Estudos apontam para um futuro promissor em que algoritmos baseados em inteligência artificial (IA) irão acelerar a tomada de decisões diagnósticas na hematologia e na hemoterapia DO LABORATÓRIO AO ALGORITMO Dra. Belinda Avalos: a visão da presidente da ASH sobre equidade e inovação que transformam a especialidade página 6 ABRE ASPAS ABHH atrai grande público em seus eventos no primeiro semestre e marca presença em congressos globais página 16 COBERTURA Presidente da FAPESP, o Prof. Dr. Marco Antonio Zago segue comprometido com os avanços da ciência brasileira página 28 PERFIL #14 / 2025
O conteúdo deste informe é de inteira responsabilidade da empresa e não representa necessariamente a opinião da ABHH. INFORME CORPORATIVO Empenhados em solucionar necessidades médicas não atendidas, a Knight busca se consolidar também na área de hematologia. Material destinado para profissionais de saúde habilitados a prescrever ou dispensar medicamentos. 1731/MJV/SET2024 TRANSFORMANDO A VIDA DE SEUS PACIENTES ATRAVÉS DA CIÊNCIA Nossos pacientes em 1º lugar C M Y CM MY CY CMY K GUTTA_AF1_ANÚNCIO_FOCO NO PACIENTE_INSTITUCIONAL_KNIGHT_240925.pdf 1 02/10/24 16:31
sumário carta ao leitor p.4 | diretoria p.5 abre aspas p.6 capa p.10 Entrevista com a presidente da ASH, Dra. Belinda Avalos Avanços, desafios e impactos da IA na hematologia e hemoterapia perfil p.28 Prof. Dr. Marco Antonio Zago: referência e liderança na ciência brasileira giro ABHH p.32 ABHH participa do 5º PAN AMAZÔNICO em Manaus em perspectiva p.22 Os caminhos rumo à equidade de gênero na ciência cobertura p.16 Repercussão dos eventos da ABHH no Brasil e no exterior durante o primeiro semestre 14 / 2025 ABHH em Revista 3
carta ao leitor 4 Nesta edição, reunimos vozes, dados e cenários que ajudam a compreender os desafios e as possibilidades da hematologia hoje. Abrimos com uma entrevista com a Dra. Belinda Avalos, presidente da American Society of Hematology (ASH), que destaca a importância da cooperação internacional, a diversidade na ciência e os desafios para ampliar o acesso a terapias e diagnósticos. Na reportagem de capa, mostramos como a inteligência artificial (IA) começa a transformar serviços como a Fundação Pró-Sangue, em São Paulo. Algoritmos são usados para prever demandas, ajustar estoques e melhorar a gestão hospitalar, aumentando a eficiência no cuidado. Entre os entrevistados, contamos com as reflexões do Dr. Roni Shouval, membro da Subcomissão de Inteligência Artificial da ASH. Nesta edição, também trazemos um panorama dos eventos promovidos pela ABHH no primeiro semestre. Destacamos a 15ª edição do Brazilian Lymphoma Conference (BLC 2025), o Fórum de Acesso e Equidade da Região Sul, o XI Encontro do Comitê de Glóbulos Vermelhos e do Ferro e o III Simpósio Brasileiro de Citometria, todos com ótima audiência, participação internacional e uma programação científica de excelência. Também celebramos o sucesso da 4ª Corrida & Caminhada Um Só Sangue, que reuniu um público entusiasmado em torno da causa. A desigualdade de gênero na ciência é um tema que exige visibilidade e ação. Embora as mulheres sejam maioria na hematologia, elas ainda recebem menos recursos de fomento à pesquisa do que seus colegas homens. Os estudos mostram que essa disparidade persiste mesmo em ambientes acadêmicos altamente qualificados, revelando um obstáculo estrutural ao avanço da equidade na produção científica. Por fim, apresentamos o perfil do Prof. Dr. Marco Antonio Zago, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Aos 78 anos, Zago discute o papel da ciência como política de estado, os desafios do financiamento e a autonomia científica diante das mudanças nas diretrizes nacionais. Esta edição convida à reflexão, à atualização e ao diálogo entre ciência, prática clínica e sociedade. Boa leitura! Equidade na ciência e IA na hematologia Dr. Renato Sampaio Tavares e Dra. Vania Hungria Diretoria de Comunicação ISSN 2179-4855 ABHH em Revista é uma publicação da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) distribuída gratuitamente para seus associados. O conteúdo da publicação é de inteira responsabilidade de seus autores e não representa necessariamente a opinião da ABHH. JORNALISTA RESPONSÁVEL Roberto Souza (Mtb 11.408) EDITOR Madson de Moraes REPORTAGEM Danilo Gonçalves Roberto Souza Talita Ribeiro REVISÃO Joice Costa PROJETO EDITORIAL Madson de Moraes PROJETO GRÁFICO Leonardo Fial DESIGNERS Lucas Bellini Rafael Bastos FOTO DE CAPA Getty Images CONTATO COMERCIAL Caroline Frigene RS HEALTH Rua Cayowaá, 228 – Perdizes São Paulo – SP – 05018-000 (11) 3875-6296 rspress@rspress.com.br www.agenciars.co ABHH Rua Dr. Diogo de Faria, 775, conj. 133 Vila Clementino São Paulo - SP (11) 2369-7767 / (11) 2338-6764 abhh@abhh.org.br www.abhh.org.br @abhhoficial ABHH em Revista 14 / 2025
DIRETORIA ABHH 2024-2025 Conheça os especialistas que integram a direção da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular Glaciano Ribeiro Leny Nascimento da Motta Passos Carmino Antônio de Souza Eduardo Magalhães Rego Celso Arrais Edvan Crusoé José Francisco Comenalli Marques Júnior Violete Petitto Laforga Carlos Sérgio Chiattone Angelo Maiolino Roberto Passetto Falcão José Orlando Bordin Renato Sampaio Tavares Dante Langhi Júnior Dimas Tadeu Covas Vania Hungria Jorge Vaz Pinto Neto Silvia Maria Meira Magalhães Diretoria Administrativa Diretoria Científica Diretoria de Defesa Profissional Diretoria de Ações Sociais Diretoria Financeira Diretoria de Comunicação Diretoria de Relações Institucionais Diretor Científico Emérito Diretor de Orientação e Aconselhamento Presidente Vice-presidente 14 / 2025 ABHH em Revista 5
Liderança com foco em equidade ABHH em Revista 14 / 2025 6 abre aspas Presidente da American Society of Hematology, a Dra. Belinda Avalos fala sobre sua carreira, destaca a importância dos programas de promoção da diversidade da ASH para a prática em hematologia e ressalta a relevância da parceria com a ABHH Por Madson de Moraes Fotos: ASH
