aos 66 anos, o senhor continua ensinando, coordenando estudos e contribuindo para a ciência. O que o mantém motivado a seguir nesse ritmo? Para ser sincero, o ritmo está um pouco menor do que antes ou pelo menos mudei um pouco o foco, me aposentando como chefe do departamento no ano passado após 25 anos nesse cargo. Isso significa que preciso dedicar menos tempo à administração e mais à pesquisa e ao ensino. Ambas continuam sendo ótimas atividades: a pesquisa nunca se torna entediante porque sempre se olha para novas questões, muitas vezes junto com novas pessoas, ou seja, bolsistas de doutorado. Sempre adorei ensinar porque é uma ótima sensação educar jovens sobre como fazer pesquisa e, principalmente, vê-los se entusiasmarem. Qual conselho você daria a estes jovens pesquisadores? O principal conselho é encontrar um bom mentor, alguém que o ensine e oriente. A pressão da produção é uma falha em nosso sistema, que é mantido vivo por universidades e agências de fomento. Há esforços para mudar isso. A ciência se constrói com base na confiança que a sociedade nos dá e, se a perdermos, acabaremos em um mundo onde o populismo e as notícias falsas se tornarão ainda maiores do que já são. A integridade da pesquisa é fundamental para manter essa confiança. Muitas vezes, a pesquisa é vista como um jogo esportivo onde há vencedores e perdedores, mas deveria ser vista como uma apresentação de uma orquestra sinfônica onde todos os instrumentos, juntos, produzem uma música maravilhosa. Muitas vezes, a pesquisa é vista como um jogo esportivo onde há vencedores e perdedores, mas deveria ser vista como uma apresentação de uma orquestra sinfônica em que todos os instrumentos, juntos, produzem uma música maravilhosa ABHH em Revista 15 / 2025 10
O interesse de jovens hematologistas pelo transplante de medula óssea e terapia celular vem aumentando. Especialistas apontam que a combinação de ciência e atenção direta ao paciente torna a área cada vez mais atrativa para novas gerações Por Talita Ribeiro A NOVA GERAÇÃO DO TMO em perspectiva ABHH em Revista 15 / 2025 12 Foto Gett Im es
Mais do que uma subespecialidade da hematologia, o TMO ocupa um espaço singular. É o ponto de encontro entre a inovação científica e o cuidado próximo ao paciente, oferecendo tratamentos avançados e esperança para quem enfrenta doenças hematológicas graves. Por isso, o interesse de jovens médicos vem crescendo. Até hoje, a ABHH já certificou 187 especialistas em transplante por meio do exame nacional realizado anualmente, em parceria com a Associação Médica Brasileira (AMB). Para prestar a prova da ABHH, é necessário ter o Título de Especialista em Hematologia e Hemoterapia e concluir a residência em TMO em serviço credenciado. Também são aceitos candidatos que tenham cumprido um ano de treinamento teórico-prático em programas reconhecidos pela ABHH ou que comprovem ao menos dois anos de atuação em transplante. Foi o caminho seguido pelo Dr. James Maciel, um dos aprovados neste ano. Natural de Natal (RN), com mais de uma década dedicada à hematologia clínica, ele encarou o desafio de retomar os transplantes realizados em seu estado, se aproximando de uma área que permite acompanhar todas as etapas do cuidado, do diagnóstico ao pós-transplante. Desde 2018, o hematologista atua no setor de TMO do Hospital Rio Grande. Como não havia residência específica em sua época, ele encontrou na certificação uma forma de validar sua experiência. ‘Temos uma rotina intensa de discussões clínicas e científicas e um grande volume de pacientes. Isso me ajudou a consolidar o conhecimento necessário para a prova. Obter o título foi uma validação de todo o esforço para me capacitar e atender melhor meus pacientes’, destaca o Dr. James, integrante do Comitê de Equidade da ABHH. Ele conta que a rotina de discussões clínicas e científicas sobre o tema e o volume considerável de pacientes no serviço em que atua o ajudou a fixar o conteúdo importante e necessário para a prova da ABHH. “Obter o título nessa área de atuação serviu como uma validação importante de que todo o esforço que empreguei para me capacitar e atender da melhor forma meus pacientes, pôde ser avaliado e chancelado”, explica o Dr. Maciel, que integra o Comitê de Equidade da ABHH. “TMO é o meu destino” A experiência pessoal também pode ser decisiva. Foi o caso da Dra. Laine Santos Fiscina Alvarenga, que concluiu residência em hematologia pela UFBA e hoje integra o Serviço de Transplante de Medula Óssea e Terapias Celulares do Hospital São Rafael, em Salvador (BA). O interesse nasceu na adolescência, quando acompanhou o pai, diagnosticado com mieloma múltiplo aos 42 anos. Durante sua graduação, ela o viu passar por um transplante autólogo de medula óssea e toda essa vivência a