A médica hematologista Belinda R. Avalos foi eleita em 2025 presidente da American Society of Hematology (ASH). Filha de imigrantes mexicanos, Belinda trilhou uma carreira marcada por sua dedicação à pesquisa em hematologia com contribuições significativas nas áreas de leucemogênese, neutropenia congênita, transplante e terapia celular. Membro da ASH há mais de 30 anos, ela é reconhecida por seu compromisso com a diversidade e inclusão e, sob sua liderança, a ASH tem ampliado programas voltados para a equidade no acesso à saúde e fortalecido parcerias internacionais. Na entrevista a seguir, a presidente fala sobre sua carreira, destaca a importância dos programas de promoção da diversidade promovidos pela ASH para a prática clínica em hematologia e ressalta a relevância da parceria “longa e especial” com a ABHH. Confira! O que a fez escolher a medicina? Quando criança, sempre tive interesse por ciência e por “experimentar”. Meu pai era cirurgião e sempre achei o trabalho dele interessante. Seus pacientes, que vinham da mesma região rural onde minha família vivia, eram profundamente gratos pela ajuda que oferecia, muitas vezes sem cobrar nada. Eles o amavam. Infelizmente, meu pai faleceu quando eu tinha 16 anos, mas deixou uma marca duradoura em mim. Ele lançou as bases para meu interesse inicial pela medicina. E o interesse pela hematologia e pesquisa surgiu em que momento? Na faculdade, a pesquisa em bioquímica foi minha primeira incursão no mundo da pesquisa. No primeiro ano, a hematologia me pareceu interessante e muito fisiológica. Só durante meu estágio clínico com a Dra. Bertha Bouroncle, uma hematologista peruana que descreveu pela primeira vez a leucemia de células pilosas, comecei a considerar uma carreira em hematologia. Ela me ensinou a arte da análise morfológica de esfregaços de sangue periférico e aspirados de medula óssea, me incentivando a fazer uma especialização, em Seattle, para aprender a realizar transplantes de medula óssea (TMO). Por meio dela, compreendi a importância da pesquisa para a inovação, a descoberta, o cuidado clínico e a melhoria dos resultados dos pacientes. Houve outra mentora como uma figura crucial? Outra mentora importante para mim é a Dra. Judy Gasson, que originalmente purificou o GM-CSF [substância que aumenta a velocidade de reprodução das células da medula óssea] e me aceitou em seu laboratório. Ela me ensinou a fazer pesquisa básica e translacional e me incentivou a submeter resumos, a escrever manuscritos e a pleitear financiamentos. Foi Judy quem me encorajou a submeter meu primeiro resumo para a ASH, que foi aceito para apresentação oral. Muitos anos depois, Judy continua sendo uma inspiração. Tenho seguido seu exemplo com minhas próprias equipes de pesquisa. Você citou a ASH: o que a motivou a participar das atividades da Associação? Entrei para a ASH em 1993, motivada pelo meu grande interesse em hematologia, ciência, pesquisa e na melhoria dos resultados para os pacientes. A ASH tem sido minha casa desde então. Quando participei da minha primeira reunião da Associação como residente, fiquei imediatamente impressionada com o alto nível científico das apresentações e com o espírito colaborativo entre pesquisadores iniciantes e experientes de todo o mundo. Havia uma empolgação no ar como em nenhum outro encontro que eu já havia frequentado. A reunião selou para sempre meu interesse pela hematologia e nunca mais olhei para trás. Acho que perdi apenas três reuniões anuais da ASH desde a minha Entrei para a ASH em 1993, motivada pelo meu grande interesse em hematologia, ciência, pesquisa e na melhoria dos resultados para os pacientes. A ASH tem sido minha casa desde então 14 / 2025 ABHH em Revista 7
primeira. Aproveitei todas as oportunidades para me envolver com a ASH por meio de serviços em diversos comitês e em cargos de liderança. Nesses mais de 30 anos de ASH, quais ações mais a orgulham de ter liderado? Sob minha liderança como presidente do Comitê de Promoção da Diversidade, foram desenvolvidos o Programa de Embaixadores da ASH e novos programas de premiação para estudantes e residentes tradicionalmente sub-representados na hematologia. Como mulher mexicano-americana de primeira geração que cresceu em uma área rural de Ohio, compreendo a importância de enfrentar as desigualdades na saúde e no acesso ao atendimento. Tenho paixão por continuar construindo uma força de trabalho em hematologia mais diversa e inclusiva. É uma honra e um privilégio incríveis servir como presidente da ASH este ano. Espero levar a ASH a níveis de excelência ainda mais altos. ABHH em Revista 14 / 2025 8 Acima, registro do Highlights of ASH na América Latina. Abaixo, Dra. Belinda na cerimônia de posse como presidente da ASH realizada no ano passado
Quais são os principais objetivos atuais da ASH no cenário global? A ASH está focada em promover uma comunidade hematológica verdadeiramente global e busca ampliar o intercâmbio de conhecimento científico e de recursos clínicos entre hematologistas e pesquisadores ao redor do mundo. Promover os mais altos padrões de ciência e cuidado ao paciente em hematologia também é uma prioridade, com forte ênfase em equidade e acessibilidade. A ASH tem um compromisso especial com o desenvolvimento da hematologia em regiões com menos recursos, incentivando a colaboração, a formação e o compartilhamento de expertise. A ASH e a ABHH são parceiras há mais de 15 anos. O que motiva a ASH a continuar construindo parcerias bem-sucedidas com outras associações? Temos uma relação longa e especial com a ABHH. Em parceria com a ASH, a ABHH coorganizou a primeira edição internacional do Highlights of ASH (HOA) na América Latina, realizada em São Paulo, Brasil, em 2009. Desde então, a ABHH sediou diversas outras edições do Highlights of ASH na região. Em 2017, a ABHH, juntamente com outras 10 sociedades de hematologia da América Latina, firmou uma parceria com a ASH para desenvolver o Registro Latino-Americano de Anemia Aplástica e, em 2020, a ASH e a ABHH iniciaram uma colaboração em um simpósio conjunto no HEMO. Parcerias com associações internacionais têm sido fundamentais para entender as necessidades locais e explorar formas de trabalhar em conjunto para fortalecer a hematologia e melhorar os desfechos dos pacientes ao redor do mundo. Há uma força imensa na diversidade de vozes