levou a seguir o caminho da hematologia e, depois, do TMO. Este ano, ela conquistou a certificação da ABHH. “Durante a residência, me aproximei de professores inspiradores e a certeza só aumentava: TMO é o meu destino”, ressalta. O fascínio da médica está na complexidade e no impacto do transplante. “Com a evolução das terapias celulares, o papel do transplantador se amplia ainda mais, com a responsabilidade de conduzir processos decisivos. Seguir com a formação complementar em Obter o título nessa área de atuação serviu como uma validação importante de que todo o esforço que empreguei para me capacitar e atender da melhor forma meus pacientes, pôde ser avaliado e chancelado Dr. James Maciel 15 / 2025 ABHH em Revista 13
transplante de medula óssea ajuda a sedimentar o conhecimento e ampliar os horizontes. Mesmo em situações difíceis, seguimos lutando por nossos pacientes”, acrescenta. Outro exemplo é o do Dr. Carlos Wilson de Alencar Cano, natural de Campo Grande (MS). Ele deixou sua cidade natal para concluir a residência em TMO no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, finalizada em 2025, ano em que também obteve a certificação na área emitida pela ABHH. “Participar de um transplante é acompanhar uma jornada intensa, mas que proporciona uma recompensa imensurável: ver um paciente renascer”, resume. O que atrai a nova geração? A atração pelo TMO vai além da técnica. Experiências pessoais, bons mentores e a oportunidade de transformar vidas, como mencionados pelos médicos acima, são fatores decisivos. Há também a força da inovação científica, que torna a área um terreno fértil para quem deseja construir carreiras sólidas na prática clínica e na pesquisa. O Dr. Kasys Meira Gervatauskas, coordenador do Serviço de TMO do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), vê esse entusiasmo de perto. “São médicas e médicos altamente dedicados e com grande aptidão para o estudo. A chegada das terapias celulares, como o CAR-T Cell, e os avanços em terapia gênica despertaram o interesse de uma nova geração”, diz. Para o Dr. Carmino Antônio de Souza, diretor científico da ABHH, a ciência é uma das principais razões desse aumento. “Não sabemos exatamente todas as razões, mas é um fato. Talvez a chegada do CAR-T e a ampliação dos transplantes haploidênticos estejam influenciando esse interesse.” Na mesma linha, o Dr. Fernando Barroso Duarte, presidente da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO) e membro do Comitê de Transplante de Medula Óssea e Terapia Celular da ABHH, assinala dois pontos. O primeiro é que o TMO continua sendo a única opção realmente curativa para diversas doenças hematológicas, o que o torna um “verdadeiro game changer” em suas palavras. O segundo é essa revolução trazida pela terapia celular, com a chegada do CAR-T Cell, das células NK, da terapia gênica e do CRISPR. “O TMO e a terapia celular andam lado a lado”, afirma o hematologista, integrante da banca examinadora da prova de TMO da ABHH deste ano. Ele explica que a SBTMO lançou neste ano o 1º Manual do Jovem Transplantador, reforçando a importância de apoiar a formação de novas gerações. Segundo a entidade, 25% dos especialistas em TMO no Brasil têm menos de 40 anos. O Dr. James Maciel acrescenta ainda o fator mercado: o fato de o Brasil possuir leitos insuficientes e mal distribuídos geograficamente descortina oportunidades de trabalho e de impacto social em muitas regiões do país. Além disso, a gratificação por ajudar inúmeros pacientes a ficarem curados é outra razão para estimular os jovens no interesse pela área de transplante de medula óssea. A ressalva, acrescenta, é que o hematologista transplantador tem que ter disposição para o trabalho, criatividade para manejar e solucionar dificuldades que surgem a todo tempo. “É realmente impossível você trabalhar bem com transplante de células-tronco sozinho e sem um time coeso e com propósito. É preciso dedicação para com o seu serviço e com a assistência integral dos pacientes transplantados”, conclui. Leia o perfil do Prof. Dr. Ricardo Pasquini, pioneiro do transplante de medula óssea no Brasil, publicado na edição nº 5 da ABHH em Revista em perspectiva Durante a residência, me aproximei de professores inspiradores e a certeza só aumentava: TMO é o meu destino Dra. Laine Santos Fiscina Alvarenga 14 ABHH em Revista 14 / 2025