que trabalham por uma causa comum e as parcerias bem-sucedidas com essas associações desempenham papel central no avanço da hematologia. Quais desafios a pesquisa em hematologia enfrenta hoje nos Estados Unidos? As incertezas no financiamento federal para pesquisa e programas que apoiam pacientes com doenças hematológicas (como o Programa de Coleta de Dados de Anemia Falciforme, os centros de tratamento de hemofilia, a conscientização sobre tromboembolia venosa etc.) são os grandes desafios na hematologia. Os cortes propostos no orçamento do NIH (National Institutes of Health) e na força de trabalho e orçamento dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) já impactaram numerosos pesquisadores. Esses cortes tiveram um efeito inibidor. Nosso país tem sido um líder global em avanços científicos e em pesquisa médica, e esses cortes e quaisquer outros futuros terão um impacto duradouro sobre os avanços médicos em nosso país e irão dificultar a realização de ensaios clínicos e o desenvolvimento de futuras gerações de cientistas e médicos. Os membros da ASH se reuniram com os principais líderes do Congresso em diversas ocasiões este ano e nossos esforços de advocacy continuam. Qual seu conselho para jovens hematologistas brasileiros que desejam se conectar com a ASH e se destacar internacionalmente? A ASH está comprometida com o fortalecimento da força de trabalho em hematologia e com o apoio a jovens hematologistas e cientistas ao redor do mundo. Temos um extenso portfólio, que inclui programas de formação, bolsas de pesquisa e publicações científicas globais, projetados especificamente para candidatos internacionais. Recomendo fortemente que qualquer pessoa interessada em expandir seu conhecimento e se conectar com a ASH visite a página de Iniciativas Globais da ASH (www.hematology.org/global-initiatives) e se inscreva nos programas! Participar de sociedades profissionais, publicar pesquisas e trabalhar com mentores são ótimas formas de se destacar internacionalmente. Eventos como o congresso anual da ASH oferecem oportunidades para se conectar com colegas e especialistas da área, o que pode abrir portas para colaborações futuras. Buscar mentores alinhados com seus interesses também é fundamental. Um bom mentor pode ajudar a refinar ideias de pesquisa, estruturar artigos e até orientar no processo de submissão. Como mulher mexicanoamericana de primeira geração que cresceu em uma área rural de Ohio, compreendo a importância de enfrentar as desigualdades na saúde e no acesso ao atendimento 14 / 2025 ABHH em Revista 9
Estudos apontam para um futuro promissor em que algoritmos baseados em inteligência artificial (IA) irão acelerar a tomada de decisões diagnósticas na hematologia e na hemoterapia Por Madson de Moraes DO LABORATÓRIO AO ALGORITMO debate ABHH ABHH em Revista 14 / 2025 10 Foto: Getty Images
A inteligência artificial (IA) tem emergido como uma aliada poderosa na medicina, abrindo novos horizontes especialmente em áreas complexas como a hematologia e a hemoterapia. Com a capacidade de processar grandes volumes de dados e revelar padrões invisíveis ao olhar humano, a IA promete transformar não apenas a forma de diagnosticar, mas de pensar a prática clínica. Estudos apontam para um futuro promissor em que algoritmos baseados em inteligência artificial irão acelerar a tomada de decisões diagnósticas e apoiar ensaios clínicos. Ao mesmo tempo, destacam a necessidade de um debate ético sobre os limites e responsabilidades no uso dessas tecnologias, afinal, inovar também é garantir que o progresso caminhe lado a lado com a equidade e a integridade científica. No estudo “A Review of Artificial Intelligence Applications in Hematology Management: Current Practices and Future Prospects”, publicado no Journal of Medical Internet Research, os pesquisadores afirmaram que a literatura atual sugere que a aplicação da IA na área de hematologia gerou resultados impressionantes nas etapas de triagem, diagnóstico e tratamento. Já os pesquisadores do artigo “Artificial Intelligence in Hematological Diagnostics: Game Changer or Gadget?”, publicado na revista Computers in Biology and Medicine, ressaltaram que o futuro do diagnóstico clínico e do tratamento de doenças hematológicas envolverá, inevitavelmente, a integração de sistemas baseados em IA na prática de rotina para apoiar a tomada de decisão. Em cânceres hematológicos que exigem diagnósticos precisos, como o caso da leucemia mieloide aguda (LMA), o uso da IA se mostra promissor na identificação, classificação e prognóstico, ao possibilitar maior personalização do tratamento, de acordo com o artigo “Utilização de inteligência artificial para identificar biomarcadores com intuito de otimizar o tratamento de paciente com 14 / 2025 ABHH em Revista 11
leucemia mieloide aguda”, publicado em 2024 na Hematology, Transfusion and Cell Therapy (HTCT), revista científica da ABHH. “A utilização de biomarcadores genéticos da doença é um exemplo de como a IA pode aumentar a especificidade e rapidez na abordagem terapêutica”, sugerem os pesquisadores. Automatização de tarefas O médico hematologista Roni Shouval integra a Subcomissão de Inteligência Artificial da American Society of Hematology (ASH). Autor do artigo “Machine Learning and Artificial Intelligence in Haematology”, publicado em 2020 no British Journal of Haematology, ele escreveu que as aplicações do aprendizado de máquina ou machine learning (técnica de IA que busca extrair computacionalmente insights significativos de estruturas de dados complexas em cenários hematológicos) estão aumentando constantemente. Na pesquisa em hematologia, o Dr. Shouval observa que a inteligência artificial remodelou os fluxos de trabalho de pesquisa ao possibilitar a integração de dados multimodais – genômicos, transcriptômicos, de imagem e clínicos — em uma escala e velocidade antes inalcançáveis. Isso facilitou a geração de hipóteses, descoberta de biomarcadores e identificação de novos alvos terapêuticos. “Clinicamente, ferramentas movidas a IA auxiliam hematologistas automatizando tarefas repetitivas como classificação diagnóstica, sinalização de anomalias em dados laboratoriais ou orientação para elegibilidade em ensaios clínicos. Essas inovações permitem que os médicos dediquem mais tempo ao julgamento clínico e ao cuidado dos pacientes, promovendo uma abordagem orientada por dados ao tratamento”, avalia. O especialista destaca que a inteligência artificial tem sido cada vez mais empregada para aprimorar a precisão e a eficiência diagnóstica, especialmente na hematopatologia, onde a leitura de dados laboratoriais complexos é fundamental. “A principal aplicação da IA hoje é ajudar hematopatologistas automatizando a análise de esfregaços sanguíneos periféricos, aspirados de medula óssea e dados de citometria de fluxo, tarefas que frequentemente consomem tempo e estão sujeitas à variabilidade entre observadores”, comenta. Além do diagnóstico, a IA também é usada em genômica, previsão de risco clínico e terapia celular, mas o especialista destaca que um uso mais maduro e impactante segue sendo o aprimoramento de fluxos de trabalho de diagnóstico. Integração clínica em tempo real, em que a IA atualiza continuamente avaliações de risco com base em dados ao vivo dos prontuários eletrônicos. Modelos multimodais que combinam genômica, transcriptômica e anotações clínicas para uma classificação de doenças e predição de desfechos mais precisos. A IA generativa contribuirá cada vez mais para o design de medicamentos, otimização de protocolos e simulação de ensaios clínicos com pacientes sintéticos. Tecnologia digital twin (gêmeos digitais de pacientes) pode se tornar uma ferramenta poderosa para testar estratégias de tratamento virtualmente antes de aplicá-las na vida real. Desenvolvimentos esperados com o uso da IA na hematologia: 12 ABHH em Revista 14 / 2025 debate ABHH
Hemoterapia: IA reduz erros e melhora a doação Na Fundação Pró-Sangue Hemocentro de São Paulo, referência nacional em hemoterapia, o uso de tecnologias avançadas já transforma a rotina. Segundo Denis Alessandro da Silva, gerente da Divisão de Tecnologia da Informação da instituição, praticamente todos os equipamentos das etapas de coleta, processamento e análise estão hoje integrados por sistemas informatizados. “Com mínima ou nenhuma intervenção humana, conseguimos garantir maior segurança e precisão nos processos”, afirma. Um dos marcos dessa evolução foi o interfaceamento bidirecional entre os equipamentos de aférese e o sistema institucional. Apresentado no congresso da ISBT, o impacto foi expressivo: a taxa de erros em coletas de plaquetas caiu de 55% para 2%. “Esse resultado demonstra como o uso da tecnologia é essencial para garantir a qualidade e a eficiência operacional”, destaca Denis. A inteligência artificial também apoia a gestão de estoques de sangue. Algoritmos ajudam a convocar doadores com base em dados atualizados, evitando desperdícios e prevendo quedas nos estoques. Chatbots, redes sociais e ferramentas de análise preditiva tornam as campanhas mais eficazes. “A gestão dos estoques de sangue vai além do simples controle de entradas e saídas de bolsas; ela depende também do comportamento e da disponibilidade dos doadores”, explica. Durante a pandemia de Covid-19, a digitalização foi acelerada. Um sistema de agendamento online com triagem baseada em IA e totens de autoatendimento ajudou a reduzir o tempo de doação em 30% e as inaptidões em 5%. “Conseguimos reduzir em 30% o tempo total do processo de doação e diminuímos em 5% o número de inaptidões”, diz. Uma pesquisa recente apontou que 94% dos doadores aprovaram a experiência digital. Desafios regulatórios e éticos À medida que a IA continua a permear a prática e a pesquisa em hematologia, é essencial reconhecer e enfrentar os desafios que acompanham esse cenário, que incluem a necessidade de regulamentação e vigilância ética. Na avaliação do Dr. Roni Shouval, muitos modelos de IA funcionam como “caixas-pretas”, dificultando a compreensão de como as predições são geradas. Outro desafio é o problema de dados enviesados, quando as informações usadas para “ensinar” um algoritmo não refletem a diversidade da população real, levando a modelos que podem causar danos em grupos subrepresentados. Além disso, a falta de marcos regulatórios no uso da IA na medicina ainda precisa ser delimitado. “Garantir a equidade na IA começa pela transparência tanto em como os modelos são desenvolvidos quanto nos dados usados para treiná-los. Mesmo ferramentas aprovadas pela FDA demonstraram limitações de desempenho em validações externas, como visto em alguns modelos de predição para sepse e oncologia. Além disso, instituições carecem de estruturas padronizadas para monitoramento contínuo do desempenho da inteligência artificial, especialmente à medida que os dados clínicos mudam ao longo do tempo”, assinala. Neste caso, será necessário que os desenvolvedores divulguem a composição dos conjuntos de dados de treinamento, incluindo demografia relevante como idade, sexo, ancestralidade e subtipo da doença. Sem essa transparência, assinala o Dr. Shouval, é impossível avaliar se o modelo tem probabilidade de se generalizar para diferentes populações ou perpetuar as disparidades existentes. Também é importante realizar análises de subgrupos e validações externas em múltiplas instituições e grupos de pacientes. “A construção de uma IA justa requer colaboração entre médicos, cientistas de dados e especialistas em ética desde o início. O envolvimento de diversas vozes ajuda a identificar potenciais fontes de viés precocemente e garante que as ferramentas de IA sejam projetadas para apoiar um atendimento equitativo”, comenta o Dr. Shouval. À medida que a inteligência artificial avança e se torna parte essencial dos ambientes clínicos e de pesquisa, será fundamental incluir na formação dos hematologistas conceitos como aprendizado de máquina e ciência de dados 14 / 2025 ABHH em Revista 13