“De nada adianta ciência sem acesso e direitos sem equidade” Com a criação da Diretoria de Ações Sociais no ano passado, a ABHH honrou uma trajetória de anos de aprendizado e amadurecimento da instituição em seu compromisso com a equidade e o acesso a novas tecnologias e tratamentos para os pacientes que representa. A opinião é do Dr. Jorge Vaz Neto, presidente do HEMO 2025 e um dos diretores de Ações Sociais da ABHH junto com a Dra. Violete Petitto Laforga. “De nada adianta ciência sem acesso e direitos sem equidade”, comenta. Hematologista em Brasília, o Dr. Jorge Vaz destaca no bate-papo a seguir algumas iniciativas da ABHH no congresso desse ano, como o lançamento do movimento "Mulheres na Hematologia", além de aprofundar algumas questões que envolvem o trabalho de equidade e acesso. Confira! Por quais razões a ABHH estruturou uma diretoria dedicada às Ações Sociais? A criação surgiu de uma chamada histórica da ABHH para a equidade e o acesso às novas tecnologias em saúde. Foi fruto de um processo de aprendizado e amadurecimento institucional, iniciado em 2017, quando participamos pela primeira vez de um processo de submissão de tecnologias para incorporação no rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Apresentamos cinco propostas, mas encaramos a reunião como se fosse uma apresentação médica, sem conhecer Diretor de Ações Sociais e presidente do HEMO 2025, o Dr. Jorge Vaz Neto fala sobre o alcance das ações sociais já encampadas pela ABHH em seu compromisso com a equidade e o acesso a novas tecnologias e tratamentos Por Roberto Souza Foto Comun c ç o/ABHH ABHH em Revista 15 / 2025 16 HEMO 2025
processos. Nesse contexto, a ABHH incorporou o pilar Social a sua missão, reunindo o Comitê de Acesso, por mim conduzido, e o Comitê de Equidade, liderado pela Dra. Violette, dentro da recém-criada Diretoria de Ações Sociais. Tivemos a honra de assumir a função como primeiros diretores. Essa trajetória da criação dos comitês à consolidação do pilar Social marcou um processo de evolução institucional, amadurecimento e de reconhecimento da responsabilidade social da associação. Além disso, nossa atuação nesses processos evidenciou a diferença significativa entre a disponibilidade de tecnologias para o manejo das doenças hematológicas no sistema suplementar e o que é oferecido pelo SUS. Se formos pensar o que era a estrutura da ABHH em 2016 e a estrutura em 2025, muita coisa evoluiu dentro da associação. Temos conseguido contribuir junto à sociedade nos diversos ambientes, fomentando cada vez mais essa discussão. De nada adianta ciência sem acesso e direitos sem equidade. Como a ABHH tem atuado para reduzir essa diferença do SUS em relação à saúde suplementar? A ABHH tem assumido um papel de protagonismo nas submissões ao sistema público de saúde, atuando junto à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC), Ministério da Saúde e Comissão Intergestores Tripartite de Saúde com o objetivo de reduzir essa distância e ampliar a equidade. Conseguimos a incorporação do bortezomibe e do carfilzomibe para o tratamento do mieloma múltiplo, por exemplo. Recentemente, realizamos nova submissão para a incorporação da lenalidomida, também voltada a pacientes com mieloma múltiplo, doença em que a discrepância entre o que é oferecido pelo SUS e pela saúde suplementar é mais evidente. Embora alguns processos tenham sido menos exitosos, a ABHH mantém seu compromisso e segue envolvida nas incorporações de tecnologias para leucemias (mieloide e linfoide, agudas e crônicas) mieloide aguda, síndromes mielodisplásicas, linfoma difuso de grandes células e assim por diante. Toda essa atuação reflete o trabalho contínuo da ABHH, pautado por uma base técnica muito sólida, sempre com muita responsabilidade e compromisso com os pacientes e com a sociedade. bem as ferramentas próprias para incorporação de novas tecnologias de uma agência de Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS) nesse processo de submissão, que vai além dos dados clínicos e exige análise de impacto econômico, social e de custo-efetividade. Como foi essa primeira experiência no processo? Costumo dizer, em tom de brincadeira, que “tomamos uma surra”. Das cinco propostas apresentadas naquela época pela ABHH, apenas o Ibrutinibe foi incorporado ao rol da ANS, em 2018, muito em função da participação contundente dos especialistas na etapa de consulta pública, em que conseguimos uma reversão de um parecer negativo da ANS à época. Foi meia vitória da ABHH. Esse duro aprendizado mostrou a necessidade de que a ABHH se fortalecesse nessa área. Nos anos seguintes, a ABHH promoveu simpósios e treinamentos voltados ao domínio das ferramentas de avaliação de novas tecnologias com o objetivo de aprimorar a qualidade e a efetividade de suas futuras submissões tanto na rede privada quanto pública de saúde. Como resultado desse processo de maturidade nesse campo, foram criados os Comitês de Acesso a Medicamentos em 2018 e de Equidade em 2022, marcos que impactaram a estrutura organizacional da ABHH e consolidaram seu compromisso com o acesso e a equidade em saúde. Esse aperfeiçoamento trouxe quais avanços? Em 2020, a ABHH participou pela segunda vez do processo de submissão ao rol da ANS. Foram apresentadas nove propostas e todas foram aprovadas, demonstrando o quanto a associação estava mais preparada nesses A criação da Diretoria de Ações sociais foi fruto de um processo de aprendizado e amadurecimento institucional, iniciado em 2017 15 / 2025 ABHH em Revista 17