A IA irá substituir os hematologistas? À medida que a inteligência artificial avança e se torna parte essencial dos ambientes clínicos e de pesquisa, será fundamental incluir na formação dos hematologistas conceitos como aprendizado de máquina, ciência de dados e tomada de decisão algorítmica. O estudo “Assessing knowledge gaps and attitudes towards artificial intelligence (AI) among healthcare professionals working in haematology”, divulgado durante o congresso da European Hematology Association (EHA) deste ano, identificou essa falta de compreensão dos conceitos de IA entre profissionais de saúde em hematologia, destacando a necessidade de iniciativas educacionais direcionadas. Na opinião do Dr. Roni Shouval, membro da Subcomissão de Inteligência Artificial da ASH, essa mudança não significa formar hematologistas como cientistas de dados, mas sim garantir que estejam aptos a interpretar, avaliar e colaborar de forma crítica e ética em soluções baseadas em IA. “O uso dessas tecnologias deve ser visto como um reforço, não substituição. Hematologistas trazem julgamento clínico refinado, empatia e capacidade de lidar com incertezas, qualidades que as máquinas não possuem. O futuro provavelmente será uma colaboração em que a IA assume tarefas pesadas de dados e os hematologistas focam na tomada de decisões complexas e no cuidado ao paciente”, avalia. Em uma entrevista concedida à EHA no YouTube e publicada no final do ano passado, o Dr. Gregor Hormann, do Laboratório de Leucemia de Munique, é categórico. “A inteligência artificial não substituirá os médicos. No entanto, os médicos que usam a IA substituirão aqueles que não a usam.” À medida que a IA continua a permear a prática e a pesquisa em hematologia, é essencial reconhecer e enfrentar os desafios que acompanham esse cenário, que incluem a necessidade de regulamentação e vigilância ética “Machine learning and artificial intelligence in haematology” “Machine learning in haematological malignancies” “A review of artificial intelligence applications in hematology management: current practices and future prospects” “The potential for artificial intelligence in healthcare” “Artificial Intelligence-Based Algorithm for the Diagnosis of Idiopathic Multicentric Castleman's Disease in a Lower-Middle Income Country” “Use of Artificial Intelligence in Blood Donation: A Literature Review” “Differential diagnosis of bone marrow failure syndromes guided by machine learning” Confira alguns estudos que analisam o potencial da IA na hematologia ABHH em Revista 14 / 2025 14 debate ABHH
SEMESTRE MARCADO POR CIÊNCIA E EQUIDADE ABHH em Revista 14 / 2025 16 cobertura No primeiro semestre, a ABHH promoveu eventos com debates voltados ao avanço científico, à inovação e à promoção da equidade em saúde. Confira a repercussão do Fórum de Equidade na Região Sul, do BLC 2025, do Encontro do Comitê de Glóbulos Vermelhos e do Ferro, do Simpósio Brasileiro de Citometria de Fluxo e da 4ª Corrida & Caminhada Um Só Sangue BLC 2025 reafirma sua importância global A 15ª edição do Brazilian Lymphoma Conference (BLC) foi realizada de 9 a 12 de abril, integralmente online, reunindo mais de 1.150 participantes. O evento proporcionou uma imersão nas descobertas científicas e avanços terapêuticos mais recentes no tratamento dos linfomas. A abertura contou com o Dr. Carlos Chiattone, chair do evento, e o Dr. Angelo Maiolino, presidente da ABHH, além de uma homenagem in memoriam ao Dr. Bernardo Garicochea, referência em oncogenética no Brasil. Além de nomes nacionais, o BLC contou com palestrantes renomados da Alemanha, Austrália, EUA, Espanha, Itália, Polônia, República Tcheca e Suíça. O primeiro dia abordou linfomas agressivos, como o LDGCB e o DHL, além de linfomas com características especiais, como o plasmablástico e o anaplásico de grandes células. O dia foi encerrado com um debate sobre o futuro dos anticorpos biespecíficos versus terapias CAR-T. No segundo dia, também houve sessões sobre linfoma folicular, linfomas de células T periféricas e estudos clínicos. Os dois últimos dias trataram do linfoma de Hodgkin, terapias avançadas, doenças mieloproliferativas e cooperação científica na América Latina. O destaque foi a Conferência Magna sobre LLC, com o Prof. Michael Hallek, do CLL Study Group. O encerramento ABRIL contou com uma sessão final de Hot Topics. Chiattone destacou que o modelo online facilita a participação de especialistas globais e promove intercâmbios acadêmicos internacionais. BLC 2025 reuniu mais de 1.150 participantes Fotos: Divulgação
14 / 2025 ABHH em Revista 17 MAIO Fórum de Acesso e Equidade – Região Sul Dando continuidade às ações em prol da equidade regional em saúde, a ABHH realizou, no dia 15 de maio, a edição Sul do Fórum de Acesso e Equidade, no Hotel Hilton Porto Alegre. Assim como nas edições anteriores, em Natal (RN) e Belém (PA), em 2024, a programação incluiu visitas a instituições de saúde e um dia de debates voltados à compreensão dos desafios locais. O evento teve transmissão ao vivo pelo canal da ABHH no YouTube. A escolha da capital gaúcha para a realização do fórum levou em consideração o contexto crítico vivido pelo estado, ainda fortemente impactado pela maior enchente de sua história. A crise climática comprometeu seriamente o sistema de saúde local, tornando ainda mais urgente a discussão sobre acesso, estrutura e integração dos serviços onco-hematológicos. No dia 14 de maio, a comitiva da ABHH visitou três instituições com diferentes modelos de gestão: o Hospital Nossa Senhora da Conceição (100% SUS), o Hospital Mãe de Deus (privado) e a Santa Casa de Misericórdia (filantrópica). “Fiquei impressionado com a estrutura das três instituições, especialmente com a nova ala de onco-hematologia do Hospital Conceição”, afirmou o presidente da ABHH, Dr. Angelo Maiolino. A programação do fórum abordou temas como a implementação da Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer (PNPCC), a organização dos serviços onco-hematológicos nos Centros de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (CACONs) e nas Unidades de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (UNACONs), além do uso da inteligência artificial na navegação de pacientes. No encontro, a ABHH aplicou um questionário para mapear os desafios da área, e os resultados serão apresentados no HEMO 2025, que será realizado de 29 de outubro a 1º de novembro no Transamerica Expo Center, em São Paulo. A edição Sul do Fórum de Acesso e Equidade teve debates sobre políticas públicas, financiamento e acesso a tratamentos Comitiva da ABHH em visita a instituições com diferentes modelos de gestão na capital gaúcha, trocando experiências e boas práticas
ABHH em Revista 14 / 2025 18 cobertura XI Encontro do Comitê de Glóbulos Vermelhos e do Ferro Já nos dias 29 e 30 de maio, o Hotel Blue Tree Faria Lima, em São Paulo, sediou o XI Encontro do Comitê de Glóbulos Vermelhos e do Ferro da ABHH. Com o tema “Doenças dos Glóbulos Vermelhos e do Ferro: estado da arte e perspectivas futuras, com foco no respeito à diversidade e na promoção da equidade em saúde”, o evento reuniu mais de 200 participantes, entre hematologistas, clínicos, enfermeiros, farmacêuticos e outros profissionais da saúde. A abertura contou com o coordenador do comitê, Dr. Fernando Ferreira Costa, e o Dr. Rodolfo Cançado, membro do comitê. O primeiro dia teve mesas-redondas sobre doença falciforme, deficiência de ferro, porfirias e sobrecarga de ferro. Houve também simpósios promovidos pela indústria. A programação incluiu ainda um debate sobre envelhecimento da população com doença falciforme, cuidados paliativos e novas terapias. No segundo dia, as discussões abordaram talassemias, doenças raras, deficiência de ferro e hemocromatose hereditária e simpósios corporativos. O Encontro reuniu 38 conferencistas, incluindo dois convidados internacionais: o Dr. Shreyans Gandhi, do King’s College Hospital (Londres), e o Dr. Sujit Sheth, da Weill Cornell Medicine (EUA). Simpósio de Citometria reúne mais de 700 participantes Nos dias 6 e 7 de junho, o III Simpósio Brasileiro de Citometria de Fluxo reuniu mais de 700 participantes em um dos principais encontros educacionais da área. Realizado 100% online, o evento se consolidou como referência em educação continuada nas áreas de hematologia, imunologia, neoplasias não hematopoéticas e inovações tecnológicas. Promovido pela ABHH e pelo Grupo Brasileiro de Citometria de Fluxo (GBCFLUX), o simpósio ofereceu 15 horas de conteúdo científico de alto nível, distribuídas em sete sessões científicas e três simpósios corporativos. A programação contou com a participação de 23 especialistas do Brasil, França, Uruguai, Estados Unidos e Espanha, consolidando o caráter internacional do evento. O ponto alto foi a conferência magna da Dra. Julia Almeida, presidente da Sociedad Ibérica de Citometría (SIC), reconhecida mundialmente por sua atuação na área. Na cerimônia de abertura, a Dra. Miriam Perlingeiro Beltrame, coordenadora do simpósio, agradeceu aos palestrantes e destacou a importância da troca de conhecimentos para o avanço técnico e científico da citometria de fluxo. O simpósio reafirmou o compromisso do GBCFLUX e da ABHH com a excelência, a padronização técnica e a promoção da ciência colaborativa, conectando profissionais do Brasil e do mundo em torno da inovação e do conhecimento. JUNHO XI Encontro do Comitê de Glóbulos Vermelhos e Ferro reuniu mais de 200 participantes A programação contou com a participação de especialistas do Brasil, França, Uruguai, Estados Unidos e Espanha
14 / 2025 ABHH em Revista 19 4ª Corrida & Caminhada Um Só Sangue reforça importância da doação voluntária Com largada no Campo de Marte, em São Paulo, a 4ª edição da Corrida & Caminhada Um Só Sangue reuniu cerca de 2 mil participantes no dia 29 de junho em uma ação que uniu saúde, solidariedade e conscientização. Promovido pela ABHH em parceria com a ABRALE e a ABRASTA, o evento integrou a campanha Junho Vermelho e buscou incentivar a doação voluntária e regular de sangue. Com provas de corrida (5 km e 10 km) e caminhada (3 km) para adultos, além de um circuito kids dividido por faixas etárias, a programação atraiu corredores amadores, doadores frequentes, profissionais de saúde e famílias. Além da mobilização popular, a iniciativa também promoveu educação em saúde, com orientações sobre quem pode doar, os critérios de elegibilidade e os intervalos entre doações. A Corrida & Caminhada Um Só Sangue faz parte do Programa Um Só Sangue, criado em 2021 pela ABHH para ampliar a cultura da doação de sangue ao longo de todo o ano, e não apenas em datas específicas. O programa sensibiliza a sociedade sobre a importância da doação recorrente para garantir estoques seguros nos hemocentros. “A Corrida & Caminhada se tornou uma das ações públicas mais relevantes da ABHH no diálogo com a sociedade civil. Ao unir esporte e solidariedade, o evento contribui para fortalecer uma rede nacional de doação de sangue baseada em cidadania, cuidado e compromisso com a vida”, diz o presidente da ABHH, Dr. Angelo Maiolino. A 4ª edição da Corrida & Caminhada reuniu cerca de 2 mil participantes em apoio à causa da doação de sangue
Presença da ABHH se destaca em congressos globais ABHH em Revista 14 / 2025 20 cobertura Estande e reuniões estratégicas durante o EHA 2025 Com estande próprio, a ABHH se destacou como representante da hematologia brasileira no congresso da European Hematology Association (EHA), realizado de 12 a 15 de junho, em Milão. Em seu estande, a ABHH recebeu profissionais de diversos países e apresentou suas iniciativas científicas, educacionais e institucionais. Durante o congresso, membros da Diretoria e de Comitês participaram de atividades e mantiveram agendas estratégicas com representantes da EHA e da American Society of Hematology (ASH). Entre os destaques da programação, a ABHH e a EHA promoveram conjuntamente um simpósio sobre anemia falciforme e talassemia, reforçando a atuação colaborativa das entidades em temas de relevância global. “A presença da ABHH com estande próprio no EHA reforça nossa parceria estratégica com a associação europeia e consolida nossa atuação internacional. Temos iniciativas conjuntas importantes nas áreas científica e educacional, e essa visibilidade também é fundamental para divulgar o HEMO, nosso congresso anual, que neste ano deve superar a marca de oito mil inscritos”, comenta o presidente da ABHH, Dr. Angelo Maiolino. Uma das novidades será o possível retorno do evento “ASH Highlights” ao Brasil em 2027, além da divulgação de programas da ASH voltados a jovens pesquisadores e residentes, como o Global Research Award, Explorer Award e Abstract Achievement Awards, que buscam ampliar o acesso internacional a oportunidades de formação e reconhecimento científico. ABHH e ISBT discutem novas frentes de cooperação Também em junho, a International Society of Blood Transfusion (ISBT) realizou a 35ª edição de seu congresso, sediado em Milão. O evento reuniu especialistas de renome mundial nas áreas de trombose, hemostasia e biologia vascular para apresentar os avanços mais recentes e discutir aplicações clínicas inovadoras voltadas à melhoria do cuidado ao paciente. Representando a ABHH, participaram o Dr. José Orlando Bordin, diretor No congresso, Diretores e Comitês da ABHH realizaram atividades e reuniões estratégicas com a ASH e EHA Durante o congresso, a comitiva da ABHH reuniu-se com o presidente atual da ISBT, Pierre Tiberghien, o presidente eleito Lin Fung e outros membros da entidade