18 ABHH em Revista 15 / 2025 HEMO 2025 DESTAQUES DA PROGRAMAÇÃO Baixe o app do HEMO 2025 e confira a programação completa! (terça-feira) Simpósio inédito da International Association for Comparative Research on Leukemia and Related Diseases (IACRLRD 2025), que terá transmissão online Simpósios Corporativos (exclusivos para pré-inscritos) (quarta-feira) Continuação do IACRLRD 2025 Programas Educacionais Super Quarta (tarde exclusiva para os Simpósios Corporativos) Eventos Multidisciplinares: Ciências Biomédicas e Enfermagem Curso de Auditores da AABB (à parte) Sessão Plenária: apresentação dos trabalhos científicos premiados Solenidade de Abertura e Homenagens Trabalhos Científicos: Painéis Feira de Exposição (sexta-feira) Sessões científicas sobre diversos temas Sessões conjuntas com sociedades internacionais: The American Society of Hematology, European Hematology Association e Society of Hematologic Oncology Atividades Corporativas: Café da Manhã com Especialista e Simpósios Corporativos Eventos Multidisciplinares: Captação de Doadores, Psicologia e Odontologia Lançamento do Movimento Mulheres na Hematologia e Sessão sobre Neurodiversidade Mão na Massa: Casos Clínicos com Especialistas (atividade fechada do Programa Sangue Jovem – Ligas Acadêmicas) Trabalhos Científicos: Painéis e Visita Guiada Feira de Exposição (quinta-feira) Sessões científicas: Cuidados Paliativos, Hemostasia & Trombose, Hematologia Laboratorial e Onco-Hematologia Fórum de Acesso e Equidade da ABHH Simpósio de Patient Blood Management (PBM) Simpósio de Neutrófilos Ambulatório de transição: da pediatria a vida adulta Fórum de Talassemia Hemostasia ao Pé do Ouvido (exclusivo para pré-inscritos) Encontro de Ligas Acadêmicas (Programa Sangue Jovem) Mentoria em Hematologia e Hemoterapia (atividade fechada do Programa de Apoio em Residência Médica da ABHH) Eventos Multidisciplinares: Gerenciamento de Qualidade e Farmácia Atividades Corporativas: Café da Manhã com Especialista e Simpósios Corporativos Workshop ERIC & ABHH (exclusivo para pré-inscritos) Trabalhos Científicos: Painéis e Visita Guiada Feira de Exposição (sábado) Sessões científicas sobre diversos temas Imuno-hematologia ao Pé do Ouvido (exclusivo para pré-inscritos) Conferência Magna sobre “A história do tromboembolismo: de Virchow à genômica”, com o médico holandês Frits Rosendaal Simpósios Corporativos Trabalhos Científicos: Painéis Feira de Exposição 31 out 30 out 28 out 29 out 1 nov
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O balanço dos últimos dois anos mostra que a ABHH soube transformar desafios em entregas concretas sem perder de vista a dimensão social que dá sentido à ciência. A expansão do conhecimento, a qualificação da assistência e a presença cada vez mais ativa no debate público são conquistas que fortalecem não apenas a hematologia, mas a saúde brasileira como um todo IMPACTO E TRANSFORMAÇÃO Angelo Maiolino, presidente da ABHH no biênio 2024-2025 ABHH em Revista 15 / 2025 20 Gestão 2024-2025 Nos últimos dois anos, a ABHH transformou desafios em conquistas, fortalecendo a prática médica e sua atuação social no Brasil. A gestão 2024-2025 ampliou o número de associados e consolidou ainda mais a entidade como espaço de diálogo e colaboração entre médicos, pesquisadores e profissionais de saúde, sempre com o objetivo de melhorar a vida dos pacientes. Durante esse período, a associação avançou na produção científica, na elaboração de diretrizes e consensos que orientam a prática clínica e fortaleceu sua presença internacional, promovendo equidade e contribuindo para políticas públicas de saúde mais justas e eficazes. Novos cursos e conteúdos digitais tornaram a educação continuada mais diversa enquanto ações de comunicação ampliaram a visibilidade da ABHH na mídia, garantindo que sua voz seja ouvida em decisões que impactam a saúde de todos. Cada conquista reflete o compromisso da entidade com excelência, inovação e responsabilidade social, construindo uma base sólida para os próximos anos. Fotos D vul ç o