14 / 2025 ABHH em Revista 21 de Orientação e Aconselhamento, e o Dr. Dante Langhi, diretor de Relações Institucionais. Durante o congresso, a comitiva da ABHH se reuniu com o presidente atual da ISBT, Pierre Tiberghien, com o presidente eleito, Lin Fung, entre outros membros da entidade. Um dos principais destaques foi a renovação do Memorando de Entendimento (MoU), que reforça e formaliza a cooperação entre as duas instituições. Também foi debatida a criação de uma comissão mista entre ABHH e ISBT com o objetivo de desenvolver estratégias voltadas ao fortalecimento da medicina transfusional na América Latina. Especialistas brasileiros em destaque na ICML 2025 A 18ª edição da International Conference on Malignant Lymphoma (ICML) foi realizada de 17 a 21 de junho, em Lugano, na Suíça. Reconhecido como o principal evento científico global dedicado às doenças linfoproliferativas, o congresso reuniu especialistas de todo o mundo para apresentar avanços na pesquisa e no tratamento dessas patologias. A ABHH esteve representada na conferência por seus diretores Carlos Chiattone, Glaciano Ribeiro, Jorge Vaz Neto e Renato Tavares, além de membros dos Comitês de Terapia Celular e de Doenças Linfoproliferativas. Nas redes sociais da ABHH, eles comentaram estudos e pôsteres apresentados no evento. O Dr. Carlos Chiattone teve atuação de destaque na programação científica, com a apresentação do pôster “The Outcome of Adult T-Cell Leukemia/Lymphoma in Real World Setting: Insights from the T-Cell Project 2.0”. O trabalho, do qual é pesquisador principal, despertou grande interesse e fomentou discussões sobre o manejo clínico da doença fora do ambiente de ensaios clínicos. Chiattone também participou como coautor no estudo liderado pela Dra. Thais Fischer, “Number of extranodal sites in PTCL as prognostic marker in real-world setting. An analysis of 645 cases enrolled in the T-Cell Project 2.0”, que avaliou o impacto prognóstico da presença de múltiplos sítios extranodais em linfomas periféricos de células T (PTCL). Organizado pela Foundation for the Institute of Oncology Research, a ICML conta com a cooperação da American Association for Cancer Research (AACR), da Foundation for the European School of Oncology (ESOF) e da European Society for Medical Oncology (ESMO), todas instituições parceiras da ABHH. A ABHH foi representada no ICML 2025 pelos diretores Carlos Chiattone, Glaciano Ribeiro, Jorge Vaz Neto e Renato Tavares, além de membros dos Comitês de Terapia Celular e Doenças Linfoproliferativas Fotos: Divulgação
Foto: Getty Images 22 ABHH em Revista 14 / 2025 POR UMA CULTURA CIENTÍFICA MAIS INCLUSIVA Mesmo com avanços, as mulheres ainda enfrentam barreiras para alcançar posições de liderança na pesquisa científica. Iniciativas globais e da ABHH buscam reverter esse cenário e tornar a ciência mais equitativa Por Danilo Gonçalves e Talita Ribeiro em perspectiva
14 / 2025 ABHH em Revista 23 E m novembro do ano passado, um estudo publicado pela Blood, principal periódico da American Society of Hematology (ASH), trouxe à tona um tema importante: a sub-representação feminina na liderança de ensaios clínicos em onco-hematologia. Intitulado “Representation of Women As Leaders of Hemato-Oncology Clinical Trials”, o artigo é considerado o primeiro a analisar esse recorte específico. A conclusão é clara: mulheres são minoria como pesquisadoras principais em estudos clínicos de Fase 3, sobretudo nos ensaios conduzidos pela iniciativa privada. A análise teve como base publicações de 2021 na plataforma PubMed em estudos sobre mieloma, linfoma e leucemia. Nos últimos anos, ações coordenadas por entidades médicas, farmacêuticas e redes de especialistas têm buscado enfrentar a desigualdade de gênero na área. A European Hematology Association (EHA, sigla em inglês) criou, em 2020, sua Força-Tarefa sobre Diversidade, Equidade e Inclusão, com iniciativas voltadas ao fortalecimento de grupos sub-representados. Mais recentemente, lançou um Plano de Igualdade de Gênero, que busca apoiar a igualdade de gênero em todos os aspectos da hematologia como eventos, concessão de bolsas até parcerias colaborativas e publicações. Na indústria, o movimento “HERmatology”, liderado globalmente pela AstraZeneca, almeja o compromisso de ampliar a presença feminina em funções-chave da hematologia. Outro destaque é a aliança internacional Women in Lymphoma (WiL), que busca promover a liderança feminina no tratamento do linfoma ao redor do mundo. A equidade de gênero também está no foco da ABHH. Desde 2021, a entidade incorporou o tema à sua missão e, em 2023, criou o Comitê de Equidade. Uma das frentes deste Comitê é formar, ainda este ano, um movimento interligado que visa implementar políticas de inclusão e dar suporte à trajetória científica das mulheres. “Temos metas estratégicas para ampliar a representatividade e criar oportunidades para as médicas hematologistas”, afirma a Dra. Violete Petitto Laforga, diretora de Ações Sociais da ABHH. Isso inclui uma pesquisa nacional, campanhas de visibilidade e eventos voltados ao fortalecimento feminino na área. A ABHH atua junto à Comissão Nacional em Defesa dos Direitos da Mulher Médica (CONADEM), da Associação Médica Brasileira (AMB), reforçando sua participação institucional no debate sobre igualdade de gênero.
As mulheres têm menos acesso a bolsas de produtividade nível 1A, aos grandes editais temáticos e a recursos essenciais para consolidar liderança na ciência Dra. Fernanda Orsi, pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico ABHH em Revista 14 / 2025 24 Ciência ainda desigual Embora haja um número crescente de pesquisas científicas conduzidas por mulheres, o público feminino ainda é minoria como autor principal em revistas de alto impacto. O estudo “Race/Ethnicity and Gender Representation in Hematology and Oncology Editorial Boards: What is the State of Diversity?”, publicado na revista The Oncologist, em 2023, revelou que conselhos editoriais de periódicos de hematologia e oncologia seguem predominantemente masculinos. “Estudos mostram que artigos com autoras mulheres são, em média, menos citados do que os de autores homens, o que afeta as métricas de produtividade. Além disso, as pesquisadoras tendem a submeter menos artigos ou a submetê-los tardiamente por insegurança. Grupos homogêneos tendem a repetir ideias, tornam-se menos criativos e apresentam menor capacidade de resolução de problemas, limitando o progresso científico de várias formas”, comenta a Dra. Juliana Lima, hematologista, pesquisadora e presidente da Academia Paranaense de Hematologia. A hematologista Fernanda Orsi, pesquisadora PQ-2 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), conhece de perto os obstáculos enfrentados por mulheres na ciência. Entre os primeiros desafios, estavam a conquista de credibilidade e o esforço constante para ser levada a sério. Outro desafio, relata, era ser indicada ou convidada para atividades de pesquisa, cargos em revistas científicas, comissões, agências de fomento e grupos de estudo. “Comecei a encontrar um ambiente de maior acolhimento, reconhecimento e estímulo ao meu potencial como pesquisadora apenas quando escolhi uma mulher como orientadora de doutorado”, conta. Professora na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e hematologista no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), a pesquisadora avalia que a trajetória da mulher na ciência tende a ser mais lenta, ocupando menos posições de liderança.” As mulheres têm menos acesso a bolsas de produtividade nível 1A, aos grandes editais temáticos e a recursos essenciais para consolidar liderança na ciência. “Esses recursos, fundamentais para consolidar lideranças e estruturas de pesquisa, são menos acessíveis para as mulheres, o que reforça desigualdades históricas”, afirma a hematologista. “Promover equidade no acesso a cargos de liderança na pesquisa é essencial para impulsionar, de forma justa e sustentável, o avanço da carreira científica das mulheres”, defende. em perspectiva Foto: Divulgação
Estudos mostram que artigos com autoras mulheres são, em média, menos citados do que os de autores homens, o que afeta as métricas de produtividade Dra. Juliana Lima, presidente da Academia Paranaense de Hematologia 14 / 2025 ABHH em Revista 25 Ser mãe ou ser cientista? Entre os desafios que atingem especialmente as mulheres cientistas, a maternidade se destaca. A gestão do tempo, o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, e a desigualdade salarial são obstáculos concretos. “Muitas vezes, a mulher precisa escolher entre avançar na carreira acadêmica ou assumir um cargo de liderança”, pontua a Dra. Violete. Ainda pouco debatido, o impacto da maternidade na carreira científica tem efeitos mensuráveis. Uma pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF) revelou que mães cientistas apresentam maior vulnerabilidade à depressão, reflexo do acúmulo de tarefas domésticas e responsabilidades familiares. Os dados foram apresentados na dissertação de mestrado “O impacto da maternidade na saúde mental da comunidade acadêmica: identificando vulnerabilidades”, da pesquisadora Sarah Rocha Alves. Durante seu doutorado, a Dra. Fernanda Orsi teve dois filhos e atribui o sucesso de sua tese, em grande parte, à compreensão e apoio da sua orientadora. “Sem esse suporte, talvez eu tivesse desistido não apenas do doutorado, mas, principalmente, da carreira acadêmica. No pós-doutorado, também tive uma orientadora mulher. Mudei-me para o exterior com minha família, filhos pequenos, enfrentando o desafio de organizar a vida de todos em um país novo, enquanto desenvolvia meu projeto de pesquisa. O acolhimento dessa orientadora no exterior foi fundamental para o êxito do meu trabalho”, relata. Infelizmente, ainda é comum que cientistas brasileiras em início de carreira enfrentem interrupções durante a maternidade, o que afeta diretamente sua produtividade. Por isso, é fundamental implementar estratégias como horários flexíveis, licenças-maternidade adequadas e redes de apoio que facilitem a conciliação entre a vida acadêmica e a maternidade. “Precisamos de políticas concretas de equidade, com incentivos à pesquisa por meio de linhas de financiamento exclusivas para mulheres, além de estruturas de apoio à maternidade, combate ao viés e ao assédio, e programas de mentoria. O suporte à maternidade durante a carreira acadêmica é essencial”, reforça a Dra. Juliana Lima. Foto: Divulgação
ABHH em Revista 14 / 2025 26 Mulheres líderes inspiram mulheres Apesar do cenário ainda desigual que reflete uma combinação de barreiras estruturais, institucionais e socioculturais, há histórias que inspiram. Ao revisitar sua trajetória, a Dra. Fernanda Orsi volta a destacar o impacto que teve o apoio de suas orientadoras durante o doutorado e o pós-doutorado. Ter mulheres como mentoras fez diferença não apenas no desenvolvimento acadêmico, mas também na confiança para seguir na carreira. “Sem esse suporte, talvez eu tivesse desistido não apenas do doutorado, mas principalmente da carreira acadêmica”, afirma. Hoje ela procura retribuir esse acolhimento oferecendo às suas orientandas um ambiente de escuta, incentivo e empatia. Para a pesquisadora, promover o acesso equitativo das mulheres a cargos de liderança é essencial para um desenvolvimento científico sólido e duradouro. Embora o número de mulheres hematologistas seja superior ao de homens, essa representatividade ainda não se reflete nos espaços de decisão como sociedades e comitês científicos que influenciam as diretrizes da especialidade seguem, majoritariamente, sendo liderados por homens, principalmente nos cargos de maior influência. O mesmo cenário se repete nas indicações para representar a área junto a agências de fomento e instâncias estratégicas. “A presença de mulheres na liderança de qualquer sociedade traz um peso importante. A representatividade é algo que traz para outras colegas a certeza de que não estamos sozinhas e que nossas demandas poderão ser atendidas, pois tem alguém ali que entende um pouco melhor dos nossos anseios e desejos, além das nossas necessidades”, acrescenta a Dra. Juliana Lima. Como diretora de Ações Sociais da ABHH, a Dra. Violete chama a atenção para um dado que evidencia a importância dessa transformação: entre as 47 pesquisas registradas na plataforma da associação, apenas 36,2% são lideradas por mulheres, enquanto 63,8% ficam sob comando masculino. Esse cenário contrasta com a realidade da hematologia no Brasil, onde 65,2% dos especialistas são mulheres, segundo a Demografia Médica 2025. “Essa disparidade limita a diversidade de perspectivas, algo essencial para a inovação e a relevância da ciência”, afirma. Para ela, promover a inclusão equitativa das mulheres na liderança científica, dos estudos clínicos aos altos postos em sociedades científicas, é fundamental para enriquecer o debate, ampliar o impacto das descobertas e promover mais justiça e diversidade no campo da hematologia. “A equidade de gênero é um caminho sem volta e passo essencial para construir uma ciência mais justa e diversa.” em perspectiva A equidade de gênero é um caminho sem volta e passo essencial para construir uma ciência mais justa e diversa Dra. Violete Petitto Laforga, diretora de Ações Sociais da ABHH Foto: Divulgação
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