Gestão 2024-2025 da ABHH em números Ainda não é associado? Associe-se e faça parte da ABHH! Crescimento de 12% no número de associados Mais de 8 mil participantes no HEMO 2024 Atingimos 43 consensos e 16 diretrizes publicadas 7 endossos e 45 pareceres (participações em consultas públicas) 7 incorporações de drogas hematológicas no sistema público 5 submissões em processos e 6 dossiês em elaboração 6 incorporações de novas drogas para tratamentos hematológicos no sistema privado via ANS 26 instituições de saúde certificadas pela Acreditação Internacional da AABB e ABHH + 45 estudos cadastrados na plataforma de pesquisa clínica + 6.500 casos de vida real cadastrados nos Registros + de 50 artigos publicados/ano na Hematology, Transfusion and Cell Therapy (HTCT) 8 novos cursos disponibilizados no Hemo.educa Quase 150 episódios do HEMO Play Podcast no ar 30 webinars realizados com speakers de renome nacional, disponíveis no canal da ABHH no YouTube Crescimento de quase 40% no número de seguidores nas redes sociais Mais de 5 mil bolsas coletadas pelas iniciativas promovidas pelo Programa Um Só Sangue Mais de 2,5 mil inserções positivas na imprensa nacional 7 incorporações de drogas hematológicas no sistema público Derisomaltose férrica Tratamento de pacientes adultos com anemia por deficiência de ferro Ponatinibe Tratamento de resgate de pacientes com Leucemia Mieloide Crônica (LMC) em que houve falha aos inibidores de tirosina quinase de segunda geração Romiplostin Tratamento de pacientes adultos com PTI (Púrpura Trombocitopênica Idiopática) primária refratária Rituximabe + Romiplostin Tratamento de pacientes adultos com PTI primária refratária Rituximabe + Romiplostin Tratamento de crianças com púrpura trombocitopênica idiopática primária refratária ou dependente de corticosteroides Blinatumomabe Expansão das indicações para pacientes adultos com LLA DMR+ (Leucemia Linfoide Aguda com Doença Residual Mínima) Trióxido de arsênio Tratamento de pacientes adultos com Leucemia Promielocítica Aguda (LPA) recaída/refratária 5 submissões em processo Luspartercept Tratamento de pacientes com anemia relacionada a beta-talassemia com dependência transfusional Iptacopana Tratamento de pacientes adultos com Hemoglobinúria Paroxística Noturna (HPN) previamente tratados com inibidores de C5 Lenalidomida Em combinação com dexametasona para tratamento de pacientes adultos com mieloma múltiplo que não tenham recebido tratamento prévio Asciminibe Tratamento de Leucemia Mieloide Crônica em 3ª linha Venetoclax Tratamento de pacientes com Leucemia Mieloide Aguda (LMA) 6 dossiês em elaboração Rituximabe Tratamento de pacientes com Linfomas de Células do Manto Rituximabe Tratamento de pacientes Linfoma pós-transplante Rituximabe Macroglobulinemia de Waldenstrom Rituximabe Linfoma de Zona Marginal 6 incorporações na ANS Pomalidomida Bortezomibe + dexametazona - Mieloma Múltiplo / UAT 105 Ibrutinibe + Venetoclax Em regime de duração fixa no tratamento de pacientes com Leucemia Linfocítica Crônica em primeira linha Asciminibe Tratamento de pacientes com LMC em terceira linha Zanubrutinibe Tratamento para Leucemia Linfocítica Crônica (LLC) e Linfoma Linfocítico de Pequenas Células (LLPC) no Brasil, nos cenários de 1L (Pacientes “Treatment Naive”) e 2L (-Recaídos e Refratários) - duas submissões Ponatinibe Tratamento de resgate de pacientes com leucemia mieloide crônica em que houve falha aos inibidores de tirosina quinase de segunda geração Pirtobrutinibe Tratamento de pacientes com linfoma de células do manto recidivante ou refratário que tenham sido previamente tratados com pelo menos duas linhas de terapia sistêmica, incluindo um inibidor covalente de BTK 21
ABHH em Revista 15 / 2025 22 artigo Advocacy em saúde e o essencial papel da comunicação no processo Em saúde, cada palavra importa. Uma informação clara pode significar mais do que conhecimento: pode abrir caminhos para diagnósticos, tratamentos e, sobretudo, para que a voz das pessoas seja ouvida. Nesse contexto, a atuação comunicacional das sociedades de especialidades médicas deixa de ser mero suporte técnico e se torna instrumento de cidadania, capaz de conectar pacientes, profissionais, gestores e formuladores de políticas públicas em torno de decisões que afetam milhões de vidas. Quando bem estruturada, essa área funciona como ponte: aproxima a sociedade civil de quem decide, amplia o diálogo e garante processos mais transparentes e baseados em evidências. No cenário da incorporação de novas tecnologias nos sistemas público e privado, essa mediação é ainda mais necessária para que pacientes, especialistas e entidades representativas tenham seus pleitos considerados por tomadores de decisões. A abundância de dados disponíveis hoje não significa, necessariamente, acesso qualificado à informação. Por isso, cabe às sociedades médicas também um papel educativo. Traduzir conteúdos técnicos em mensagens claras e acessíveis não é apenas estilo: é chave para empoderar cidadãos e tornar o debate sobre saúde mais inclusivo. No advocacy, informar não é só difundir dados, mas construir narrativas capazes de sensibilizar tomadores de decisão e mobilizar aliados estratégicos. A credibilidade de uma causa nasce da robustez da evidência, mas se fortalece na forma como ela é transmitida. Na saúde, essa dinâmica é ainda mais urgente. A incorporação de novas terapias, exames e medicamentos envolve critérios técnicos complexos, mas com impacto direto na vida das pessoas. Explicar cada etapa com transparência, da submissão de uma tecnologia à decisão final, cria confiança e estimula o diálogo entre especialistas e cidadãos. Fortalecer o advocacy vai além de informar: exige práticas éticas, responsáveis e baseadas na escuta ativa. É preciso compreender valores, acolher demandas e adaptar formatos, linguagens e canais. Redes sociais, podcasts, vídeos educativos e campanhas digitais ampliam o alcance, envolvendo desde pacientes e familiares até gestores, parlamentares e formadores de opinião. Durante o HEMO 2025, no dia 29/10, das 13h15 às 13h45, estarei com Luana Ferreira Lima, Head de Políticas Públicas e Advocacy da ABRALE/ABRASTA, debatendo a importância da comunicação para o engajamento social na incorporação de novas tecnologias nos sistemas público e privado. O encontro será na Arena Diálogos Abertos. Conto com você para participar dessa discussão. Danilo Gonçalves é jornalista de saúde e especialista em advocacy e políticas públicas pela Fundação Getúlio Vargas
PESQUISA CLÍNICA EM PAUTA ABHH em Revista 15 / 2025 24 cobertura Cerca de 150 pessoas participaram do I Workshop de Pesquisa Clínica, realizado pela ABHH em São Paulo. Evento promoveu debates que foram do básico ao avançado e recebeu elogios dos participantes pela iniciativa inédita da associação A pesquisa clínica esteve no centro das atenções em agosto deste ano, quando a ABHH promoveu seu primeiro workshop dedicado inteiramente ao tema. Realizado em São Paulo, o I Workshop de Pesquisa Clínica reuniu cerca de 150 participantes e trouxe discussões que percorreram, entre outros tópicos, a evolução histórica da área, as diferentes fases dos estudos, os marcos regulatórios e éticos, as estratégias de recrutamento e a importância das equipes multidisciplinares. A iniciativa, prevista para ganhar nova edição em 2026, reafirma o compromisso da ABHH com a ciência e a capacitação de médicos e profissionais em pesquisa clínica. Na abertura do evento, o presidente da associação, Dr. Angelo Maiolino, ressaltou que a formação de profissionais em pesquisa clínica é um dos pilares da associação. “O Brasil está se tornando um player da pesquisa, e a hematologia tem sido fundamental nesse processo”, afirmou. Ele contou ainda ao público que hoje dedica mais de 60% do seu tempo às atividades de pesquisa clínica e acadêmica, evidenciando sua aposta no potencial do país nessa área. Nesse ambiente de aprendizado e troca, Ifé Odara, enfermeira de formação e analista de pesquisa do A.C. Camargo, esteve presente. Para ela, o workshop representou uma oportunidade de ampliar conhecimentos sobre pesquisa e de fortalecer sua paixão pela hematologia e pela terapia celular. “Tivemos contato com diversos médicos e profissionais que nos ajudaram a expandir nossa prática em pesquisa clínica em hematologia. Vim neste primeiro e farei questão de participar Fotos Comun c ç o/ABHH Por Madson de Moraes
15 / 2025 ABHH em Revista 25 Inspiração para novos investigadores Na primeira palestra, a coordenadora do Comitê de Pesquisa Clínica da ABHH e do I Workshop, Dra. Danielle Leão, apresentou um panorama histórico mundial e nacional, mencionando estudos clássicos que salvaram vidas, como o que resultou na vacina contra a varíola, e recordando marcos como o Código de Nuremberg. Ela também abordou a evolução ética ao longo das décadas, incluindo a primeira regulação sobre práticas clínicas elaborada pela Food and Drug Administration (FDA) em 1977. Ao final, convidou os presentes a participarem da pesquisa da ABHH que busca mapear o perfil do investigador brasileiro. “Queremos criar união e senso de comunidade, alcançando o lugar que merecemos e incentivando os pesquisadores a desenvolverem novos estudos”, afirmou. Em seguida, o Dr. Eduardo Rego, editor-chefe da revista científica Hematology, Transfusion and Cell Therapy (HTCT), falou sobre o uso de medicamentos em pesquisa, explicando diferentes perspectivas sobre modelos animais e humanos. “Pesquisas em animais e em seres humanos têm aplicações complementares, mas não são mutuamente excludentes”, destacou o hematologista, que também é vice-presidente da ABHH. No debate que encerrou o primeiro bloco, moderado pela Dra. Ana Clara Kneese, coordenadora do Comitê de Hemostasia e Trombose, se discutiu a relevância de introduzir a pesquisa clínica já na graduação. “Ela modifica o ambiente de ensino e de formação do médico”, reforçou o Dr. Rego. No mesmo espaço, o Dr. Angelo Maiolino comentou sobre avanços de estudos patrocinados pela indústria e investigações conduzidas de forma independente. “Evoluímos muito na pesquisa patrocinadora”, acrescentou. Fases e metodologias No segundo bloco, o Dr. Fernando Pericole, coordenador de pesquisa clínica e do ambulatório de Gamopatias do Hemocentro da Unicamp, explicou as diferentes etapas — pré-clínica, Fase 1, Fase 2 e Fase 3 —, ressaltando a importância de cada uma e os cuidados necessários para reduzir vieses. Também apresentou os principais desenhos de estudo, como o Paralelo e o N de 1, e detalhou o conceito de Acesso Expandido. “Desenhar um estudo clínico não é fácil. A primeira etapa é criar uma pergunta científica. Quando você desenvolve um estudo, também formula uma hipótese testável. A pesquisa clínica é a forma mais importante e eficiente da medicina”, frisou. Já o Dr. Carlos Chiattone, diretor de Relações Internacionais da ABHH e membro do Comitê de Pesquisa Clínica, tratou das diferenças entre ensaios clínicos dos próximos. É sempre bom se atualizar e criar conexões”, relatou Ifé, de 33 anos. Um dos principais objetivos do encontro foi incentivar a aproximação dos presentes com a pesquisa clínica. Esse foi o caso do Dr. Ariel Gutierrez Delgadillo, residente do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de São Paulo (IAMSPE). Natural da Bolívia, ele soube do workshop pelas redes sociais da ABHH e contou que sua condição de residente associado — que garante benefícios como descontos em eventos — possibilitou sua participação. “O que me trouxe aqui foi a oportunidade de ter contato com a pesquisa clínica, algo que não tive na faculdade. Essas atividades são muito esclarecedoras”, comentou. O workshop foi liderado pela coordenadora do Comitê de Pesquisa Clínica da ABHH, Dra. Danielle Leão (acima). Ao lado, Ifé Odara, analista de pesquisa do A.C. Camargo, aproveitou o evento para se atualizar e criar conexões
ABHH em Revista 15 / 2025 26 cobertura randomizados (RCTs) e estudos de vida real (RWD). Ele alertou para critérios de inclusão e exclusão muitas vezes rígidos, desfechos pouco alinhados à realidade e desafios da integração entre pesquisas patrocinadas pela indústria e aquelas conduzidas por investigadores independentes. Também destacou a visão de agências regulatórias, o uso de registros de pacientes e prontuários eletrônicos e perspectivas futuras envolvendo inteligência artificial (IA) e Big Data. “Ensaios clínicos randomizados e estudos de vida real se complementam, mas não se substituem. São essenciais para decisões regulatórias e de saúde pública”, afirmou. Encerrando a manhã, o Dr. Angelo Maiolino apresentou um panorama sobre o cenário nacional. Ele ressaltou a importância de órgãos de auditoria, como o Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) e a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), e comentou a nova Lei nº 17.874/2024, que regula a pesquisa clínica em seres humanos no Brasil, bem como a RDC 945 de 2024 da Anvisa. Para ele, o país tem avançado na modernização regulatória e o papel do pesquisador segue como essencial na garantia de ética e integridade. Qualidade e inteligência artificial Na parte da tarde, a programação ganhou profundidade com a palestra da Dra. Talita Silveira, que abordou o tema da qualidade em pesquisa clínica. “Qualidade é conhecer os bons pilares da prática clínica”, pontuou. A médica hematologista enfatizou que a segurança do paciente deve ser prioridade, lembrou casos antiéticos do passado e citou referências históricas da área. Também reforçou a importância da documentação em todas as etapas: “É vital que os procedimentos demonstrem aderência às regulações vigentes”, assinalou. Em seguida, o Dr. Marcelo Bellesso compartilhou experiências sobre recrutamento e retenção de pacientes, ressaltando que poucos médicos encaminham casos para estudos clínicos. Entre as estratégias, mencionou a definição de critérios de elegibilidade, a integração com equipes multidisciplinares e a construção de confiança desde o início do processo. “Buscar a equidade no recrutamento e garantir o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) são etapas essenciais. O TCLE é o primeiro rito indiscutível da pesquisa clínica”, observou. O tema da inteligência artificial apareceu na apresentação do Dr. Francis Fujii, médico e executivo com experiência em qualidade assistencial e resultados clínicos. Ele lembrou que Estados Unidos, Europa e Canadá concentram hoje os principais estudos, mas ressaltou que o Brasil tem potencial de liderança na América Latina devido à diversidade populacional e ao sistema universal de saúde. “Temos que aprender a trabalhar com IA”, advertiu. Na última palestra, a Dra. Danielle Leão apresentou “Condução de estudos clínicos na prática”, encerrando um dia inteiro de reflexões e aprendizado no workshop da ABHH. Importância das equipes multidisciplinares Encerrando o evento, a mesa-redonda discutiu o impacto das equipes multidisciplinares. Mariana Raquel Gonçalves, do Centro de Pesquisa Clínica São Francisco, destacou a morosidade regulatória, e Jessica Peretta, da BP — A Beneficência Portuguesa de São Paulo, alertou para planos alternativos de armazenamento de medicamentos. Larissa Kuil, do AC Camargo Cancer Center, ressaltou o papel do enfermeiro navegador, enquanto Elaine Longo, do Icesp, destacou a importância de recursos humanos capacitados. Já Vivienne Castilho, da Libbs, falou sobre planejamento financeiro, e o Dr. Maiolino destacou a relevância da pesquisa clínica na hematologia. Na plataforma de pesquisa clínica da ABHH, você encontra definições sobre o que são estudos clínicos, as diferentes fases e como cadastrar o seu! Clique no botão ao lado e acesse. Os palestrantes enriqueceram as discussões com suas experiências e contribuições
ABHH em Revista 15 / 2025 28 EM AÇÃO ABHH De Norte a Sul do país, médicos eleitos para o Conselho Deliberativo da ABHH unem experiência, visão estratégica e compromisso com a especialidade Por Danilo Gonçalves A FORÇA DA VOZ COLETIVA
15 / 2025 ABHH em Revista 29 Professor adjunto da Universidade do Estado do Pará (UEPA) e chefe do Serviço de Transplante de Medula Óssea do Hospital Ophir Loyola, o Dr. Thiago Xavier Carneiro encerra em 2025 seu mandato como membro do Conselho Deliberativo (CD) da ABHH e é candidato à reeleição para o período 2026-2029. Já a Dra. Amanda Pífano, hematologista do Grupo Oncoclínicas e paliativista do Instituto de Oncologia Ciências Médicas (Feluma) e do Grupo Oncoclínicas, compõe o quadriênio 2024-2027. De trajetórias distintas, ambos têm em comum a experiência de atuar pela primeira vez nesse órgão que simboliza muito mais do que um órgão fiscalizador. O Conselho Deliberativo da ABHH é um espaço de representatividade em que diferentes perspectivas se encontram para definir os rumos estratégicos da associação, garantindo que ela permaneça fiel à sua missão de promover o avanço da hematologia, hemoterapia e terapia celular no Brasil desde a especialidade até a aplicação das novas tecnologias em benefício dos pacientes que representa. Composto por médicos eleitos democraticamente pelos associados, o Conselho atua como pilar de governança da ABHH. Cabe a ele orientar a Diretoria Executiva, zelar pelo cumprimento do estatuto social e assegurar que a gestão seja transparente e eficiente. Suas deliberações fortalecem o alinhamento estratégico e resultam em melhorias em programas, serviços e projetos que impactam diretamente associados, pacientes e a sociedade. “Mais do que um órgão consultivo, o Conselho Deliberativo reflete a pluralidade da ABHH, garantindo que ela avance de forma transparente, estratégica e alinhada aos seus pilares”, destaca a gerente-geral da ABHH, Aline Pimenta. Os mandatos têm duração de quatro anos, e cada Estado ou Região conta com pelo menos um representante eleito, reforçando a pluralidade do órgão. Experiência que abre portas Ao olhar para trás, o Dr. Thiago descreve a importância de atuar como conselheiro da ABHH em seu mandato. “Participar do Conselho abre portas para novas oportunidades, amplia o conhecimento e aproxima da dinâmica da ABHH, que é uma instituição histórica. Além disso, o processo democrático de eleição garante a participação de médicos de todas as regiões do país, tornando a associação mais heterogênea e completa”, afirma. Já para a Dra. Amanda, o Conselho também simboliza diversidade de vozes e aprendizado coletivo. “O CD reúne hematologistas de diferentes regiões, idades e subespecialidades, o que amplia a visão da associação e promove mais equidade. É também uma oportunidade de amadurecimento pessoal e profissional, que reflete diretamente no cuidado aos pacientes”, destaca. Com experiências individuais que se somam em um esforço coletivo, os membros do Conselho Deliberativo mantêm viva a essência democrática da ABHH. “Cada nova composição retrata cada vez mais nosso Brasil plural, reforçando o compromisso de construir uma ABHH mais representativa e preparada para enfrentar os desafios da hematologia, hemoterapia e terapia celular no país”, completa Aline Pimenta, gerente-geral. Para se candidatar à próxima eleição do Conselho Deliberativo da ABHH, que acontece em 2027, o médico deve ser sócio efetivo, remido ou fundador, ter no mínimo dois anos de associação, estar quite com suas obrigações estatutárias e contar com a indicação de dois Conselheiros. Conheça todos os membros eleitos do CD no site da ABHH!
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